quinta-feira, 6 de novembro de 2025

"A Unanimidade é Burra:" O Segredo por trás dos Projetos Irrelevantes

 

Prólogo

Nas arcadas do poder local, encenou-se uma tragicomédia (ou seria farsa?) que o próprio Nelson Rodrigues assinaria sem pestanejar. Uma comédia de equívocos onde o óbvio precisa de lei, o trivial vira urgência, e a irrelevância se veste de legado. Em sua genialidade ímpar, o legislativo concedeu, através de um Projeto de Lei, o direito histórico de um bloco de carnaval... desfilar no carnaval. 

Sim, você leu corretamente. O PL — Projeto de Lei "assegura" a participação de um bloco ligado a uma clínica na programação oficial do Carnaval. Uma causa nobre, sem dúvida. Mas eis o detalhe sublime: qualquer bloco carnavalesco consegue isso com uma simples solicitação junto à Secretaria de Cultura e Turismo. Não é necessária uma lei.

Aliás, nenhuma outra agremiação na história carnavalesca da cidade precisou de uma.

O arquivo morto entra em cena

Encerrada a euforia da aprovação, o projeto encontrou seu destino mais nobre: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Mas nem as pastas mais antigas, acostumadas a abrigar as preciosidades do nada, estavam preparadas para tamanha exuberância do inútil. A revolta foi imediata. Convocou-se, às pressas, uma reunião emergencial para decidir onde arquivar tamanha obra-prima da desimportância pública, um monumento à genialidade do supérfluo que, reconheça-se, atingiu níveis inéditos de excelência.

Quem mais se indignou foi a pasta  “No Âmbito Municipal”, responsável por abrigar os projetos que legislam sobre um dia já celebrado no calendário nacional, e conhecido popularmente como “os irmãos gêmeos das datas nacionais”. Com sua sabedoria em eventos e efemérides, pediu a palavra e expôs a sua opinião:

— A seletividade é digna de nota — vociferou. — Será que o nobre autor do projeto já assistiu a um único desfile cívico do Sete de Setembro ou prestigiou a apresentação dos blocos e escolas de samba no carnaval na cidade? Se tivesse assistido, veria com seus olhos que esses já são os verdadeiros palcos de inclusão desta cidade. Pessoas com todos os tipos de deficiência, inclusive com transtornos do neurodesenvolvimento, desfilam, brincam e são celebradas. Nossa cidade é exemplo de inclusão espontânea em seus eventos, sem precisar de uma lei para sê-lo. 

A pasta do “Cooperativismo Situação–Oposição”, carinhosamente apelidada de “eu aprovo o seu e você aprova o meu”, prontificou-se, com falsa modéstia, a receber o projeto.

— Estou abarrotada, é verdade, mas essa é a minha sina. O que os nobres vereadores ainda não entenderam é que o cidadão até tolera o erro, mas não perdoa o abandono. E hoje, meus caros, eles sentem assim: abandonados…por irrelevâncias como essa.

Fez uma breve pausa, ajeitou a aba e continuou, com ironia:

— Para sustentar o teatro do “Faz de Conta”, eles fazem da tragédia uma comédia, e assim, projetos sem propósito como este são aprovados num consagrador abraço entre governo e oposição: Eu aprovo o seu, você aprova o meu. E, no final,  todos saem sorrindo, como se tivessem feito história.

Um soluço abafado ecoou do fundo da sala. Era a pasta dos “Projetos Não Sancionados pelo Prefeito”. Visivelmente transtornada, já em prantos e abraçando uma caixa de "lenço de papel Yes¹" como se ela fosse um salva-vidas, desabafou:

— É sempre a mesma coisa! E o final é previsível... o prefeito sanciona o disparate! Esses projetos são uma pandemia de inutilidades para a qual, infelizmente, ainda não inventaram vacinas! E eu, como fico? Totalmente vazia... sem nenhum — ou melhor, nenhumzinho — projeto para conversar, para passar o tempo! Estou às portas da depressão! Se não fossem essas reuniões emergenciais, não sei o que seria de mim…

O desabafo caiu na sala como um peso. Um silêncio constrangedor se espalhou entre as prateleiras. As outras pastas se entreolharam, sem encontrar palavra alguma de consolo. Afinal, o que dizer a alguém cuja única função na vida era... ser esquecida?

A caixa de “Primeiros Socorros Legislativos para Crises no Executivo”, cujo conteúdo se resumia a três carimbos: "URGENTE, VISTO E REPROVADO", aproximou-se com certo constrangimento. Tentou um gesto de solidariedade e deu uns tapinhas desajeitados na capa da colega dos “Projetos Não Sancionados”.

— Calma, colega...Você já tentou conversar com um carimbo? Querida, eu também vivo sozinha... Mas veja pelo lado positivo! Enquanto o prefeito se ocupa sancionando essas genialidades legislativas, pelo menos não inventa mais nenhum empréstimo mirabolante, nem cria outra subsecretaria para empregar filhos e apadrinhados dos vereadores.

Fez uma pausa, endireitou o rótulo amassado e concluiu com ar filosófico:

— O nosso vazio, minha cara, é a última linha de defesa contra o endividamento da prefeitura. Somos o silêncio que impede a ruína. Pense nisso... somos resistência!

Um breve murmúrio de aprovação percorreu as prateleiras, mas logo o ambiente voltou ao silêncio solene que caracteriza os arquivos mortos. Até que, com a pompa de quem anuncia um parecer final, a pasta do “Selo Amigo” — responsável por etiquetar os recém-chegados — pediu a palavra.

— Caríssimos, Nelson Rodrigues, em sua sabedoria sarcástica, já advertia: “A unanimidade é burra.” E o legislativo local acaba de comprovar, com louvor e unanimidade, que ele tinha razão.

Ergueu a lombada com elegância erudita e prosseguiu, numa cadência de ata cerimonial:

— Assim, o Festival de Projetos Irrelevantes segue a todo vapor, produzindo pouco, consumindo tempo e recursos públicos e enterrando, voto a voto, o que resta da credibilidade política local. Então, queridos colegas, só nos resta cumprir nosso dever institucional: arquivar as irrelevâncias, uma a uma, com a dignidade de quem preserva o nada.

De repente, o som de uma buzina fanha interrompeu o silêncio. Era a pasta do “Dia do Fusca” — que permanecera calada o tempo todo,

— Pelo que vejo, existe um complô para me derrubar... Não me surpreenderia se aparecesse um PL para “garantir a um galo, de um determinado avicultor, o direito sagrado de ciscar no seu próprio galinheiro”.

E, após uma pausa dramática, finalizou:

— E, para piorar, é até possível que algum dos seus nobres pares proponha uma emenda assim: ‘Fica terminantemente proibido o galo ciscar para frente, mesmo que no seu galinheiro’. 

Fecham-se as cortinas da irrelevância legislativa! 

Notas:

1 - Lenço de Papel Yes — fabricado pela Johnson & Johnson na década de 1960.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Favor coloque nome completo, se possivel, um contato.
Obrigado e um forte abraço