quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Bets: Prefeitura e Câmara não podem lavar as mãos

 




A aposta é feita no celular, o dinheiro desaparece da conta e a dívida entra em casa. O vício compromete o salário, a alimentação, o aluguel e as contas do mês; gera endividamento, destrói relacionamentos e desestrutura famílias. Quando a dependência se instala, suas consequências deixam de ser apenas financeiras: tornam-se também sociais e de saúde. 

Os números revelam a dimensão do problema: em 2025, primeiro ano completo de mercado regulamentado, cerca de 25 milhões de brasileiros apostaram em plataformas de jogos online. Ao longo do período, foram depositados R$ 220,6 bilhões , dos quais aproximadamente R$ 36,9 bilhões ficaram com as casas de apostas.

Não cabe ao município regulamentar ou proibir as bets. Contudo, isso não significa que a Prefeitura e a Câmara devam simplesmente lavar as mãos. O município pode fechar algumas das portas pelas quais as apostas entram na vida dos cidadãos e agir quando suas consequências atingem as famílias e a rede pública de saúde.

Quando um problema compromete a vida da população e chega aos serviços municipais, a discussão deixa de ser sobre de quem é a competência e passa a ser também sobre quem pode agir. O itatibense não pode ouvir dos gestores a resposta mais cômoda: “Isso não é problema nosso, é responsabilidade do Governo”.

E Itatiba já ouviu um argumento semelhante, quando o governo de Tarcísio de Freitas fechou salas de ensino médio no município. Naquela ocasião, transferir toda a responsabilidade para o Estado serviu mais como justificativa para a inação local do que como resposta aos estudantes afetados. A competência define a obrigação legal de agir, mas não deve servir de álibi para quem detém instrumentos políticos para brigar pelos interesses dos itatibenses. 

Itatiba pode agir, e há caminhos. O poder público municipal tem três frentes concretas para reduzir os danos provocados pelas apostas: saúde, educação e a proteção de espaços e atividades sob sua responsabilidade.

A primeira é a saúde pública.

O SUS já dispõe de instrumentos para enfrentar o problema. Por meio do Meu SUS Digital, o cidadão pode realizar um autoteste e acessar teleatendimento especializado. As UBS e os CAPS também integram a rede de acolhimento, inclusive para familiares. Não é necessário criar novas estruturas, basta organizar e divulgar melhor o que já existe. 

A segunda frente engloba a educação e a prevenção.

As bets estão presentes no celular, na TV aberta, no futebol, nas redes sociais e na publicidade de influenciadores. Esse universo já faz parte do cotidiano de muitos adolescentes. Por isso, as escolas municipais podem desenvolver ações de educação financeira, com palestras e oficinas sobre apostas, probabilidades, endividamento e a promessa sedutora de dinheiro fácil. Não basta dizer ao jovem simplesmente “não aposte”. É muito mais eficiente ajudá-lo a compreender que a matemática do jogo é estruturada para favorecer quem explora a aposta, e não quem aposta. Essa conscientização deve envolver, também, pais e responsáveis.

A terceira frente é a mais impactante: a publicidade associada aos espaços e às atividades sob responsabilidade municipal. 

Dentro dos limites constitucionais, é possível estabelecer mecanismos que restrinjam a promoção de apostas ( bets) em prédios e equipamentos públicos. Essa medida pode abranger escolas, unidades de saúde, parques, bibliotecas, instalações esportivas, mobiliário urbano, transporte coletivo e de veículos a serviço ou sob concessão do município. Pode alcançar, ainda, eventos, competições, uniformes e atividades que recebam patrocínio, apoio institucional ou recursos públicos municipais. 

Não se trata de uma hipótese: em 2025, a Secretaria Municipal de Esportes organizou um campeonato de futebol que teve uma casa de apostas como sua principal patrocinadora. A contradição é evidente: o poder público promove o esporte como instrumento de saúde, educação, integração social e formação de crianças e jovens, enquanto permite que essas mesmas atividades sejam patrocinadas pelo setor de apostas. De um lado, promove valores; do outro, oferece às empresas de apostas o palco, a vitrine e a legitimidade conferida pelo próprio poder público. 

Belo Horizonte não se omitiu; decidiu agir. 

