terça-feira, 15 de setembro de 2026

`PARLAMENTO DO BUTECO: MOÇÕES E OUTRAS OCUPAÇÕES

 


Por Fabio Chrispim Marin 


Entre a eficiência do vereador e a eficácia do mandato.

Como de costume, às sextas-feiras ocorrem as reuniões ordinárias do Parlamento do Buteco. Não há presidente, secretário, ordem do dia ou questão de ordem. O quórum se forma à medida que chegam os habituais frequentadores, cada qual devidamente acompanhado de sua bebida favorita. Todos têm direito à palavra, mesmo quando lhes faltam opinião, argumentos ou qualquer conhecimento teórico ou político; afinal, em qualquer discussão de  buteco, o conhecimento é facultativo.

Naquela sexta-feira, um tema simples entrou em pauta.

— Vocês viram? Agora tem moção para tudo na Câmara!

Um ex-vereador, ali presente,explicou:

—Sim, é a nova moda entre eles! A campeã é a Moção de Congratulações. Depois, temos Apoio, Agradecimento, Solidariedade, Aplausos e Louvor. Apelo e Repúdio também existem, mas são raríssimos.

Tomou um gole da cerveja e continuou:

— Congratulações é a mais versátil. Serve para aniversários, conquistas, inaugurações, formaturas, prêmios, bodas, eventos e até para a concessionária de carros que fez um bom desconto ao vereador. É o canivete suíço das Moções.

— Após a Moção de Solidariedade, haverá algum ato de apoio ao homenageado?

— Claro que sim!

— O quê?

— Entregam a moção.

— Louvor? É como se a Câmara estivesse concorrendo com o Edir Macedo e Silas Malafaia?

— Não… é uma homenagem a um feito, a uma conquista.

— Mas por que não aparecem as de Repúdio e de Apelo?

O ex-vereador explicou a diferença.

— É simples: a homenagem é pública; a gratidão, espera-se, virá na eleição.

Tomou um gole e continuou.

— Apelo é um pedido de ajuda ou súplica por  socorro ou providências. Exige reconhecer um problema, apontá-lo e cobrar as autoridades. É uma moção que o Executivo detesta receber de seus aliados.

— Repúdio é ainda mais complicado. Repudiar significa indignar,  condenar… Uma moção dessas pode gerar consequências na vida política de um vereador:  desagradar o prefeito, perder cargos….

Alguém politizado provocou:

— Imaginem a seguinte situação: um vereador resolve apresentar uma Moção de Repúdio à Secretaria Municipal de Saúde, diante dos resultados de Itatiba nos indicadores do pilar Acesso à Saúde do Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, elaborado pelo CLP. 

A mesa surpreendeu com o tema, e o politizado continuou sua tese.

— Em relação ao ranking anterior, Itatiba caiu 28 posições no acesso à saúde; na cobertura da atenção primária, ocupa a 224ª posição. E, pasmem: na cobertura vacinal, despencou outras 35 posições, caindo para a 210ª colocação. 

—— Com uma Moção de Repúdio dessas, o vereador vai criar um tsunami!

— Não caberia à oposição apresentar essa moção?

—Sim, mas acho que ainda não tiveram tempo ... .Estão em campanha para deputados e assinando congratulações.

— Você acredita que as moções estão ocupando muito espaço na Câmara?

— Não vamos exagerar. Homenagear faz parte da vida pública; é uma das atribuições de um vereador.

— Então, o problema não são as moções?

— O problema é o que se faz além delas. Um vereador deve fiscalizar e cobrar o Executivo. Só que aí entra a tal eficiência parlamentar: quem domina essa arte aprende logo a administrar os quatro anos. Evita brigas desnecessárias, não cria problemas com o prefeito, conquista eleitores, aproveita todas as benesses políticas disponíveis e chega ao fim do mandato fortalecido e inteiro. 

Fez uma pausa e corrigiu:

— Inteiro, não: reeleito.

Assim, numa mesa de buteco, compreendeu-se a diferença entre eficiência e eficácia na política: eficiente é o vereador que trabalha para preservar o mandato; eficaz, o que usa o mandato para melhorar a cidade.

E nem sempre os dois cabem no mesmo vereador.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Bets: Prefeitura e Câmara não podem lavar as mãos

 




A aposta é feita no celular, o dinheiro desaparece da conta e a dívida entra em casa. O vício compromete o salário, a alimentação, o aluguel e as contas do mês; gera endividamento, destrói relacionamentos e desestrutura famílias. Quando a dependência se instala, suas consequências deixam de ser apenas financeiras: tornam-se também sociais e de saúde. 

