terça-feira, 12 de maio de 2026

ZONA AZUL: A DRAGA OFICIALIZADA

 


Fabio Chrispim Marin

No artigo anterior, mostrei como as novas “dragas econômicas digitais” — bets, marketplaces, streamings e plataformas globais — passaram a retirar bilhões de reais da economia das cidades, drenando o consumo do comércio local e reduzindo a circulação de renda entre pequenos negócios e prestadores de serviços. 

Como se isso não bastasse, a Prefeitura de Itatiba decidiu recolocar a Zona Azul no coração comercial da cidade. 

A Zona Azul é uma “draga da economia local”: grande parte dos recursos arrecadados pela concessionária não retorna proporcionalmente para a economia itatibense. O sistema gera poucos empregos, apresenta baixo efeito multiplicador e, ao mesmo tempo, dificulta a permanência das pessoas justamente onde o comércio físico mais precisa delas: nas ruas centrais.

Em 2016, quando ainda era proprietário da Drogaria Zezinho, no centro de Itatiba, escrevi o artigo “Zona Azul: Antimarketing para o Comércio”. O tempo passou, mas a essência daquela reflexão permanece atual. Ao longo dos anos, consolidou-se um consenso popular de que o estacionamento rotativo seria extremamente positivo para o comércio local — uma narrativa amplamente difundida, que, entretanto, não conseguiu comprovar claramente os resultados prometidos para o fortalecimento do comércio. A única comprovação é que o estacionamento rotativo impõe ao consumidor: limitação de tempo e medo da multa. 

A Zona Azul foi baseada em estudos ou em achismos? 

Como profissional de comunicação e marketing, costumo dizer que não existe marketing sem pesquisa. Até o momento, não foram apresentados estudos técnicos que fundamentem os impactos da implantação da Zona Azul sobre o comércio local. Por isso, a pergunta é inevitável: os consumidores foram ouvidos? Existem pesquisas qualitativas e quantitativas sobre como a população enxerga o centro comercial da cidade? Como eles se sentem diante da obrigação de pagar para estacionar em uma vaga pública, sob risco de multa e pontos na CNH?

Mais do que isso, foram realizados estudos sobre o tempo médio de permanência no comércio, comportamento de compra, circulação de consumidores, perda ou ganho de fluxo nas ruas centrais, redução ou ampliação da compra por impulso nas lojas, e se houve migração do consumo para regiões sem estacionamento rotativo? Foram feitas pesquisas comparativas sobre faturamento do comércio, ticket médio, fluxo de pedestres, conveniência percebida e impactos econômicos antes e depois da implantação da Zona Azul? 

Sem esses dados e informações, qualquer defesa categórica da Zona Azul deixa de ser planejamento — e passa a ser apenas achismo travestido de solução técnica.

O consumidor começa a temer o centro. 

Existe um efeito psicológico pouco debatido sobre o estacionamento rotativo: o medo — da multa, dos pontos na CNH e da fiscalização constante. A simples preocupação com horários e penalidades transforma a ida ao centro em uma experiência tensa. Hoje, a infração custa R$195,23, além de cinco pontos na carteira de habilitação.

E isso altera diretamente o comportamento das pessoas.

Em cidades interioranas como Itatiba, o comércio de rua ainda preserva um diferencial valioso: a convivência humana. Caminhar pelo centro, encontrar conhecidos, olhar vitrines, passar pelas bancas de revistas, sentar-se nas praças, tomar um café, comer um pastel, fazer um lanche ou almoçar sem pressa fazem parte da experiência urbana — e também da dinâmica econômica local.

A Zona Azul interfere justamente nesse modelo de convivência e consumo.

Sob a pressão do relógio e da fiscalização, a ida ao comércio deixa de ser espontânea e transforma-se em uma operação cronometrada: compra-se apenas o necessário e vai-se embora rapidamente. Desaparecem o passeio, a permanência nas ruas, a circulação entre lojas e o consumo por impulso.

O centro deixa de funcionar como espaço de convivência, lazer e descoberta, tornando-se apenas um local de passagem rápida.

Esse processo produz um efeito silencioso, porém profundo: reduz o fluxo, diminui a permanência, enfraquece o consumo e corrói, aos poucos, a vitalidade econômica do comércio no centro.