Em janeiro de 2026, entrou em vigor a Lei Municipal 11.964, que instituiu uma política voltada a cuidar da saúde mental de pessoas com transtornos associados ao vício em jogos. A norma também restringiu a publicidade, proibindo a divulgação de bets em diversos espaços vinculados ao poder público municipal. A experiência de BH deixa uma lição importante para Itatiba: o fato de algo ser de competência federal não serve de desculpa para a inércia municipal. Portanto, há espaço para o Executivo e o Legislativo construírem uma política local contra os danos das apostas, e atuando na prevenção, na educação e no acolhimento de dependentes. 

O objetivo não é vender à população a ilusão de que uma lei municipal será capaz de acabar com as bets, mas reconhecer o problema e agir sobre o que está ao alcance do município. Nenhuma dessas ações exige uma estrutura milionária; exige, somente, planejamento, iniciativa e, sobretudo, muita boa vontade política.

Não se trata de cobrar da Prefeitura e da Câmara de Itatiba aquilo que não elas podem fazer, mas aquilo que está ao seu alcance, e que ainda não foi feito. Esperamos que façam. A cidade agradece. 

































quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PARLAMENTO DO BUTECO


 


Em uma recente roda de conversa em um tradicional buteco da cidade, um grupo eclético de frequentadores discutia a possibilidade da venda dos naming rights de Itatiba. A inspiração para a brilhante ideia teria vindo dos valores da venda dos direitos do estádio do Palmeiras ao Nubank. Afinal, se um estádio pode render milhões para um clube, por que não vender também o nome da própria cidade?

Um dos frequentadores — economista aposentado, especialista em contas públicas, inflação, câmbio e fiado em buteco — pegou um guardanapo e começou a fazer cálculos complexos com uma calculadora de bolso.

Após alguns minutos de profundo raciocínio econômico, ele concluiu que os recursos obtidos com a venda dos naming rights de Itatiba seriam suficientes para diversas ações. Entre elas, acabar com o mato e os buracos, asfaltar os loteamentos irregulares e terminar as obras das marginais do Jacaré. Além disso, a verba permitiria até construir uma nova prefeitura e construir um piscinão capaz de acabar definitivamente com as enchentes ou, ao menos, transferi-las para outro local da cidade.

Com a aura de quem acabara de apresentar um plano econômico ao FMI, o aposentado ergueu levemente o dedo indicador e concluiu:

— Isso não é apenas modernização administrativa…é uma necessidade inevitável neste mundo globalizado e conectado.

Como ocorre em conversas de buteco, as opiniões rapidamente ultrapassaram qualquer limite jurídico e moral. Em menos de vinte minutos, a mesa produziu mais propostas do que a Câmara Municipal apresentou durante todo o mandato legislativo.

E o espírito do buteco continuou quando surgiu a primeira proposta oficial do parlamento etílico para os naming rights :

— E se for MC Itatiba? O prefeito até fez uma live para anunciar a segunda unidade. …podemos dizer que Itatiba integra um grupo seleto: é uma das cidades do interior paulista que possui duas unidades da rede! 

Os frequentadores mais nacionalistas protestaram. Defenderam que o nome correto deveria ser “Méqui Itatiba”, por respeitar a cultura popular brasileira e o patrimônio linguístico construído nas filas do drive-thru.

Já os fanáticos pelo Burger King acusaram a um favorecimento institucional ao hambúrguer do Ronald McDonald.

— O BK deve pagar mais — protestou um homem, já emocionalmente comprometido pela cachaça. — E ainda dá para colocar uma grande coroa na entrada da cidade!

A discussão degringolou de vez quando um corretor de imóveis, já no quinto Rabo de Galo, resolveu participar do debate.

— O nome correto deve ser algo como: Itatiba (Incorporadora) Empreendimentos Imobiliários.

O argumento veio forte e técnico.

— A cidade aprova loteamentos com menos de 150 m² e apartamentos de 40 m² em ritmo industrial. 

A proposta foi derrubada por um marqueteiro presente na roda, que imediatamente pediu a palavra como se estivesse em uma audiência pública.