Os números revelam a dimensão do problema: em 2025, primeiro ano completo de mercado regulamentado, cerca de 25 milhões de brasileiros apostaram em plataformas de jogos online. Ao longo do período, foram depositados R$ 220,6 bilhões , dos quais aproximadamente R$ 36,9 bilhões ficaram com as casas de apostas.

Não cabe ao município regulamentar ou proibir as bets. Contudo, isso não significa que a Prefeitura e a Câmara devam simplesmente lavar as mãos. O município pode fechar algumas das portas pelas quais as apostas entram na vida dos cidadãos e agir quando suas consequências atingem as famílias e a rede pública de saúde.

Quando um problema compromete a vida da população e chega aos serviços municipais, a discussão deixa de ser sobre de quem é a competência e passa a ser também sobre quem pode agir. O itatibense não pode ouvir dos gestores a resposta mais cômoda: “Isso não é problema nosso, é responsabilidade do Governo”.

E Itatiba já ouviu um argumento semelhante, quando o governo de Tarcísio de Freitas fechou salas de ensino médio no município. Naquela ocasião, transferir toda a responsabilidade para o Estado serviu mais como justificativa para a inação local do que como resposta aos estudantes afetados. A competência define a obrigação legal de agir, mas não deve servir de álibi para quem detém instrumentos políticos para brigar pelos interesses dos itatibenses. 

Itatiba pode agir, e há caminhos. O poder público municipal tem três frentes concretas para reduzir os danos provocados pelas apostas: saúde, educação e a proteção de espaços e atividades sob sua responsabilidade.

A primeira é a saúde pública.

O SUS já dispõe de instrumentos para enfrentar o problema. Por meio do Meu SUS Digital, o cidadão pode realizar um autoteste e acessar teleatendimento especializado. As UBS e os CAPS também integram a rede de acolhimento, inclusive para familiares. Não é necessário criar novas estruturas, basta organizar e divulgar melhor o que já existe. 

A segunda frente engloba a educação e a prevenção.

As bets estão presentes no celular, na TV aberta, no futebol, nas redes sociais e na publicidade de influenciadores. Esse universo já faz parte do cotidiano de muitos adolescentes. Por isso, as escolas municipais podem desenvolver ações de educação financeira, com palestras e oficinas sobre apostas, probabilidades, endividamento e a promessa sedutora de dinheiro fácil. Não basta dizer ao jovem simplesmente “não aposte”. É muito mais eficiente ajudá-lo a compreender que a matemática do jogo é estruturada para favorecer quem explora a aposta, e não quem aposta. Essa conscientização deve envolver, também, pais e responsáveis.

A terceira frente é a mais impactante: a publicidade associada aos espaços e às atividades sob responsabilidade municipal. 

Dentro dos limites constitucionais, é possível estabelecer mecanismos que restrinjam a promoção de apostas ( bets) em prédios e equipamentos públicos. Essa medida pode abranger escolas, unidades de saúde, parques, bibliotecas, instalações esportivas, mobiliário urbano, transporte coletivo e de veículos a serviço ou sob concessão do município. Pode alcançar, ainda, eventos, competições, uniformes e atividades que recebam patrocínio, apoio institucional ou recursos públicos municipais. 

Não se trata de uma hipótese: em 2025, a Secretaria Municipal de Esportes organizou um campeonato de futebol que teve uma casa de apostas como sua principal patrocinadora. A contradição é evidente: o poder público promove o esporte como instrumento de saúde, educação, integração social e formação de crianças e jovens, enquanto permite que essas mesmas atividades sejam patrocinadas pelo setor de apostas. De um lado, promove valores; do outro, oferece às empresas de apostas o palco, a vitrine e a legitimidade conferida pelo próprio poder público. 

Belo Horizonte não se omitiu; decidiu agir. 

Em janeiro de 2026, entrou em vigor a Lei Municipal 11.964, que instituiu uma política voltada a cuidar da saúde mental de pessoas com transtornos associados ao vício em jogos. A norma também restringiu a publicidade, proibindo a divulgação de bets em diversos espaços vinculados ao poder público municipal. A experiência de BH deixa uma lição importante para Itatiba: o fato de algo ser de competência federal não serve de desculpa para a inércia municipal. Portanto, há espaço para o Executivo e o Legislativo construírem uma política local contra os danos das apostas, e atuando na prevenção, na educação e no acolhimento de dependentes. 

