As salas de espera têm um dom especial: enquanto o relógio parece demorar a andar, as pessoas conversam. Ali, todos compartilham o mesmo cansaço, indignação e sentimento de abandono. Em cada conversa, revela-se um retrato fiel da forma como são tratados por quem deveria cuidar deles.
Numa manhã qualquer, na farmácia De alto custo instalada “provisoriamente” no auditório do Paço Municipal, os pacientes esperavam pelos seus medicamentos. Entre eles circulavam histórias, ironias e uma pergunta que ninguém conseguia responder: afinal, o que é realmente provisório — o local ou a falta de respeito e empatia?
— Bom dia. A senhora é a última da fila?
— Não sei dizer…
— Seu horário era a que horas?
— Nove.
— Agora são onze e vinte.
— Então, estou adiantada.
...
— Moço, onde fica o banheiro?
— Não tem... É exclusivo para funcionários.
— Mas eu uso bolsa de colostomia.
— Ordem da casa.
— A bolsa não recebeu essa ordem.
...
— Mãe, o bebê está chorando.
— Está na hora de mamar.
— Tem algum lugar reservado?
— Tem.
— Onde?
— Na imaginação de quem escolheu este prédio.
...
— Está calor aqui.
— Não tem janela?
— Nem o vento entra.
— É uma medida para reduzir os custos do Alto Custo….
— Pelo menos, o forro tem bastante ventilação.
— Aqueles buracos?
— É o sistema de climatização natural.
...
— O senhor veio de ônibus?
— Queria ter vindo.
— Não passa nenhuma linha por aqui.
— Então, como chegou?
— De Uber.
— Ficou caro?
— Moro bem longe. Quarenta reais entre a ida e a volta.
— Quarenta reais?
— É.
— Dá para comprar muita coisa.
— Principalmente para quem vive de aposentadoria.
— E quem não tem esse dinheiro?
— Perde o medicamento, ou pede favor para que alguém venha buscá-lo.
— Eu tive que descer bem longe e caminhar com a Cremilda, minha bengala.
— Ah...
...
— O prefeito disse que é temporário.
— Verdade.
— Igual àquelas reformas do prédio do SUS.
...
— Você já viu a secretária por aqui?
— De saúde?
— É.
— Nunca vi.
— Dizem que existe…mas é como um medicamento em falta!
...
— Qual é a doença do senhor?
— Câncer.
— Eu tenho artrite reumatoide.
— Tenho esclerose múltipla.
— Eu sou diabético.
— Meu marido é transplantado.
— Meu filho tem uma doença rara com nome estrangeiro.
— Parece que a única doença comum aqui é a paciência.
...
— Chamaram a senha 42?
— Ainda estão no 18.
— Mas meu horário era às dez horas.
— Aqui, o horário é apenas uma sugestão.
— Tenha paciência; quem sabe, antes das treze horas, você será chamado.
…
— Sabe de uma coisa?
— O quê?
— Não tenho nada a reclamar dos funcionários.
— Também não.
— Trabalham improvisando o impossível.
— E ainda recebem reclamações.
— Por decisões que nunca passaram pelas mãos deles.
— Engraçado...
— Quem errou não aparece…
— Quem tenta resolver é quem leva a bronca.
— No fim...
— Só o constrangimento é dividido.
— Só a responsabilidade é que nunca chega.
...
— O senhor sabe por que marcam a cada meia hora?
— Para organizar.
— Organizar o quê?
— A frustração.
...
— Cadê os vereadores?
— Devem estar fiscalizando.
— Fiscalizando o quê?
— Se ninguém reclama alto.
...
— Mas eles não podem cobrar providências?
— Podem.
— E por que não cobram?
— Porque alguns confundem mandato com estágio probatório.
…
— O presidente da Câmara apareceu?
— Gravou um vídeo dizendo que estava tudo bem e que tinha enviado R$ 400 mil reais.
— E a fila?
— Ele somente gravou o vídeo depois
— Depois de quê?
— Do horário de pico.
...
— E o prefeito?
— Disse que é provisório.
— Mas já faz tanto tempo…
— Psiu...
— Não faça perguntas difíceis.
— Mas ele veio conhecer a farmácia provisória ?
— Não! Mas mandou dizer: "E daqui a gente segue trabalhando."
— Daqui?
— Não... você não entendeu: daqui, da farmácia do Alto Custo, a gente segue esperando.
...
— Está vendo aquele senhor de muletas?
— Sim.
— Chegou antes de mim.
— E aquela moça com o bebê no colo?
— Também.
— E aquela senhora de oitenta anos?
— Também.
— Então, ninguém passa na frente?
— Só o relógio.
...
— Escutaram?
— O quê?
— Chamaram a senha.
— Qual?
— Dezenove.
— Aleluia!
...
— O curioso é que todo mundo aqui tem algum problema de saúde.
— Sim.
— Mas quem parece anestesiado é o poder público.
...
— Sabe qual é o único remédio que não é distribuído aqui?
— Qual?
— A empatia.
— Aquela que faz alguém imaginar o que é um idoso esperar mais de duas horas por um atendimento.
— A que faz entender o constrangimento de uma mãe sem um lugar digno para amamentar.
— A que faz perceber o sofrimento de um paciente oncológico em pé, aguardando a sua vez.
— A que faz pensar em quem usa uma bolsa de colostomia e não encontra um banheiro.
— A que faz lembrar que um aposentado precisa gastar quarenta reais com Uber para buscar o seu medicamento gratuito.
— Esse remédio...
— Continua faltando aqui nesta farmácia….
— E, pelo visto, também nos gabinetes de quem deveria cuidar dela.
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