— Isso não pode acontecer! Tal medida posicionará a cidade como desorganizada e sem planejamento para o futuro! Precisamos de uma marca aspiracional, premium e sofisticada; algo que gere pertencimento emocional, percepção de exclusividade e valorização imobiliária.

Tomou um gole de sua cerveja, que ele sempre pede sem gelo para não ter de dividir com os serrotes, ajeitou a postura de consultor e continuou:

— Olha… "eu ouvi falar qualquer coisa" que recentemente aconteceu na cidade um casamento digno da monarquia europeia. Foi um evento realizado num campo de golfe, com uma lista de convidados mais restrita do que licitação pública. Com a presença de poucos membros da corte. Nem o bobo foi convidado!

A mesa silenciou-se, atenta.

— Precisamos aproveitar isso! — continuou o marqueteiro, já completamente tomado pelo espírito do branding territorial. — A cidade se tornou um polo de casamentos de luxo e campos de golfe. O futuro está aí! Temos de reposicionar Itatiba internacionalmente!

Ele fez uma pausa, olhou para todos como quem apresenta um projeto revolucionário, e decretou:

— Minha proposta é simples: “Itatiba — (Patrocinador) Golf & Casamentos Reais”.

Como ocorre em todo ambiente verdadeiramente democrático, logo surgiram as divergências, interesses paralelos, vaidades pessoais e pequenos grupos articulando alternativas nos cantos da mesa.

Sem consenso sobre os naming rights, decidiram, por unanimidade, encerrar o assunto. 

No fim da noite, depois de 18 garrafas de cerveja, 36 martelinhos de cachaça e 15 rabos de galo, a mesa discutiu sete soluções urbanísticas, quatro planos de reestruturação econômica. O saldo da reunião incluiu cinco secretários demitidos e dois pedidos de impeachment. Por fim, a mesa chegou a uma conclusão unânime: produziram em poucas horas, mais ideias para o futuro da cidade do que boa parte do Legislativo nos últimos anos. E, sem pedidos de vista!

Talvez resida aí o verdadeiro perigo dos debates em butecos. Vai que algum vereador resolve aparecer... 



quarta-feira, 15 de julho de 2026

DIALÓGOS NA SALA DE ESPERA DA FARMÁCIA DE ALTO CUSTO

 






As salas de espera têm um dom especial: enquanto o relógio parece demorar a andar, as pessoas  conversam. Ali, todos compartilham o mesmo cansaço, indignação e sentimento de abandono. Em cada conversa, revela-se um retrato fiel da forma como são tratados por quem deveria cuidar deles. 

Numa manhã qualquer, na farmácia De alto custo instalada “provisoriamente” no auditório do Paço Municipal, os pacientes esperavam pelos seus medicamentos. Entre eles circulavam  histórias, ironias e uma pergunta que ninguém conseguia responder: afinal, o que é realmente provisório — o local ou a falta de respeito e empatia?

— Bom dia. A senhora é a última da fila?

— Não sei dizer…

— Seu horário era a que horas?

— Nove.

— Agora são onze e vinte.

— Então, estou adiantada.

...

— Moço, onde fica o banheiro?

— Não tem... É exclusivo para funcionários.

— Mas eu uso bolsa de colostomia.

— Ordem da casa.

— A bolsa não recebeu essa ordem.

...

— Mãe, o bebê está chorando.

— Está na hora de mamar.

— Tem algum lugar reservado?

— Tem.

— Onde?

— Na imaginação de quem escolheu este prédio.

...

— Está calor aqui.

— Não tem janela?

— Nem o vento entra.

— É uma medida para reduzir os custos do Alto Custo….

— Pelo menos, o forro tem bastante ventilação.

— Aqueles buracos?

— É o sistema de climatização natural.

...

— O senhor veio de ônibus?

— Queria ter vindo.

— Não passa nenhuma linha por aqui.

— Então, como chegou?

— De Uber.

— Ficou caro?

— Moro bem longe. Quarenta reais entre a ida e a volta.

— Quarenta reais?

— É.

— Dá para comprar muita coisa.

— Principalmente para quem vive de aposentadoria.

— E quem não tem esse dinheiro?

— Perde o medicamento, ou pede favor para que alguém venha buscá-lo.

