Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil, parece ter previsto nossa era digital. Em "Teoria do Medalhão", seu conto sobre a arte de triunfar na vida não pelo talento, mas pela bajulação, superficialidade e fama vazia, ele poderia estar descrevendo o manual de sobrevivência do político moderno. Se vivesse hoje, não teria dúvidas: diagnosticaria as redes sociais como a vitrine definitiva dos medalhões do século XXI.
É nesse cenário que a política se transforma em coreografia ensaiada. Já não são necessárias tribunas nem salões — bastam um celular, um filtro digital e uma boa dose de desfaçatez. Tudo com um roteiro teatral, onde vigora uma lei não escrita: a arte de se apropriar do que já está pronto. Alguns vereadores governistas encenam um reality show de conquistas, sobre o pano de fundo silencioso das obras já concluídas. Passeiam por realizações alheias, transformando o cronograma da prefeitura em seu próprio currículo. Protocolam requerimentos solicitando melhorias, omitindo cuidadosamente em suas redes que a solicitação já constava no cronograma oficial da prefeitura. Assim, o "faz de conta" deixa de ser artimanha e consolida-se como método de trabalho. Enquanto isso, nas ruas, a oposição dedica-se a garimpar problemas e omissões..
Caso real: O Ar-Condicionado Profético
Um caso de alguns anos atrás, digno de registro, ilustra com perfeição essa dinâmica. A concessionária de transporte público de uma pequena cidade paulista estava para receber uma nova frota. É importante entender: comprar um ônibus não é como comprar um pão na padaria. O processo é lento — primeiro adquire-se o chassi, que depois segue para a montagem da carroceria e a pintura nos padrões da empresa, em seguida a compra e instalação dos equipamentos constantes no contrato com a prefeitura. Um ciclo que naturalmente consome meses entre o pedido e a entrega. Pois bem. Um nobre vereador, convenientemente munido de informações privilegiadas sobre a data de entrega dos ônibus — e, pasmem, de que os veículos já viriam com ar-condicionado —, decidiu agir. Vinte dias antes da chegada da nova frota, protocolou um solene requerimento, no qual solicitava que os novos ônibus fossem equipados exatamente com o mesmo ar-condicionado que já estava instalado neles. Para comprovar seu "trabalho visionário", postou em suas redes o documento protocolado, atribuindo a si uma conquista que já era fato consumado.
O Preço da Encenação
Várias outras ações semelhantes pipocam nas redes sociais. Desde entrega de uniformes escolares, implantação do Refis, obras em vias públicas, muros caindo e milagrosamente reconstruídos e reformas diversas. Tudo ensaiado com o executivo: script pré-formatado em um teatro coreografado para criar a ilusão de trabalho no palco digital. Tudo pelos likes!
A pergunta que se impõe é: quando a encenação fica tão evidente, o que resta além do constrangimento público? Restam os frutos amargos da própria irrelevância. Ao se reduzirem a meros instrumentos de divulgação do Executivo, os vereadores renunciam a seu verdadeiro poder: o de fiscalizar, propor e representar diretamente seus eleitores. Transformam-se em influencers do poder, hipnotizados pelos aplausos de um público que, muitas vezes, nem sequer foi quem os elegeu.
Enquanto isso, a oposição ocupa o vácuo que deixam. E não precisa criar crises — basta somente apontá-las e colher dividendos políticos reais: nas dores tangíveis da população quanto à saúde, educação e serviços públicos.
No grande teatro da política, quem aceita o papel de coadjuvante acaba esquecido atrás das cortinas. O palco devora os que se contentam com migalhas de visibilidade.
Fabio Chrispim Marin é consultor em Marketing Politico e Comunicação

Infelizmente a enorme, senão maioria, dos eleitores, são facilmente manipuláveis por esse ou aquele "interesseiro" de plantão...
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