O objetivo não é vender à população a ilusão de que uma lei municipal será capaz de acabar com as bets, mas reconhecer o problema e agir sobre o que está ao alcance do município. Nenhuma dessas ações exige uma estrutura milionária; exige, somente, planejamento, iniciativa e, sobretudo, muita boa vontade política.

Não se trata de cobrar da Prefeitura e da Câmara de Itatiba aquilo que não elas podem fazer, mas aquilo que está ao seu alcance, e que ainda não foi feito. Esperamos que façam. A cidade agradece. 

































quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PARLAMENTO DO BUTECO


 


Em uma recente roda de conversa em um tradicional buteco da cidade, um grupo eclético de frequentadores discutia a possibilidade da venda dos naming rights de Itatiba. A inspiração para a brilhante ideia teria vindo dos valores da venda dos direitos do estádio do Palmeiras ao Nubank. Afinal, se um estádio pode render milhões para um clube, por que não vender também o nome da própria cidade?

Um dos frequentadores — economista aposentado, especialista em contas públicas, inflação, câmbio e fiado em buteco — pegou um guardanapo e começou a fazer cálculos complexos com uma calculadora de bolso.

Após alguns minutos de profundo raciocínio econômico, ele concluiu que os recursos obtidos com a venda dos naming rights de Itatiba seriam suficientes para diversas ações. Entre elas, acabar com o mato e os buracos, asfaltar os loteamentos irregulares e terminar as obras das marginais do Jacaré. Além disso, a verba permitiria até construir uma nova prefeitura e construir um piscinão capaz de acabar definitivamente com as enchentes ou, ao menos, transferi-las para outro local da cidade.

Com a aura de quem acabara de apresentar um plano econômico ao FMI, o aposentado ergueu levemente o dedo indicador e concluiu:

— Isso não é apenas modernização administrativa…é uma necessidade inevitável neste mundo globalizado e conectado.

Como ocorre em conversas de buteco, as opiniões rapidamente ultrapassaram qualquer limite jurídico e moral. Em menos de vinte minutos, a mesa produziu mais propostas do que a Câmara Municipal apresentou durante todo o mandato legislativo.

E o espírito do buteco continuou quando surgiu a primeira proposta oficial do parlamento etílico para os naming rights :

— E se for MC Itatiba? O prefeito até fez uma live para anunciar a segunda unidade. …podemos dizer que Itatiba integra um grupo seleto: é uma das cidades do interior paulista que possui duas unidades da rede! 

Os frequentadores mais nacionalistas protestaram. Defenderam que o nome correto deveria ser “Méqui Itatiba”, por respeitar a cultura popular brasileira e o patrimônio linguístico construído nas filas do drive-thru.

Já os fanáticos pelo Burger King acusaram a um favorecimento institucional ao hambúrguer do Ronald McDonald.

— O BK deve pagar mais — protestou um homem, já emocionalmente comprometido pela cachaça. — E ainda dá para colocar uma grande coroa na entrada da cidade!

A discussão degringolou de vez quando um corretor de imóveis, já no quinto Rabo de Galo, resolveu participar do debate.

— O nome correto deve ser algo como: Itatiba (Incorporadora) Empreendimentos Imobiliários.

O argumento veio forte e técnico.

— A cidade aprova loteamentos com menos de 150 m² e apartamentos de 40 m² em ritmo industrial. 

A proposta foi derrubada por um marqueteiro presente na roda, que imediatamente pediu a palavra como se estivesse em uma audiência pública.

— Isso não pode acontecer! Tal medida posicionará a cidade como desorganizada e sem planejamento para o futuro! Precisamos de uma marca aspiracional, premium e sofisticada; algo que gere pertencimento emocional, percepção de exclusividade e valorização imobiliária.

Tomou um gole de sua cerveja, que ele sempre pede sem gelo para não ter de dividir com os serrotes, ajeitou a postura de consultor e continuou:

— Olha… "eu ouvi falar qualquer coisa" que recentemente aconteceu na cidade um casamento digno da monarquia europeia. Foi um evento realizado num campo de golfe, com uma lista de convidados mais restrita do que licitação pública. Com a presença de poucos membros da corte. Nem o bobo foi convidado!

