sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Thomás poderá ser prefeito por 14 anos consecutivos.

 



Em Brasília, tramita a PEC 12/2022, que propõe extinguir a reeleição para chefes do Executivo — presidente, governadores e prefeitos — e ampliar os mandatos para cinco anos. O texto, porém, ganhou novas dimensões com uma emenda que pode transformar profundamente o cenário político dos municípios: a unificação de todas as eleições brasileiras a partir de 2034, alinhando em um único pleito as disputas municipais, estaduais e federais. 

Para viabilizar essa unificação, seria criada uma regra de transição inédita: prefeitos eleitos em 2020 e reeleitos em 2024 poderiam concorrer novamente em 2028. Um ciclo excepcional de três mandatos consecutivos.

Se a PEC avançar, as eleições de 2034 poderão se tornar as mais complexas da história democrática do país. Em um único dia, o eleitor teria que escolher presidente, dois senadores, deputados federal e estadual, governador, prefeito e vereador. Uma verdadeira maratona eleitoral, que tende a gerar filas extensas, elevar os índices de abstenção, votos brancos e nulos.

Os municípios seriam os principais prejudicados. Suas pautas — mobilidade, saúde, habitação, segurança, empregos, educação — seriam engolidas pela polarização nacional e pela disputa ideológica que domina as eleições gerais. O eleitor ficaria soterrado pelas narrativas nacionais, enquanto temas essenciais do seu dia a dia perderiam espaço. Essa dinâmica abriria caminho para fenômenos típicos da política nacional, como candidatos desgastados em suas regiões, buscarem projeção em outras cidades. Não seria impossível imaginar, por exemplo, alguém associado ao clã Bolsonaro disputar alguma prefeitura, sem sequer conhecer a cidade pretendida, como Carlos, que almeja ser senador por Santa Catarina. 

A possibilidade de mais uma reeleição pode gerar um revés histórico e frustrante para diversas lideranças políticas  que já se articulam para disputar uma Prefeitura nas eleições de 2028.  Muitos desses nomes possuem planejamento estruturado, grupos organizados, base social ativa e discurso pronto para 2028. A partir desse novo cenário, novas estratégias precisam ser definidas para competir com quem está com oito anos de mandato e com possibilidades reais de permanecer mais seis anos no comando da cidade. 

Nesse ambiente de incertezas, cada movimento político passa a valer dobrado. A forma como as lideranças reagirem ao novo tabuleiro definirá não somente 2028, mas o próprio destino de seus projetos. A polarização, com a unificação das eleições ou não, estará presente nas disputas municipais, e muitos oportunistas tentarão surfar nela para esconder a ausência de propostas locais. Cabe ao eleitor ficar atento a quem dedica mais energia aos seus ídolos de Brasília do que à sua própria cidade. 

Agora, quanto ao eventual terceiro mandato de Thomás, tudo dependerá do destino da PEC 12/2022 — e de uma combinação complexa de variáveis que começam muito antes da urna. Se a PEC passar, Thomás só terá chances reais caso consiga manter altos índices de aprovação, comunicar com precisão suas entregas, neutralizar crises e criar uma narrativa de continuidade indispensável para a cidade. 

Do outro lado, seus adversários jogarão pesado. Além de produzir agendas positivas, poderão explorar vulnerabilidades, amplificar desgastes, tensionar erros administrativos, com o objetivo de provocar crises políticas, de narrativas ou institucionais. Entrarão no jogo ainda a ocupação de territórios digitais, alianças inesperadas e tentativas de nacionalizar — ou municipalizar — temas conforme lhes convier.

No fim, o tabuleiro não será somente jurídico ou administrativo: será comunicacional, emocional e narrativo. E quem dominar essas variáveis chega competitivo a 2028 — com ou sem PEC.