Como exemplo, cito os centros das cidades de Campinas e Jundiaí, que hoje ilustram esse processo de esvaziamento urbano e comercial, marcado pelo aumento de imóveis vagos, pela perda de circulação e pela degradação gradual das áreas centrais, que se tornaram  dormitórios para moradores de rua. 

O comércio trabalhando para a concessionária

Outro aspecto curioso da Zona Azul está na relação criada entre a concessionária e os comerciantes. Consolidou-se uma lógica quase surreal, na qual os lojistas vendem os tickets do estacionamento rotativo sem receber qualquer remuneração pelo serviço, utilizando a própria estrutura comercial para operacionalizar parte do sistema de arrecadação da empresa.

Na prática, o comércio:

  • Interrompe atendimentos aos próprios clientes.

  • Presta suporte operacional aos usuários do sistema.

  • Assume desgaste junto aos consumidores.

  • Utiliza seus funcionários, seu tempo e sua estrutura.

  • E ainda contribui diretamente para a maximização do lucro da concessionária.

Tudo gratuitamente.

Em outras palavras: o comércio local passa a trabalhar gratuitamente para aumentar a eficiência operacional de uma empresa privada, inclusive ajudando a reduzir seus custos com mão de obra. 

O centro está em contagem regressiva? 

A Zona Azul não regulamenta apenas o estacionamento; ela pode estar colocando em contagem regressiva o futuro do centro de Itatiba. Talvez essa deva ser a principal discussão econômica dos próximos anos: como impedir que o dinheiro — e também as pessoas — desapareçam das ruas do centro de Itatiba.





sábado, 9 de maio de 2026

AS DRAGAS DA ECONOMIA LOCAL – Parte 1

 




Historicamente, o varejo de rua sempre enfrentou concorrência: supermercados, atacarejos, shopping centers e, mais recentemente, os  e-commerces e os grandes marketplaces. Mas o cenário atual tornou-se mais complexo e tão agressivo neste momento quanto as bets.  Já não se trata apenas de competição comercial. Estamos diante de verdadeiras “dragas econômicas” — estruturas que retiram dinheiro da economia local sem devolver, na mesma proporção, circulação de renda, empregos ou desenvolvimento para a cidade.

O dinheiro que antes circulava em roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, alimentação e pequenos serviços — movimentando toda a cadeia de  lojas, empregos e fornecedores locais — agora é transferido para plataformas digitais de apostas. O mais preocupante é que esse recurso praticamente desaparece da economia real das cidades.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre 2023 e abril de 2026. O impacto é tão expressivo que equivale, segundo o setor, a quase dois Natais perdidos para o comércio.  A própria CNC estima que, para cada R$ 1 bilhão gasto em apostas online, o varejo perde cerca de 0,7% do faturamento.

Os efeitos já aparecem no orçamento das famílias. Uma parte crescente da renda passou a ser direcionada às apostas, enquanto contas básicas, crediários e financiamentos entram em atraso. Supermercados e lojas de bens duráveis já registram queda no consumo, especialmente entre as classes C, D e E — justamente a base do comércio de rua em cidades médias como Itatiba.

As bets são apenas a face mais visível de um fenômeno maior. Hoje, uma parcela crescente do orçamento doméstico é capturada por serviços e plataformas digitais como streaming de vídeo e música, marketplaces internacionais, aplicativos, assinaturas digitais e crédito consignado. O celular e as Smart TVs  transformaram-se em um verdadeiro shopping invisível, sem vitrine física, sem geração proporcional de empregos locais e sem circulação significativa de riqueza dentro do município.O dinheiro continua existindo, mas deixou de circular no bairro, no comércio local e na economia da cidade.

O pequeno comerciante já não concorre apenas com a loja da esquina. Agora, disputa mercado com gigantes como Mercado Livre, Shopee, Shein e Amazon — plataformas globais, com escalas logística, financeira e tributária inalcançáveis para o varejo tradicional.

Enquanto o lojista local paga aluguel, mantém empregos, enfrenta burocracia, recolhe impostos e ainda patrocina eventos da cidade, as grandes plataformas concentram faturamento sem reinvestir proporcionalmente na economia urbana que consome seus produtos.

O resultado é uma erosão silenciosa do varejo de rua — e, junto com ele, da renda, dos empregos e da própria vitalidade econômica das cidades.

O varejo de rua já enfrenta concorrência global, mudanças no consumo e a drenagem digital da renda familiar. Como se as dragas digitais já não fossem suficientes, Itatiba ainda conseguiu recriar a sua própria draga local: a Zona Azul.