— Eu tive que descer bem longe e caminhar com a Cremilda,  minha bengala.

— Ah...

...

— O prefeito disse que é temporário.

— Verdade.

— Igual àquelas reformas do prédio do SUS.

...

— Você já viu a secretária por aqui?

— De saúde?

— É.

— Nunca vi.

— Dizem que existe…mas é como  um medicamento em falta!

...

— Qual é a doença do senhor?

— Câncer.

— Eu tenho artrite reumatoide.

— Tenho esclerose múltipla.

— Eu sou diabético.

— Meu marido é transplantado.

— Meu filho tem uma doença rara com nome estrangeiro.

— Parece que a única doença comum aqui é a paciência.

...

— Chamaram a senha 42?

— Ainda estão no 18.

— Mas meu horário era às dez horas.

— Aqui, o horário é apenas uma sugestão.

— Tenha paciência; quem sabe, antes das treze horas, você será chamado. 

— Sabe de uma coisa?

— O quê?

— Não tenho nada a reclamar dos funcionários.

— Também não.

— Trabalham improvisando o impossível.

— E ainda recebem reclamações.

— Por decisões que nunca passaram pelas mãos deles.

— Engraçado...

— Quem errou não aparece…

— Quem tenta resolver é quem leva a bronca.

— No fim...

— Só o constrangimento é dividido.

— Só a responsabilidade é que nunca chega.

...

— O senhor sabe por que marcam a cada meia hora?

— Para organizar.

— Organizar o quê?

— A frustração.

...

— Cadê os vereadores?

— Devem estar fiscalizando.

— Fiscalizando o quê?

— Se ninguém reclama alto.

...

— Mas eles não podem cobrar providências?

— Podem.

— E por que não cobram?

— Porque alguns confundem mandato com estágio probatório.

— O presidente da Câmara apareceu?

— Gravou um vídeo dizendo que estava tudo bem e que tinha enviado R$ 400 mil reais.

— E a fila?

— Ele somente gravou o vídeo depois

— Depois de quê?

— Do horário de pico.

...

— E o prefeito?

— Disse que é provisório.

— Mas já faz tanto tempo…

— Psiu...

— Não faça perguntas difíceis.

— Mas ele veio conhecer a farmácia provisória ?

— Não! Mas mandou dizer: "E daqui a gente segue trabalhando."

— Daqui?

— Não... você não entendeu: daqui, da farmácia do  Alto Custo, a gente segue esperando. 

...

— Está vendo aquele senhor de muletas?

— Sim.

— Chegou antes de mim.

— E aquela moça com o bebê no colo?

— Também.

— E aquela senhora de oitenta anos?

— Também.

— Então, ninguém passa na frente?

— Só o relógio.

...

— Escutaram?

— O quê?

— Chamaram a senha.

— Qual?

— Dezenove.

— Aleluia!

...

— O curioso é que todo mundo aqui tem algum problema de saúde.

— Sim.

— Mas quem parece anestesiado é o poder público.

...

— Sabe qual é o único remédio que não é distribuído aqui?

— Qual?

— A empatia.

— Aquela que faz alguém imaginar o que é um idoso esperar mais de duas horas por um atendimento.

— A que faz entender o constrangimento de uma mãe sem um lugar digno para amamentar.

— A que faz perceber o sofrimento de um paciente oncológico em pé, aguardando a sua vez.

— A que faz pensar em quem usa uma bolsa de colostomia e não encontra um banheiro.

— A que faz lembrar que um aposentado precisa gastar quarenta reais com Uber para buscar o seu medicamento gratuito.

— Esse remédio...

— Continua faltando aqui nesta farmácia….

— E, pelo visto, também nos gabinetes de quem deveria cuidar dela.

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terça-feira, 12 de maio de 2026

ZONA AZUL: A DRAGA OFICIALIZADA

 


Fabio Chrispim Marin

No artigo anterior, mostrei como as novas “dragas econômicas digitais” — bets, marketplaces, streamings e plataformas globais — passaram a retirar bilhões de reais da economia das cidades, drenando o consumo do comércio local e reduzindo a circulação de renda entre pequenos negócios e prestadores de serviços. 

Como se isso não bastasse, a Prefeitura de Itatiba decidiu recolocar a Zona Azul no coração comercial da cidade. 