Fabio Chrispim Marin

Consultor de Comunicação, Marketing Estratégico e Político





sexta-feira, 14 de novembro de 2025

O Presente que o “Mercadão” pede em Silêncio

 





O aniversariante de novembro, o “Mercadão Dona Lica”, comemorou mais um ano de história com direito a retreta da Banda Santa Cecília e até bolo de aniversário — uma justa homenagem a um espaço que, há 41 anos, faz parte da memória afetiva de Itatiba.

Talvez o melhor presente que ele pudesse receber neste aniversário fosse algo mais duradouro: um projeto de lei ou decreto municipal que regulamentasse a transferência dos boxes para novos empreendedores, garantindo a vitalidade comercial e a ocupação plena do espaço. Hoje, o entrave nas transferências provoca um problema visível com os boxes vazios: a perda de dinamismo. Por ser um prédio público, o “Mercadão” funciona sob o regime de permissão de uso, e seus boxes são concedidos por licitação, na modalidade leilão. Vence quem oferecer o maior valor pela chamada “joia”. No entanto, a legislação impede a venda ou transferência dessa permissão. Assim, quando o permissionário decide encerrar as atividades, é obrigado a devolver o box ao município, que precisa abrir novo processo licitatório — um trâmite lento, burocrático e desestimulante.

Essa rigidez legal tem um custo alto: desocupações prolongadas e queda no movimento. Por isso, é urgente que o poder público encontre um caminho jurídico equilibrado, que permita a continuidade dos negócios e a chegada de novos empreendedores, sem ferir os princípios da legalidade. Um bom exemplo vem de São Bernardo do Campo, que criou um procedimento regulamentado para a transferência de permissão de boxes. O modelo, simples e transparente, reduziu drasticamente a vacância, aumentou o faturamento geral e o fluxo de visitantes — um resultado que pode ser facilmente replicado em Itatiba.

Apesar dos desafios, o “Mercadão Dona Lica” segue sendo um espaço pulsante, com uma praça de alimentação acolhedora, já consolidada como ponto de encontro de amigos e famílias. É um universo de cores, sabores e produtos regionais: bancas de agropecuária, pesca, hortifruti, temperos, massas, doces, uma infinidade de bebidas e queijos. Um cenário que encanta qualquer amante da boa gastronomia. Mais do que um centro de compras, é um espaço de convivência e cultura, símbolo da identidade itatibense, que precisa ser revitalizado comercialmente, com políticas inteligentes e gestão moderna.

Os mercados municipais vêm se reinventando. O segredo tem sido a combinação de gestão eficiente, regulamentação moderna e estratégias de marketing bem planejadas, que valorizam o comerciante e a experiência do visitante. Em Campinas, o Mercado Municipal passou recentemente por uma ampla revitalização física e de marca, transformando-se em polo turístico e gastronômico, com eventos, oficinas e campanhas que reforçam sua ligação com a cidade. Já em Sorocaba, a modernização incluiu capacitação dos permissionários e a criação de uma incubadora de pequenos negócios gastronômicos e artesanais, tornando o espaço dinâmico e inovador.

Esses exemplos comprovam que, com planejamento e visão estratégica, o “Mercadão Dona Lica” pode se consolidar como um espaço de experiências e uma vitrine do que Itatiba tem de melhor: sua hospitalidade, sua culinária e seu empreendedorismo. Itatiba abriga grandes indústrias alimentícias, um setor leiteiro de destaque e uma indústria criativa gastronômica em expansão. Aproximar esse universo do Mercadão é o passo natural para sua revitalização. Com criatividade e articulação, é possível promover degustações, mostras e feiras de produtos locais. Por meio de parcerias entre produtores e comerciantes, o espaço pode se consolidar como um palco permanente da indústria alimentícia e da cultura alimentar de Itatiba. 

O “Mercadão Dona Lica” já carrega alma e tradição; cabe à Prefeitura de Itatiba — legítima guardiã de sua marca — cumprir a obrigação histórica de devolver-lhe o brilho e o protagonismo que ele merece.