A mesa silenciou-se, atenta.

— Precisamos aproveitar isso! — continuou o marqueteiro, já completamente tomado pelo espírito do branding territorial. — A cidade se tornou um polo de casamentos de luxo e campos de golfe. O futuro está aí! Temos de reposicionar Itatiba internacionalmente!

Ele fez uma pausa, olhou para todos como quem apresenta um projeto revolucionário, e decretou:

— Minha proposta é simples: “Itatiba — (Patrocinador) Golf & Casamentos Reais”.

Como ocorre em todo ambiente verdadeiramente democrático, logo surgiram as divergências, interesses paralelos, vaidades pessoais e pequenos grupos articulando alternativas nos cantos da mesa.

Sem consenso sobre os naming rights, decidiram, por unanimidade, encerrar o assunto. 

No fim da noite, depois de 18 garrafas de cerveja, 36 martelinhos de cachaça e 15 rabos de galo, a mesa discutiu sete soluções urbanísticas, quatro planos de reestruturação econômica. O saldo da reunião incluiu cinco secretários demitidos e dois pedidos de impeachment. Por fim, a mesa chegou a uma conclusão unânime: produziram em poucas horas, mais ideias para o futuro da cidade do que boa parte do Legislativo nos últimos anos. E, sem pedidos de vista!

Talvez resida aí o verdadeiro perigo dos debates em butecos. Vai que algum vereador resolve aparecer... 



quarta-feira, 15 de julho de 2026

DIALÓGOS NA SALA DE ESPERA DA FARMÁCIA DE ALTO CUSTO

 






As salas de espera têm um dom especial: enquanto o relógio parece demorar a andar, as pessoas  conversam. Ali, todos compartilham o mesmo cansaço, indignação e sentimento de abandono. Em cada conversa, revela-se um retrato fiel da forma como são tratados por quem deveria cuidar deles. 

Numa manhã qualquer, na farmácia De alto custo instalada “provisoriamente” no auditório do Paço Municipal, os pacientes esperavam pelos seus medicamentos. Entre eles circulavam  histórias, ironias e uma pergunta que ninguém conseguia responder: afinal, o que é realmente provisório — o local ou a falta de respeito e empatia?

— Bom dia. A senhora é a última da fila?

— Não sei dizer…

— Seu horário era a que horas?

— Nove.

— Agora são onze e vinte.

— Então, estou adiantada.

...

— Moço, onde fica o banheiro?

— Não tem... É exclusivo para funcionários.

— Mas eu uso bolsa de colostomia.

— Ordem da casa.

— A bolsa não recebeu essa ordem.

...

— Mãe, o bebê está chorando.

— Está na hora de mamar.

— Tem algum lugar reservado?

— Tem.

— Onde?

— Na imaginação de quem escolheu este prédio.

...

— Está calor aqui.

— Não tem janela?

— Nem o vento entra.

— É uma medida para reduzir os custos do Alto Custo….

— Pelo menos, o forro tem bastante ventilação.

— Aqueles buracos?

— É o sistema de climatização natural.

...

— O senhor veio de ônibus?

— Queria ter vindo.

— Não passa nenhuma linha por aqui.

— Então, como chegou?

— De Uber.

— Ficou caro?

— Moro bem longe. Quarenta reais entre a ida e a volta.

— Quarenta reais?

— É.

— Dá para comprar muita coisa.

— Principalmente para quem vive de aposentadoria.

— E quem não tem esse dinheiro?

— Perde o medicamento, ou pede favor para que alguém venha buscá-lo.

— Eu tive que descer bem longe e caminhar com a Cremilda,  minha bengala.

— Ah...

...

— O prefeito disse que é temporário.

— Verdade.

— Igual àquelas reformas do prédio do SUS.

...

— Você já viu a secretária por aqui?

— De saúde?

— É.

— Nunca vi.

— Dizem que existe…mas é como  um medicamento em falta!

...

— Qual é a doença do senhor?

— Câncer.

— Eu tenho artrite reumatoide.

— Tenho esclerose múltipla.

— Eu sou diabético.

— Meu marido é transplantado.

— Meu filho tem uma doença rara com nome estrangeiro.

— Parece que a única doença comum aqui é a paciência.

...

— Chamaram a senha 42?

— Ainda estão no 18.

— Mas meu horário era às dez horas.