A Zona Azul é uma “draga da economia local”: grande parte dos recursos arrecadados pela concessionária não retorna proporcionalmente para a economia itatibense. O sistema gera poucos empregos, apresenta baixo efeito multiplicador e, ao mesmo tempo, dificulta a permanência das pessoas justamente onde o comércio físico mais precisa delas: nas ruas centrais.

Em 2016, quando ainda era proprietário da Drogaria Zezinho, no centro de Itatiba, escrevi o artigo “Zona Azul: Antimarketing para o Comércio”. O tempo passou, mas a essência daquela reflexão permanece atual. Ao longo dos anos, consolidou-se um consenso popular de que o estacionamento rotativo seria extremamente positivo para o comércio local — uma narrativa amplamente difundida, que, entretanto, não conseguiu comprovar claramente os resultados prometidos para o fortalecimento do comércio. A única comprovação é que o estacionamento rotativo impõe ao consumidor: limitação de tempo e medo da multa. 

A Zona Azul foi baseada em estudos ou em achismos? 

Como profissional de comunicação e marketing, costumo dizer que não existe marketing sem pesquisa. Até o momento, não foram apresentados estudos técnicos que fundamentem os impactos da implantação da Zona Azul sobre o comércio local. Por isso, a pergunta é inevitável: os consumidores foram ouvidos? Existem pesquisas qualitativas e quantitativas sobre como a população enxerga o centro comercial da cidade? Como eles se sentem diante da obrigação de pagar para estacionar em uma vaga pública, sob risco de multa e pontos na CNH?

Mais do que isso, foram realizados estudos sobre o tempo médio de permanência no comércio, comportamento de compra, circulação de consumidores, perda ou ganho de fluxo nas ruas centrais, redução ou ampliação da compra por impulso nas lojas, e se houve migração do consumo para regiões sem estacionamento rotativo? Foram feitas pesquisas comparativas sobre faturamento do comércio, ticket médio, fluxo de pedestres, conveniência percebida e impactos econômicos antes e depois da implantação da Zona Azul? 

Sem esses dados e informações, qualquer defesa categórica da Zona Azul deixa de ser planejamento — e passa a ser apenas achismo travestido de solução técnica.

O consumidor começa a temer o centro. 

Existe um efeito psicológico pouco debatido sobre o estacionamento rotativo: o medo — da multa, dos pontos na CNH e da fiscalização constante. A simples preocupação com horários e penalidades transforma a ida ao centro em uma experiência tensa. Hoje, a infração custa R$195,23, além de cinco pontos na carteira de habilitação.

E isso altera diretamente o comportamento das pessoas.

Em cidades interioranas como Itatiba, o comércio de rua ainda preserva um diferencial valioso: a convivência humana. Caminhar pelo centro, encontrar conhecidos, olhar vitrines, passar pelas bancas de revistas, sentar-se nas praças, tomar um café, comer um pastel, fazer um lanche ou almoçar sem pressa fazem parte da experiência urbana — e também da dinâmica econômica local.

A Zona Azul interfere justamente nesse modelo de convivência e consumo.

Sob a pressão do relógio e da fiscalização, a ida ao comércio deixa de ser espontânea e transforma-se em uma operação cronometrada: compra-se apenas o necessário e vai-se embora rapidamente. Desaparecem o passeio, a permanência nas ruas, a circulação entre lojas e o consumo por impulso.

O centro deixa de funcionar como espaço de convivência, lazer e descoberta, tornando-se apenas um local de passagem rápida.

Esse processo produz um efeito silencioso, porém profundo: reduz o fluxo, diminui a permanência, enfraquece o consumo e corrói, aos poucos, a vitalidade econômica do comércio no centro.

Como exemplo, cito os centros das cidades de Campinas e Jundiaí, que hoje ilustram esse processo de esvaziamento urbano e comercial, marcado pelo aumento de imóveis vagos, pela perda de circulação e pela degradação gradual das áreas centrais, que se tornaram  dormitórios para moradores de rua. 