Fabio Chrispim Marin

Consultor de Comunicação e marketing Estratégico





quinta-feira, 6 de novembro de 2025

"A Unanimidade é Burra:" O Segredo por trás dos Projetos Irrelevantes

 

Prólogo

Nas arcadas do poder local, encenou-se uma tragicomédia (ou seria farsa?) que o próprio Nelson Rodrigues assinaria sem pestanejar. Uma comédia de equívocos onde o óbvio precisa de lei, o trivial vira urgência, e a irrelevância se veste de legado. Em sua genialidade ímpar, o legislativo concedeu, através de um Projeto de Lei, o direito histórico de um bloco de carnaval... desfilar no carnaval. 

Sim, você leu corretamente. O PL — Projeto de Lei "assegura" a participação de um bloco ligado a uma clínica na programação oficial do Carnaval. Uma causa nobre, sem dúvida. Mas eis o detalhe sublime: qualquer bloco carnavalesco consegue isso com uma simples solicitação junto à Secretaria de Cultura e Turismo. Não é necessária uma lei.

Aliás, nenhuma outra agremiação na história carnavalesca da cidade precisou de uma.

O arquivo morto entra em cena

Encerrada a euforia da aprovação, o projeto encontrou seu destino mais nobre: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Mas nem as pastas mais antigas, acostumadas a abrigar as preciosidades do nada, estavam preparadas para tamanha exuberância do inútil. A revolta foi imediata. Convocou-se, às pressas, uma reunião emergencial para decidir onde arquivar tamanha obra-prima da desimportância pública, um monumento à genialidade do supérfluo que, reconheça-se, atingiu níveis inéditos de excelência.

Quem mais se indignou foi a pasta  “No Âmbito Municipal”, responsável por abrigar os projetos que legislam sobre um dia já celebrado no calendário nacional, e conhecido popularmente como “os irmãos gêmeos das datas nacionais”. Com sua sabedoria em eventos e efemérides, pediu a palavra e expôs a sua opinião:

— A seletividade é digna de nota — vociferou. — Será que o nobre autor do projeto já assistiu a um único desfile cívico do Sete de Setembro ou prestigiou a apresentação dos blocos e escolas de samba no carnaval na cidade? Se tivesse assistido, veria com seus olhos que esses já são os verdadeiros palcos de inclusão desta cidade. Pessoas com todos os tipos de deficiência, inclusive com transtornos do neurodesenvolvimento, desfilam, brincam e são celebradas. Nossa cidade é exemplo de inclusão espontânea em seus eventos, sem precisar de uma lei para sê-lo. 

A pasta do “Cooperativismo Situação–Oposição”, carinhosamente apelidada de “eu aprovo o seu e você aprova o meu”, prontificou-se, com falsa modéstia, a receber o projeto.

— Estou abarrotada, é verdade, mas essa é a minha sina. O que os nobres vereadores ainda não entenderam é que o cidadão até tolera o erro, mas não perdoa o abandono. E hoje, meus caros, eles sentem assim: abandonados…por irrelevâncias como essa.

Fez uma breve pausa, ajeitou a aba e continuou, com ironia:

— Para sustentar o teatro do “Faz de Conta”, eles fazem da tragédia uma comédia, e assim, projetos sem propósito como este são aprovados num consagrador abraço entre governo e oposição: Eu aprovo o seu, você aprova o meu. E, no final,  todos saem sorrindo, como se tivessem feito história.

