Por Fabio Chrispim Marin
Entre a eficiência do vereador e a eficácia do mandato.
Como de costume, às sextas-feiras ocorrem as reuniões ordinárias do Parlamento do Buteco. Não há presidente, secretário, ordem do dia ou questão de ordem. O quórum se forma à medida que chegam os habituais frequentadores, cada qual devidamente acompanhado de sua bebida favorita. Todos têm direito à palavra, mesmo quando lhes faltam opinião, argumentos ou qualquer conhecimento teórico ou político; afinal, em qualquer discussão de buteco, o conhecimento é facultativo.
Naquela sexta-feira, um tema simples entrou em pauta.
— Vocês viram? Agora tem moção para tudo na Câmara!
Um ex-vereador, ali presente,explicou:
—Sim, é a nova moda entre eles! A campeã é a Moção de Congratulações. Depois, temos Apoio, Agradecimento, Solidariedade, Aplausos e Louvor. Apelo e Repúdio também existem, mas são raríssimos.
Tomou um gole da cerveja e continuou:
— Congratulações é a mais versátil. Serve para aniversários, conquistas, inaugurações, formaturas, prêmios, bodas, eventos e até para a concessionária de carros que fez um bom desconto ao vereador. É o canivete suíço das Moções.
— Após a Moção de Solidariedade, haverá algum ato de apoio ao homenageado?
— Claro que sim!
— O quê?
— Entregam a moção.
— Louvor? É como se a Câmara estivesse concorrendo com o Edir Macedo e Silas Malafaia?
— Não… é uma homenagem a um feito, a uma conquista.
— Mas por que não aparecem as de Repúdio e de Apelo?
O ex-vereador explicou a diferença.
— É simples: a homenagem é pública; a gratidão, espera-se, virá na eleição.
Tomou um gole e continuou.
— Apelo é um pedido de ajuda ou súplica por socorro ou providências. Exige reconhecer um problema, apontá-lo e cobrar as autoridades. É uma moção que o Executivo detesta receber de seus aliados.
— Repúdio é ainda mais complicado. Repudiar significa indignar, condenar… Uma moção dessas pode gerar consequências na vida política de um vereador: desagradar o prefeito, perder cargos….
Alguém politizado provocou:
— Imaginem a seguinte situação: um vereador resolve apresentar uma Moção de Repúdio à Secretaria Municipal de Saúde, diante dos resultados de Itatiba nos indicadores do pilar Acesso à Saúde do Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, elaborado pelo CLP.
A mesa surpreendeu com o tema, e o politizado continuou sua tese.
— Em relação ao ranking anterior, Itatiba caiu 28 posições no acesso à saúde; na cobertura da atenção primária, ocupa a 224ª posição. E, pasmem: na cobertura vacinal, despencou outras 35 posições, caindo para a 210ª colocação.
—— Com uma Moção de Repúdio dessas, o vereador vai criar um tsunami!
— Não caberia à oposição apresentar essa moção?
—Sim, mas acho que ainda não tiveram tempo ... .Estão em campanha para deputados e assinando congratulações.
— Você acredita que as moções estão ocupando muito espaço na Câmara?
— Não vamos exagerar. Homenagear faz parte da vida pública; é uma das atribuições de um vereador.
— Então, o problema não são as moções?
— O problema é o que se faz além delas. Um vereador deve fiscalizar e cobrar o Executivo. Só que aí entra a tal eficiência parlamentar: quem domina essa arte aprende logo a administrar os quatro anos. Evita brigas desnecessárias, não cria problemas com o prefeito, conquista eleitores, aproveita todas as benesses políticas disponíveis e chega ao fim do mandato fortalecido e inteiro.
Fez uma pausa e corrigiu:
— Inteiro, não: reeleito.
Assim, numa mesa de buteco, compreendeu-se a diferença entre eficiência e eficácia na política: eficiente é o vereador que trabalha para preservar o mandato; eficaz, o que usa o mandato para melhorar a cidade.
E nem sempre os dois cabem no mesmo vereador.