O comércio trabalhando para a concessionária

Outro aspecto curioso da Zona Azul está na relação criada entre a concessionária e os comerciantes. Consolidou-se uma lógica quase surreal, na qual os lojistas vendem os tickets do estacionamento rotativo sem receber qualquer remuneração pelo serviço, utilizando a própria estrutura comercial para operacionalizar parte do sistema de arrecadação da empresa.

Na prática, o comércio:

  • Interrompe atendimentos aos próprios clientes.

  • Presta suporte operacional aos usuários do sistema.

  • Assume desgaste junto aos consumidores.

  • Utiliza seus funcionários, seu tempo e sua estrutura.

  • E ainda contribui diretamente para a maximização do lucro da concessionária.

Tudo gratuitamente.

Em outras palavras: o comércio local passa a trabalhar gratuitamente para aumentar a eficiência operacional de uma empresa privada, inclusive ajudando a reduzir seus custos com mão de obra. 

O centro está em contagem regressiva? 

A Zona Azul não regulamenta apenas o estacionamento; ela pode estar colocando em contagem regressiva o futuro do centro de Itatiba. Talvez essa deva ser a principal discussão econômica dos próximos anos: como impedir que o dinheiro — e também as pessoas — desapareçam das ruas do centro de Itatiba.





sábado, 9 de maio de 2026

AS DRAGAS DA ECONOMIA LOCAL – Parte 1

 




Historicamente, o varejo de rua sempre enfrentou concorrência: supermercados, atacarejos, shopping centers e, mais recentemente, os  e-commerces e os grandes marketplaces. Mas o cenário atual tornou-se mais complexo e tão agressivo neste momento quanto as bets.  Já não se trata apenas de competição comercial. Estamos diante de verdadeiras “dragas econômicas” — estruturas que retiram dinheiro da economia local sem devolver, na mesma proporção, circulação de renda, empregos ou desenvolvimento para a cidade.

O dinheiro que antes circulava em roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, alimentação e pequenos serviços — movimentando toda a cadeia de  lojas, empregos e fornecedores locais — agora é transferido para plataformas digitais de apostas. O mais preocupante é que esse recurso praticamente desaparece da economia real das cidades.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre 2023 e abril de 2026. O impacto é tão expressivo que equivale, segundo o setor, a quase dois Natais perdidos para o comércio.  A própria CNC estima que, para cada R$ 1 bilhão gasto em apostas online, o varejo perde cerca de 0,7% do faturamento.

Os efeitos já aparecem no orçamento das famílias. Uma parte crescente da renda passou a ser direcionada às apostas, enquanto contas básicas, crediários e financiamentos entram em atraso. Supermercados e lojas de bens duráveis já registram queda no consumo, especialmente entre as classes C, D e E — justamente a base do comércio de rua em cidades médias como Itatiba.

As bets são apenas a face mais visível de um fenômeno maior. Hoje, uma parcela crescente do orçamento doméstico é capturada por serviços e plataformas digitais como streaming de vídeo e música, marketplaces internacionais, aplicativos, assinaturas digitais e crédito consignado. O celular e as Smart TVs  transformaram-se em um verdadeiro shopping invisível, sem vitrine física, sem geração proporcional de empregos locais e sem circulação significativa de riqueza dentro do município.O dinheiro continua existindo, mas deixou de circular no bairro, no comércio local e na economia da cidade.

O pequeno comerciante já não concorre apenas com a loja da esquina. Agora, disputa mercado com gigantes como Mercado Livre, Shopee, Shein e Amazon — plataformas globais, com escalas logística, financeira e tributária inalcançáveis para o varejo tradicional.

Enquanto o lojista local paga aluguel, mantém empregos, enfrenta burocracia, recolhe impostos e ainda patrocina eventos da cidade, as grandes plataformas concentram faturamento sem reinvestir proporcionalmente na economia urbana que consome seus produtos.

O resultado é uma erosão silenciosa do varejo de rua — e, junto com ele, da renda, dos empregos e da própria vitalidade econômica das cidades.

O varejo de rua já enfrenta concorrência global, mudanças no consumo e a drenagem digital da renda familiar. Como se as dragas digitais já não fossem suficientes, Itatiba ainda conseguiu recriar a sua própria draga local: a Zona Azul.