Um soluço abafado ecoou do fundo da sala. Era a pasta dos “Projetos Não Sancionados pelo Prefeito”. Visivelmente transtornada, já em prantos e abraçando uma caixa de "lenço de papel Yes¹" como se ela fosse um salva-vidas, desabafou:

— É sempre a mesma coisa! E o final é previsível... o prefeito sanciona o disparate! Esses projetos são uma pandemia de inutilidades para a qual, infelizmente, ainda não inventaram vacinas! E eu, como fico? Totalmente vazia... sem nenhum — ou melhor, nenhumzinho — projeto para conversar, para passar o tempo! Estou às portas da depressão! Se não fossem essas reuniões emergenciais, não sei o que seria de mim…

O desabafo caiu na sala como um peso. Um silêncio constrangedor se espalhou entre as prateleiras. As outras pastas se entreolharam, sem encontrar palavra alguma de consolo. Afinal, o que dizer a alguém cuja única função na vida era... ser esquecida?

A caixa de “Primeiros Socorros Legislativos para Crises no Executivo”, cujo conteúdo se resumia a três carimbos: "URGENTE, VISTO E REPROVADO", aproximou-se com certo constrangimento. Tentou um gesto de solidariedade e deu uns tapinhas desajeitados na capa da colega dos “Projetos Não Sancionados”.

— Calma, colega...Você já tentou conversar com um carimbo? Querida, eu também vivo sozinha... Mas veja pelo lado positivo! Enquanto o prefeito se ocupa sancionando essas genialidades legislativas, pelo menos não inventa mais nenhum empréstimo mirabolante, nem cria outra subsecretaria para empregar filhos e apadrinhados dos vereadores.

Fez uma pausa, endireitou o rótulo amassado e concluiu com ar filosófico:

— O nosso vazio, minha cara, é a última linha de defesa contra o endividamento da prefeitura. Somos o silêncio que impede a ruína. Pense nisso... somos resistência!

Um breve murmúrio de aprovação percorreu as prateleiras, mas logo o ambiente voltou ao silêncio solene que caracteriza os arquivos mortos. Até que, com a pompa de quem anuncia um parecer final, a pasta do “Selo Amigo” — responsável por etiquetar os recém-chegados — pediu a palavra.

— Caríssimos, Nelson Rodrigues, em sua sabedoria sarcástica, já advertia: “A unanimidade é burra.” E o legislativo local acaba de comprovar, com louvor e unanimidade, que ele tinha razão.

Ergueu a lombada com elegância erudita e prosseguiu, numa cadência de ata cerimonial:

— Assim, o Festival de Projetos Irrelevantes segue a todo vapor, produzindo pouco, consumindo tempo e recursos públicos e enterrando, voto a voto, o que resta da credibilidade política local. Então, queridos colegas, só nos resta cumprir nosso dever institucional: arquivar as irrelevâncias, uma a uma, com a dignidade de quem preserva o nada.

De repente, o som de uma buzina fanha interrompeu o silêncio. Era a pasta do “Dia do Fusca” — que permanecera calada o tempo todo,

— Pelo que vejo, existe um complô para me derrubar... Não me surpreenderia se aparecesse um PL para “garantir a um galo, de um determinado avicultor, o direito sagrado de ciscar no seu próprio galinheiro”.

E, após uma pausa dramática, finalizou:

— E, para piorar, é até possível que algum dos seus nobres pares proponha uma emenda assim: ‘Fica terminantemente proibido o galo ciscar para frente, mesmo que no seu galinheiro’. 

Fecham-se as cortinas da irrelevância legislativa! 

Notas:

1 - Lenço de Papel Yes — fabricado pela Johnson & Johnson na década de 1960.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

A chegada do Dia do Conservadorismo ao Arquivo Morto

 



   A ata do “PL  Dia do Conservadorismo”, assinada e promulgada com a solenidade de quem decreta feriado nacional, chegou ao seu destino final: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Chegou cheio de pompa e refesteleiro, ainda que lhe faltasse a maionese — e a maioria absoluta — na aprovação. Ao adentrar o recinto empoeirado, deparou-se com seus futuros colegas de repartição.

— E você, o que veio fazer aqui? — perguntou o PL Dia do Fusca, líder natural do arquivo, com os faróis já arregalados.