Na próxima parte, o debate abordará como o estacionamento rotativo afasta consumidores, penaliza o comércio de rua e transforma os lojistas em prestadores de serviços gratuitos à concessionária.

Continua…






domingo, 3 de maio de 2026

CATARINA FALECEU. E NINGUÉM EXPLICOU

 





Catarina faleceu.

Uma morte fria. Literalmente gelada.

A família ficou consternada. Abalada, Em choque — ou pelo menos o suficiente para gerar conteúdo. Mas quem realmente entendeu o potencial daquele momento foi a prima influencer, especialista em transformar qualquer emoção em métricas.

Sem perder tempo — porque timing é tudo — soltou o post padrão:

📸 Fundo preto
🎗️ Laço discreto
🖤 A palavra: LUTO

Só isso.

Sem nome completo. Sem contexto. Sem causa da morte. Sem localização do velório. Sem link na bio. Sem CTA. Nada. Um minimalismo estratégico. Um silêncio altamente performático. E foi aí que começou o espetáculo.

Uma sequência interminável de comentários que faria qualquer social media pedir aumento:

— Nossa! O que aconteceu?
— Quem morreu???
— Qual a funerária???
— Vai ser um velório aberto ou só pra família?
— Enterro ou cremação?
— Me chama no direct!
— Pelo amor de Deus, alguém explica!!!
— Já tem horário???
— Gente, eu PRECISO saber!!! 😭

E, claro, os clássicos:

🙏 Meus sentimentos
🙏 Sentimentos à família
🙏 Que Deus conforte
🙏 Que esteja em um lugar melhor

Sem saber quem faleceu, Mas comentando com autoridade.

Enquanto isso, o algoritmo sorria.

Curtidas subindo.
Comentários explodindo.
Engajamento orgânico.
Alcance entregue.
Story já preparado.
Reels a caminho.

Mas nada de informação.

Nada sobre quem morreu.
Nada sobre o defunto.
Nada sobre o velório.

A essa altura, entraram os comentaristas teológicos profissionais, Versículos sendo distribuídos com precisão bíblica, sem sequer saber quem era o defunto.:

📖 “Eu sou a ressurreição e a vida…”
📖 “Ele enxugará toda lágrima…”
📖 “Ainda que ande pelo vale da sombra da morte…”
📖 “Na casa de meu Pai há muitas moradas…”

A dor e o luto ficaram coletivos. A cidade toda consternada, e a informação, inexistente.

E o post seguia firme, estático…
Sem edição.
Sem atualização.
Sem nenhum esclarecimento.

Interpelada pelos familiares, a prima influencer foi categórica: não revelem nada ainda, o mistério gera retenção!

O povo , os amigos, conhecidos, curiosos profissionais e fofoqueiros de plantão e desafetos, já estavam emocionalmente envolvidos. A essa altura, os desesperados e agoniados seguidores, somente queriam um desfecho.Afinal quem morreu!

No dia seguinte, com números que fariam qualquer curso de marketing digital pedir licença para virar case: 

👍 3.500 curtidas
🔁 600 compartilhamentos
💬 3.250 comentários

Veio, enfim, a revelação em um post emocionado.

A família enlutada agradece as mensagens e o apoio neste momento tão difícil com a partida da querida Catarina.

Catarina era a fiel companheira noturna da tia Coloca: Diariamente, conversavam  sobre tudo — ou melhor, tia Colaca falava, respondia e interpretava Catarina com absoluta convicção, sustentando uma relação profunda, intensa e rigorosamente unilateral. Catarina, por sua vez, mantinha seu estilo reservado: observava em silêncio e, vez ou outra, ensaiava um discreto flerte.

Após quatro dias sem aparecer, tia Colaca entrou em desespero e mobilizou a família. Buscas foram realizadas, em um verdadeiro mutirão emocional, até que Catarina foi encontrada atrás do sofá, já em estado avançado de desidratação existencial.

Para evitar um colapso psicológico da tia Colaca, providenciamos imediatamente uma substituição estratégica. Hoje, ela já está feliz. Conversa diariamente com Cláudia — a nova lagartixa — , relembrando, com saudade, as aventuras e peripécias da saudosa Catarina.

Em tempo: Catarina foi jogada no vaso sanitário, com as devidas honras.