sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O FAZ DE CONTA POR TRÁS DOS VÍDEOS DOS VEREADORES

 



Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil, parece ter previsto nossa era digital. Em "Teoria do Medalhão", seu conto sobre a arte de triunfar na vida não pelo talento, mas pela bajulação, superficialidade e fama vazia, ele poderia estar descrevendo o manual de sobrevivência do político moderno. Se vivesse hoje, não teria dúvidas: diagnosticaria as redes sociais como a vitrine definitiva dos medalhões do século XXI. 

É nesse cenário que a política se transforma em coreografia ensaiada. Já não são necessárias tribunas nem salões — bastam um celular, um filtro digital e uma boa dose de desfaçatez. Tudo com um roteiro teatral, onde vigora uma lei não escrita: a arte de se apropriar do que já está pronto. Alguns vereadores governistas encenam um reality show de conquistas, sobre o pano de fundo silencioso das obras já concluídas. Passeiam por realizações alheias, transformando o cronograma da prefeitura em seu próprio currículo. Protocolam requerimentos solicitando melhorias, omitindo cuidadosamente em suas redes que a solicitação já constava no cronograma oficial da prefeitura.  Assim, o "faz de conta" deixa de ser artimanha e consolida-se como método de trabalho. Enquanto isso, nas ruas, a oposição dedica-se a garimpar problemas e omissões..

Caso real:  O Ar-Condicionado Profético

Um caso de alguns anos atrás, digno de registro, ilustra com perfeição essa dinâmica. A concessionária de transporte público de uma pequena cidade paulista estava para receber uma nova frota. É importante entender: comprar um ônibus não é como comprar um pão na padaria. O processo é lento — primeiro adquire-se o chassi, que depois segue para a montagem da carroceria e a pintura nos padrões da empresa, em seguida a compra e instalação dos equipamentos constantes no contrato com a prefeitura. Um ciclo que naturalmente consome meses entre o pedido e a entrega. Pois bem. Um nobre vereador, convenientemente munido de informações privilegiadas sobre a data de entrega dos ônibus  — e, pasmem, de que os veículos já viriam com ar-condicionado —, decidiu agir. Vinte dias antes da chegada da nova frota, protocolou um solene requerimento, no qual solicitava que os novos ônibus fossem  equipados exatamente com o mesmo ar-condicionado que já estava instalado neles. Para comprovar seu "trabalho visionário", postou em suas redes o documento protocolado, atribuindo a si uma conquista que já era fato consumado. 

O Preço da Encenação

Várias outras ações semelhantes pipocam nas redes sociais. Desde entrega de uniformes escolares, implantação do Refis, obras em vias públicas, muros caindo e milagrosamente reconstruídos e reformas diversas. Tudo ensaiado com o executivo: script pré-formatado em um teatro coreografado para criar a ilusão de trabalho no palco digital. Tudo pelos likes! 

A pergunta que se impõe é: quando a encenação fica tão evidente, o que resta além do constrangimento público? Restam os frutos amargos da própria irrelevância. Ao se reduzirem a meros instrumentos de divulgação do Executivo, os vereadores renunciam a seu verdadeiro poder: o de fiscalizar, propor e representar diretamente seus eleitores. Transformam-se em influencers do poder, hipnotizados pelos aplausos de um público que, muitas vezes, nem sequer foi quem os elegeu. 

Enquanto isso, a oposição ocupa o vácuo que deixam. E não precisa criar crises — basta somente apontá-las e colher dividendos políticos reais: nas dores tangíveis da população quanto à saúde, educação e serviços públicos.

No grande teatro da política, quem aceita o papel de coadjuvante acaba esquecido atrás das cortinas. O palco devora os que se contentam com migalhas de visibilidade. 

Fabio Chrispim Marin é consultor em Marketing Politico e Comunicação 


Um comentário:

  1. Infelizmente a enorme, senão maioria, dos eleitores, são facilmente manipuláveis por esse ou aquele "interesseiro" de plantão...

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