— Sou o Dia do Conservadorismo! — respondeu o recém-chegado, inflado de orgulho. — Fui apoiado por líderes religiosos e políticos de expressão municipal e nacional!


Nesse instante, a Pasta de Projetos no Âmbito Municipal soltou uma gargalhada sonora. — Líderes? Aqui, todo mundo tem um. E olhe pra gente agora: todos gloriosamente esquecidos.


Atrás dela, acenava o Dia do Empreendedorismo Ecumênico, que ergueu a voz: — Isso é nada! Fui inspirado nos grandes mestres da arte de enriquecer: Valdomiros, Felicianos, Silas, Macedos… e ainda por inúmeros cardeais e papas! E estou aqui, esquecido e sem recursos para celebrar a minha data. Não consigo nem pagar o dízimo. Nem durmo direito, pois, segundo alguns pastores e padres, minha inadimplência já me garantiu um lugar cativo no inferno!


O PL Dia do Fusca, com a paciência de quem já rodou mil léguas sobre paralelepípedos, buzinou suavemente — um som baixo e cansado que ecoou como um suspiro no Arquivo Morto.


— Meu caro Dia do Conservadorismo, permita-me uma lição de estrada. Aqui, sob este manto de poeira, repousam os irrelevantes. Fomos todos gestados no ventre de algum interesse eleitoral e paridos pelo consagrador abraço do corporativismo entre os pares. Nossas vidas são foguetes de confete: um espetáculo efêmero para iludir eleitores, até cair no esquecimento da história. Tudo pelo voto. Tudo pelo poder. 

Após uma pausa para tirar o pó de sua capa, o  PL Dia do Fusca retomou a palavra:


— A minha irrelevância é atemporal, mas sou um símbolo verdadeiro. Criei memórias afetivas e tive a sorte de ter um Clube do Carro Antigo na cidade. Já você… é só uma data no calendário. Será relegado à própria insignificância. Garanto: até o próximo 10 de março, ninguém — mas ninguém mesmo — lembrará que você existe. Talvez, o seu autor suba ao púlpito e repita algum termo que aprendeu recentemente com algum youtuber. Você não terá nada mais, meu querido.


O PL  Selo Amigo, responsável pela etiquetagem dos recém-chegados, percebeu que o Dia do Conservadorismo sentiu o golpe. Com a sua contumaz empatia, abraçou-o fraternalmente, afagou-lhe a capa e, com doçura burocrática, disse:

Meu caro, não fique triste… veja pelo lado positivo! Aqui a gente se aposenta no mesmo instante em que nasce. É o único lugar do mundo onde a irrelevância é um cargo vitalício. Temos regalias que nem o plenário tem: assistir à Galinha Pintadinha sem que ninguém acuse a pintinha de doutrinação. É a vida boa — ou melhor, é a morte lenta e irrelevante, mas com desenho animado liberado. Finalizou, com um sorriso de quem conhece o fim de todas as leis irrelevantes:

— Não é uma benção… é uma absolvição.

Notas do autor

1. Um esclarecimento necessário: não sou contra o conservadorismo enquanto posição ideológica. Sou contra a irrelevância legislativa. Sou contra o desperdício de tempo, de recursos públicos e da capacidade e conhecimento dos vereadores em projetos que não melhoram a qualidade de vida do cidadão. 

2. Um conselho de marketing político ao nobre vereador: na próxima quarta-feira, use a Tribuna Livre para explicar como você, autor do projeto, pretende investir seus conhecimentos, tempo e seus recursos para fazer do Dia do Conservadorismo uma data marcante na história. Tenho certeza de que seus eleitores ficaram orgulhosos por ter um líder conservador como você. Mas sem repetir as inverdades da última sessão.

3. Resposta ao pronunciamento do vereador: lamento profundamente que, ao defender o seu projeto, ele tenha optado por acusações falsas e gravíssimas sem qualquer fundamento. Diante de alegações que beiram a calúnia, recorro à mesma fonte moral que ele diz guiar sua vida pública com dois lembretes:

  • “Não espalharás notícias falsas” (Êxodo 23:1).

