Catarina faleceu.
Uma morte fria. Literalmente gelada.
A família ficou consternada. Abalada, Em choque — ou pelo menos o suficiente para gerar conteúdo. Mas quem realmente entendeu o potencial daquele momento foi a prima influencer, especialista em transformar qualquer emoção em métricas.
Sem perder tempo — porque timing é tudo — soltou o post padrão:
📸 Fundo preto
🎗️ Laço discreto
🖤 A palavra: LUTO
Só isso.
Sem nome completo. Sem contexto. Sem causa da morte. Sem localização do velório. Sem link na bio. Sem CTA. Nada. Um minimalismo estratégico. Um silêncio altamente performático. E foi aí que começou o espetáculo.
Uma sequência interminável de comentários que faria qualquer social media pedir aumento:
— Nossa! O que aconteceu?
— Quem morreu???
— Qual a funerária???
— Vai ser um velório aberto ou só pra família?
— Enterro ou cremação?
— Me chama no direct!
— Pelo amor de Deus, alguém explica!!!
— Já tem horário???
— Gente, eu PRECISO saber!!! 😭
E, claro, os clássicos:
🙏 Meus sentimentos
🙏 Sentimentos à família
🙏 Que Deus conforte
🙏 Que esteja em um lugar melhor
Sem saber quem faleceu, Mas comentando com autoridade.
Enquanto isso, o algoritmo sorria.
Curtidas subindo.
Comentários explodindo.
Engajamento orgânico.
Alcance entregue.
Story já preparado.
Reels a caminho.
Mas nada de informação.
Nada sobre quem morreu.
Nada sobre o defunto.
Nada sobre o velório.
A essa altura, entraram os comentaristas teológicos profissionais, Versículos sendo distribuídos com precisão bíblica, sem sequer saber quem era o defunto.:
📖 “Eu sou a ressurreição e a vida…”
📖 “Ele enxugará toda lágrima…”
📖 “Ainda que ande pelo vale da sombra da morte…”
📖 “Na casa de meu Pai há muitas moradas…”
A dor e o luto ficaram coletivos. A cidade toda consternada, e a informação, inexistente.
E o post seguia firme, estático…
Sem edição.
Sem atualização.
Sem nenhum esclarecimento.
Interpelada pelos familiares, a prima influencer foi categórica: não revelem nada ainda, o mistério gera retenção!
O povo , os amigos, conhecidos, curiosos profissionais e fofoqueiros de plantão e desafetos, já estavam emocionalmente envolvidos. A essa altura, os desesperados e agoniados seguidores, somente queriam um desfecho.Afinal quem morreu!
No dia seguinte, com números que fariam qualquer curso de marketing digital pedir licença para virar case:
👍 3.500 curtidas
🔁 600 compartilhamentos
💬 3.250 comentários
Veio, enfim, a revelação em um post emocionado.
A família enlutada agradece as mensagens e o apoio neste momento tão difícil com a partida da querida Catarina.
Catarina era a fiel companheira noturna da tia Coloca: Diariamente, conversavam sobre tudo — ou melhor, tia Colaca falava, respondia e interpretava Catarina com absoluta convicção, sustentando uma relação profunda, intensa e rigorosamente unilateral. Catarina, por sua vez, mantinha seu estilo reservado: observava em silêncio e, vez ou outra, ensaiava um discreto flerte.
Após quatro dias sem aparecer, tia Colaca entrou em desespero e mobilizou a família. Buscas foram realizadas, em um verdadeiro mutirão emocional, até que Catarina foi encontrada atrás do sofá, já em estado avançado de desidratação existencial.
Para evitar um colapso psicológico da tia Colaca, providenciamos imediatamente uma substituição estratégica. Hoje, ela já está feliz. Conversa diariamente com Cláudia — a nova lagartixa — , relembrando, com saudade, as aventuras e peripécias da saudosa Catarina.
Em tempo: Catarina foi jogada no vaso sanitário, com as devidas honras.
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