— Aqui, o horário é apenas uma sugestão.

— Tenha paciência; quem sabe, antes das treze horas, você será chamado. 

— Sabe de uma coisa?

— O quê?

— Não tenho nada a reclamar dos funcionários.

— Também não.

— Trabalham improvisando o impossível.

— E ainda recebem reclamações.

— Por decisões que nunca passaram pelas mãos deles.

— Engraçado...

— Quem errou não aparece…

— Quem tenta resolver é quem leva a bronca.

— No fim...

— Só o constrangimento é dividido.

— Só a responsabilidade é que nunca chega.

...

— O senhor sabe por que marcam a cada meia hora?

— Para organizar.

— Organizar o quê?

— A frustração.

...

— Cadê os vereadores?

— Devem estar fiscalizando.

— Fiscalizando o quê?

— Se ninguém reclama alto.

...

— Mas eles não podem cobrar providências?

— Podem.

— E por que não cobram?

— Porque alguns confundem mandato com estágio probatório.

— O presidente da Câmara apareceu?

— Gravou um vídeo dizendo que estava tudo bem e que tinha enviado R$ 400 mil reais.

— E a fila?

— Ele somente gravou o vídeo depois

— Depois de quê?

— Do horário de pico.

...

— E o prefeito?

— Disse que é provisório.

— Mas já faz tanto tempo…

— Psiu...

— Não faça perguntas difíceis.

— Mas ele veio conhecer a farmácia provisória ?

— Não! Mas mandou dizer: "E daqui a gente segue trabalhando."

— Daqui?

— Não... você não entendeu: daqui, da farmácia do  Alto Custo, a gente segue esperando. 

...

— Está vendo aquele senhor de muletas?

— Sim.

— Chegou antes de mim.

— E aquela moça com o bebê no colo?

— Também.

— E aquela senhora de oitenta anos?

— Também.

— Então, ninguém passa na frente?

— Só o relógio.

...

— Escutaram?

— O quê?

— Chamaram a senha.

— Qual?

— Dezenove.

— Aleluia!

...

— O curioso é que todo mundo aqui tem algum problema de saúde.

— Sim.

— Mas quem parece anestesiado é o poder público.

...

— Sabe qual é o único remédio que não é distribuído aqui?

— Qual?

— A empatia.

— Aquela que faz alguém imaginar o que é um idoso esperar mais de duas horas por um atendimento.

— A que faz entender o constrangimento de uma mãe sem um lugar digno para amamentar.

— A que faz perceber o sofrimento de um paciente oncológico em pé, aguardando a sua vez.

— A que faz pensar em quem usa uma bolsa de colostomia e não encontra um banheiro.

— A que faz lembrar que um aposentado precisa gastar quarenta reais com Uber para buscar o seu medicamento gratuito.

— Esse remédio...

— Continua faltando aqui nesta farmácia….

— E, pelo visto, também nos gabinetes de quem deveria cuidar dela.

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terça-feira, 12 de maio de 2026

ZONA AZUL: A DRAGA OFICIALIZADA

 


Fabio Chrispim Marin

No artigo anterior, mostrei como as novas “dragas econômicas digitais” — bets, marketplaces, streamings e plataformas globais — passaram a retirar bilhões de reais da economia das cidades, drenando o consumo do comércio local e reduzindo a circulação de renda entre pequenos negócios e prestadores de serviços. 

Como se isso não bastasse, a Prefeitura de Itatiba decidiu recolocar a Zona Azul no coração comercial da cidade. 

A Zona Azul é uma “draga da economia local”: grande parte dos recursos arrecadados pela concessionária não retorna proporcionalmente para a economia itatibense. O sistema gera poucos empregos, apresenta baixo efeito multiplicador e, ao mesmo tempo, dificulta a permanência das pessoas justamente onde o comércio físico mais precisa delas: nas ruas centrais.

Em 2016, quando ainda era proprietário da Drogaria Zezinho, no centro de Itatiba, escrevi o artigo “Zona Azul: Antimarketing para o Comércio”. O tempo passou, mas a essência daquela reflexão permanece atual. Ao longo dos anos, consolidou-se um consenso popular de que o estacionamento rotativo seria extremamente positivo para o comércio local — uma narrativa amplamente difundida, que, entretanto, não conseguiu comprovar claramente os resultados prometidos para o fortalecimento do comércio. A única comprovação é que o estacionamento rotativo impõe ao consumidor: limitação de tempo e medo da multa. 