  • Aparta de ti a falsidade da boca, e a perversidade dos lábios põe longe de ti.” (Provérbios 4:24)





sexta-feira, 24 de outubro de 2025

DIA DO CONSERVADORISMO






  Itatiba celebra símbolos e ignora Futuros

Sim, meus caros, Itatiba acaba de ganhar um novo marco em seu calendário: o Dia do Conservadorismo. Aprovada com pompa e circunstância pela Câmara Municipal, a data – a ser comemorada todo 10 de março — já nasce com tamanha relevância que deixa até o Dia do Fusca envergonhado.

Enquanto parte de nossos vereadores se dedica a aprovar temas de relevância, no mínimo, duvidosa, um silêncio inquietante paira sobre uma crise real e urgente: o êxodo silencioso de nossos jovens do ensino médio. Os números não mentem. Segundo o Centro de Liderança Pública, Itatiba despencou 84 posições no ranking de acesso ao ensino médio em 2024 e ocupa a vergonhosa 164ª posição no Brasil*. 

Diante desse cenário, é legítimo perguntar: estamos mesmo "conservando" o que importa? O ensino médio, etapa crucial que define trajetórias de vida, é de responsabilidade direta do governo do estado. Portanto, a pergunta que se impõe é: não seria a atitude mais genuinamente conservadora a edilidade cobrar incansavelmente o governador — e conservador — Tarcísio de Freitas o cumprimento de sua “promessa” de mais uma escola de ensino médio para Itatiba? 

A construção de escolas de ensino médio nas regiões periféricas de Itatiba, poupará nossos jovens de jornadas exaustivas de ônibus — uma barreira concreta que alimenta a evasão escolar. Enquanto a “promessa” de uma nova escola é somente uma “promessa”, a evasão, alimentada pela necessidade de trabalhar ou procurar emprego, responde por 39,1% do abandono escolar no país (IBGE), continua sua marcha silenciosa.

Senhores vereadores, vocês foram eleitos por um grupo, mas agora representam a cidade toda, portanto: 

É de vossa obrigação promover estudos e debates que de fato escutem as dores, necessidades e motivações da nossa juventude, principalmente nos alunos que estão concluindo o 9º ano do ensino fundamental. É preciso entender por que a falta de interesse responde por 16,5% das saídas da escola e, a partir daí, construir com eles um futuro que faça sentido. Um futuro que dialogue com o que eles sonham e esperam conquistar em suas vidas.

É de vossa obrigação propor e negociar junto ao executivo medidas concretas que derrubem as barreiras que afastam os nossos jovens da escola. Isso inclui desde programas de incentivo financeiro — nos moldes do ‘Pé de Meia’ federal — até a garantia de transporte gratuito, que anule o custo de deslocamento. 

Senhores vereadores: 

Daqui a vinte anos, o que terá mais valor para vocês: uma foto desbotada ao lado de uma placa simbólica ao Dia do Conservadorismo, ou a lembrança viva de uma geração de jovens que conseguiu concluir o ensino médio e ingressar na faculdade? 

Esses sim seriam os projetos dignos de aprovação. 

Esses sim seriam os legados dignos de celebração.

A criação do 'Dia do Conservadorismo' vai muito além de uma mera homenagem calendária, revela-se um gesto político calculado para consumo de um nicho ideológico específico. 

No entanto, assim como ocorreu com o 'Dia do Fusca', sua utilidade prática para a população será nula. Restará, no fim das contas, apenas a constatação de que se trata mais de um símbolo vazio do que de uma ação concreta para melhorar a vida dos cidadãos itatibenses. 

É triste! Mas é o legado que a Câmara Municipal de Itatiba optou por construir.