Na próxima parte, o debate abordará como o estacionamento rotativo afasta consumidores, penaliza o comércio de rua e transforma os lojistas em prestadores de serviços gratuitos à concessionária.

Continua…






domingo, 3 de maio de 2026

CATARINA FALECEU. E NINGUÉM EXPLICOU

 





Catarina faleceu.

Uma morte fria. Literalmente gelada.

A família ficou consternada. Abalada, Em choque — ou pelo menos o suficiente para gerar conteúdo. Mas quem realmente entendeu o potencial daquele momento foi a prima influencer, especialista em transformar qualquer emoção em métricas.

Sem perder tempo — porque timing é tudo — soltou o post padrão:

📸 Fundo preto
🎗️ Laço discreto
🖤 A palavra: LUTO

Só isso.

Sem nome completo. Sem contexto. Sem causa da morte. Sem localização do velório. Sem link na bio. Sem CTA. Nada. Um minimalismo estratégico. Um silêncio altamente performático. E foi aí que começou o espetáculo.

Uma sequência interminável de comentários que faria qualquer social media pedir aumento:

— Nossa! O que aconteceu?
— Quem morreu???
— Qual a funerária???
— Vai ser um velório aberto ou só pra família?
— Enterro ou cremação?
— Me chama no direct!
— Pelo amor de Deus, alguém explica!!!
— Já tem horário???
— Gente, eu PRECISO saber!!! 😭

E, claro, os clássicos:

🙏 Meus sentimentos
🙏 Sentimentos à família
🙏 Que Deus conforte
🙏 Que esteja em um lugar melhor

Sem saber quem faleceu, Mas comentando com autoridade.

Enquanto isso, o algoritmo sorria.

Curtidas subindo.
Comentários explodindo.
Engajamento orgânico.
Alcance entregue.
Story já preparado.
Reels a caminho.

Mas nada de informação.

Nada sobre quem morreu.
Nada sobre o defunto.
Nada sobre o velório.

A essa altura, entraram os comentaristas teológicos profissionais, Versículos sendo distribuídos com precisão bíblica, sem sequer saber quem era o defunto.:

📖 “Eu sou a ressurreição e a vida…”
📖 “Ele enxugará toda lágrima…”
📖 “Ainda que ande pelo vale da sombra da morte…”
📖 “Na casa de meu Pai há muitas moradas…”

A dor e o luto ficaram coletivos. A cidade toda consternada, e a informação, inexistente.

E o post seguia firme, estático…
Sem edição.
Sem atualização.
Sem nenhum esclarecimento.

Interpelada pelos familiares, a prima influencer foi categórica: não revelem nada ainda, o mistério gera retenção!

O povo , os amigos, conhecidos, curiosos profissionais e fofoqueiros de plantão e desafetos, já estavam emocionalmente envolvidos. A essa altura, os desesperados e agoniados seguidores, somente queriam um desfecho.Afinal quem morreu!

No dia seguinte, com números que fariam qualquer curso de marketing digital pedir licença para virar case: 

👍 3.500 curtidas
🔁 600 compartilhamentos
💬 3.250 comentários

Veio, enfim, a revelação em um post emocionado.

A família enlutada agradece as mensagens e o apoio neste momento tão difícil com a partida da querida Catarina.

Catarina era a fiel companheira noturna da tia Coloca: Diariamente, conversavam  sobre tudo — ou melhor, tia Colaca falava, respondia e interpretava Catarina com absoluta convicção, sustentando uma relação profunda, intensa e rigorosamente unilateral. Catarina, por sua vez, mantinha seu estilo reservado: observava em silêncio e, vez ou outra, ensaiava um discreto flerte.

Após quatro dias sem aparecer, tia Colaca entrou em desespero e mobilizou a família. Buscas foram realizadas, em um verdadeiro mutirão emocional, até que Catarina foi encontrada atrás do sofá, já em estado avançado de desidratação existencial.

Para evitar um colapso psicológico da tia Colaca, providenciamos imediatamente uma substituição estratégica. Hoje, ela já está feliz. Conversa diariamente com Cláudia — a nova lagartixa — , relembrando, com saudade, as aventuras e peripécias da saudosa Catarina.

Em tempo: Catarina foi jogada no vaso sanitário, com as devidas honras.