A Zona Azul foi baseada em estudos ou em achismos? 

Como profissional de comunicação e marketing, costumo dizer que não existe marketing sem pesquisa. Até o momento, não foram apresentados estudos técnicos que fundamentem os impactos da implantação da Zona Azul sobre o comércio local. Por isso, a pergunta é inevitável: os consumidores foram ouvidos? Existem pesquisas qualitativas e quantitativas sobre como a população enxerga o centro comercial da cidade? Como eles se sentem diante da obrigação de pagar para estacionar em uma vaga pública, sob risco de multa e pontos na CNH?

Mais do que isso, foram realizados estudos sobre o tempo médio de permanência no comércio, comportamento de compra, circulação de consumidores, perda ou ganho de fluxo nas ruas centrais, redução ou ampliação da compra por impulso nas lojas, e se houve migração do consumo para regiões sem estacionamento rotativo? Foram feitas pesquisas comparativas sobre faturamento do comércio, ticket médio, fluxo de pedestres, conveniência percebida e impactos econômicos antes e depois da implantação da Zona Azul? 

Sem esses dados e informações, qualquer defesa categórica da Zona Azul deixa de ser planejamento — e passa a ser apenas achismo travestido de solução técnica.

O consumidor começa a temer o centro. 

Existe um efeito psicológico pouco debatido sobre o estacionamento rotativo: o medo — da multa, dos pontos na CNH e da fiscalização constante. A simples preocupação com horários e penalidades transforma a ida ao centro em uma experiência tensa. Hoje, a infração custa R$195,23, além de cinco pontos na carteira de habilitação.

E isso altera diretamente o comportamento das pessoas.

Em cidades interioranas como Itatiba, o comércio de rua ainda preserva um diferencial valioso: a convivência humana. Caminhar pelo centro, encontrar conhecidos, olhar vitrines, passar pelas bancas de revistas, sentar-se nas praças, tomar um café, comer um pastel, fazer um lanche ou almoçar sem pressa fazem parte da experiência urbana — e também da dinâmica econômica local.

A Zona Azul interfere justamente nesse modelo de convivência e consumo.

Sob a pressão do relógio e da fiscalização, a ida ao comércio deixa de ser espontânea e transforma-se em uma operação cronometrada: compra-se apenas o necessário e vai-se embora rapidamente. Desaparecem o passeio, a permanência nas ruas, a circulação entre lojas e o consumo por impulso.

O centro deixa de funcionar como espaço de convivência, lazer e descoberta, tornando-se apenas um local de passagem rápida.

Esse processo produz um efeito silencioso, porém profundo: reduz o fluxo, diminui a permanência, enfraquece o consumo e corrói, aos poucos, a vitalidade econômica do comércio no centro.

Como exemplo, cito os centros das cidades de Campinas e Jundiaí, que hoje ilustram esse processo de esvaziamento urbano e comercial, marcado pelo aumento de imóveis vagos, pela perda de circulação e pela degradação gradual das áreas centrais, que se tornaram  dormitórios para moradores de rua. 

O comércio trabalhando para a concessionária

Outro aspecto curioso da Zona Azul está na relação criada entre a concessionária e os comerciantes. Consolidou-se uma lógica quase surreal, na qual os lojistas vendem os tickets do estacionamento rotativo sem receber qualquer remuneração pelo serviço, utilizando a própria estrutura comercial para operacionalizar parte do sistema de arrecadação da empresa.

Na prática, o comércio:

  • Interrompe atendimentos aos próprios clientes.

  • Presta suporte operacional aos usuários do sistema.

  • Assume desgaste junto aos consumidores.

  • Utiliza seus funcionários, seu tempo e sua estrutura.

  • E ainda contribui diretamente para a maximização do lucro da concessionária.

Tudo gratuitamente.

Em outras palavras: o comércio local passa a trabalhar gratuitamente para aumentar a eficiência operacional de uma empresa privada, inclusive ajudando a reduzir seus custos com mão de obra. 

O centro está em contagem regressiva? 

A Zona Azul não regulamenta apenas o estacionamento; ela pode estar colocando em contagem regressiva o futuro do centro de Itatiba. Talvez essa deva ser a principal discussão econômica dos próximos anos: como impedir que o dinheiro — e também as pessoas — desapareçam das ruas do centro de Itatiba.