 

* Fonte: Ranking CLP — Centro de Liderança Pública.

https://rankingdecompetitividade.org.br/municipios/




sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O FAZ DE CONTA POR TRÁS DOS VÍDEOS DOS VEREADORES

 



Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil, parece ter previsto nossa era digital. Em "Teoria do Medalhão", seu conto sobre a arte de triunfar na vida não pelo talento, mas pela bajulação, superficialidade e fama vazia, ele poderia estar descrevendo o manual de sobrevivência do político moderno. Se vivesse hoje, não teria dúvidas: diagnosticaria as redes sociais como a vitrine definitiva dos medalhões do século XXI. 

É nesse cenário que a política se transforma em coreografia ensaiada. Já não são necessárias tribunas nem salões — bastam um celular, um filtro digital e uma boa dose de desfaçatez. Tudo com um roteiro teatral, onde vigora uma lei não escrita: a arte de se apropriar do que já está pronto. Alguns vereadores governistas encenam um reality show de conquistas, sobre o pano de fundo silencioso das obras já concluídas. Passeiam por realizações alheias, transformando o cronograma da prefeitura em seu próprio currículo. Protocolam requerimentos solicitando melhorias, omitindo cuidadosamente em suas redes que a solicitação já constava no cronograma oficial da prefeitura.  Assim, o "faz de conta" deixa de ser artimanha e consolida-se como método de trabalho. Enquanto isso, nas ruas, a oposição dedica-se a garimpar problemas e omissões..

Caso real:  O Ar-Condicionado Profético

Um caso de alguns anos atrás, digno de registro, ilustra com perfeição essa dinâmica. A concessionária de transporte público de uma pequena cidade paulista estava para receber uma nova frota. É importante entender: comprar um ônibus não é como comprar um pão na padaria. O processo é lento — primeiro adquire-se o chassi, que depois segue para a montagem da carroceria e a pintura nos padrões da empresa, em seguida a compra e instalação dos equipamentos constantes no contrato com a prefeitura. Um ciclo que naturalmente consome meses entre o pedido e a entrega. Pois bem. Um nobre vereador, convenientemente munido de informações privilegiadas sobre a data de entrega dos ônibus  — e, pasmem, de que os veículos já viriam com ar-condicionado —, decidiu agir. Vinte dias antes da chegada da nova frota, protocolou um solene requerimento, no qual solicitava que os novos ônibus fossem  equipados exatamente com o mesmo ar-condicionado que já estava instalado neles. Para comprovar seu "trabalho visionário", postou em suas redes o documento protocolado, atribuindo a si uma conquista que já era fato consumado. 

O Preço da Encenação

Várias outras ações semelhantes pipocam nas redes sociais. Desde entrega de uniformes escolares, implantação do Refis, obras em vias públicas, muros caindo e milagrosamente reconstruídos e reformas diversas. Tudo ensaiado com o executivo: script pré-formatado em um teatro coreografado para criar a ilusão de trabalho no palco digital. Tudo pelos likes! 

A pergunta que se impõe é: quando a encenação fica tão evidente, o que resta além do constrangimento público? Restam os frutos amargos da própria irrelevância. Ao se reduzirem a meros instrumentos de divulgação do Executivo, os vereadores renunciam a seu verdadeiro poder: o de fiscalizar, propor e representar diretamente seus eleitores. Transformam-se em influencers do poder, hipnotizados pelos aplausos de um público que, muitas vezes, nem sequer foi quem os elegeu. 

Enquanto isso, a oposição ocupa o vácuo que deixam. E não precisa criar crises — basta somente apontá-las e colher dividendos políticos reais: nas dores tangíveis da população quanto à saúde, educação e serviços públicos.

No grande teatro da política, quem aceita o papel de coadjuvante acaba esquecido atrás das cortinas. O palco devora os que se contentam com migalhas de visibilidade. 

Fabio Chrispim Marin é consultor em Marketing Politico e Comunicação