sábado, 7 de novembro de 2026

CONFISSÕES DE UM PÚLPITO DEPRIMIDO

 




Parlamento do Buteco

Fabio Chrispim Marin

Como de costume, às sextas-feiras acontecem as reuniões ordinárias do Parlamento do Buteco. Não há presidente, secretário, ordem do dia, questão de ordem e nem pedido de vista. O quórum se forma à medida que chegam os habituais frequentadores e todos têm direito à palavra, mesmo quando lhes faltam opinião, argumentos ou qualquer conhecimento ideológico, técnico ou político. Afinal, ali, opinar sobre qualquer assunto é facultativo.

Naquela noite, o Parlamento recebeu convidados especiais. Psicólogos e psiquiatras haviam escolhido o buteco para um happy hour. Entre uma cerveja e outra, discutiam os desafios da profissão, as angústias da vida moderna e as teorias freudianas e junguianas, sem chegar a um consenso sobre os mistérios da mente humana.

A conversa transcorria animada quando surgiu um visitante inesperado. Não era propriamente um cliente do buteco, tampouco um paciente convencional. Era o púlpito da Câmara Municipal, que, depois de tantos anos ouvindo os problemas dos outros, resolvera procurar alguém disposto a ouvir os seus.

Chegou cabisbaixo, com a madeira envelhecida, o verniz desgastado e uma expressão de quem havia perdido a vontade de sustentar qualquer argumento.

— Boa noite, doutores. Será que posso conversar com vocês?

Um psiquiatra, já na terceira dose, respondeu:

— Claro, puxe uma cadeira.

— Não posso. Sou um púlpito.

— Então fique de pé mesmo.

O psicólogo aproximou-se.

— O que está acontecendo?

— Estou deprimido.

— Há quanto tempo?

— Desde que começaram a confundir livre-arbítrio com obrigação de falar.

O psiquiatra fez uma anotação no guardanapo.

— Conte mais.

— Toda semana sou obrigado a ouvir discursos intermináveis. Vereador que ocupa os dez minutos regulamentares, pede mais tempo de liderança e continua falando sem ter absolutamente nada a dizer.

— E o que você sente?

— Um vazio, doutor. Um vazio profundo.

— Vazio existencial?

— Não. Vazio de conteúdo.

Uma psicóloga, que defendeu uma tese sobre conversas de Buteco perguntou:

— E como são esses discursos?

— Começam cumprimentando os presentes, os ouvintes da rádio, os telespectadores da TV, das redes sociais e do YouTube, falam de uma coisa, passam para outra e  voltam à primeira. Em seguida, agradecem a alguém, lembram de uma reunião, anunciam um evento e terminam pedindo tempo de liderança.

O psiquiatra pediu outra cerveja.

— Continue.

— São especialistas em masturbação discursiva.

A psiquiatra freudiana ergueu as sobrancelhas.

— Como assim?

— Falam, desfalam, repetem, enrolam, prolongam o prazer de ouvir a própria voz e, quando finalmente terminam, só eles parecem satisfeitos.

O psiquiatra decano, que acompanhava a consulta, comentou:

— Pelo menos nesse caso ninguém corre o risco de engravidar alguma ideia.

— É o que o senhor pensa….

O púlpito suspirou.

—  O pior é aguentar os vereadores DKW.

Um dos psiquiatras estranhou:

— DKW? Aqueles automóveis antigos?

— Exatamente.

— Por quê?

— Vivem engasgando.

O garçom interrompeu:

— Tenho um tio que tem um DKW. Quando engasga, é só limpar o carburador e colocar um litro de óleo para cada quarenta litros de gasolina. Não engasga mais.

O púlpito respondeu:

— Na Câmara é mais complicado. O problema não está no combustível nem no óleo. Está na falta de cultura, leitura e conteúdo.

Um dos psiquiatras, incomodado com a intromissão do garçom, pediu para trazer mais um rabo de galo.

— Garçom intrometido! Mas, será que eles não engasgam pelo nervosismo?

— Não, doutor. É que alguns não conseguem ler nem o improviso que os assessores escreveram.

O decano caiu na risada.

— Mas se foi escrito antes, como pode ser improviso?

— Na Câmara pode! 

Uma psicóloga, que até então apenas ouvia, resolveu investigar a rotina do paciente.

— E quando começa esse seu sofrimento?

— Antes mesmo de começarem os discursos, doutora.

— Como assim?

— As sessões estão marcadas para às cinco da tarde. Eu fico lá, pontualmente, esperando. Cinco e dez, cinco e vinte... e nada. Nunca começam no horário!

— E o senhor fica ansioso?

— Muito! É uma angústia antecipatória. Fico imaginando o que vou ter de ouvir.

O psiquiatra perguntou:

— E qual é a justificativa para os atrasos?

O púlpito hesitou.

— Antes de responder, doutor, preciso de uma garantia: nossa conversa está protegida pelo sigilo médico-paciente?

— Absolutamente. Tudo o que disser aqui ficará entre nós.

— Nem os vereadores ficarão sabendo?

— Nem eles.

— Então posso falar. Pessoalmente, acho que o poder lhes subiu à cabeça. Alguns parecem acreditar que, por serem vereadores, estão acima das obrigações e das leis. Confundem autoridade com privilégio... perderam respeito ao cidadão que liga a TV às cinco da tarde ou comparece a Câmara para acompanhar a sessão. 

— E por que o senhor ficou com tanto receio de dizer isso?

— Doutor, na Câmara as paredes têm ouvidos e até o púlpito precisa tomar cuidado com o que fala.

Uma jovem psicóloga quis saber:

— Além dos discursos e dos atrasos, existe alguma coisa a mais lhe  incomoda?

O púlpito quase chorou.

— Os vereadores gospel...

— Gospel?

— Aqueles que transformam o pronunciamento em pregação. Não necessariamente são evangélicos, mas falam como se fossem, com tanta empolgação que salivam, tossem, pigarreiam e batizam o microfone com saliva.

— Isso deve te incomodar…

— Muito! Eu e o microfone ficamos todos molhados. Ninguém leva um lenço, uma toalha, nada!

Uma psiquiatra tentou tranquilizá-lo:

— Talvez seja apenas entusiasmo.

— Entusiasmo? Tem sessão em que saio precisando de banho e desinfecção. Outro dia, um deles soltou uma chuva de saliva em mim. Parecia uma cerimônia de aspersão de cuspe ungido.

O intrometido dono do buteco se aproximou:

— Aqui também acontece. Tem freguês que fala cuspindo.

— E o senhor faz o quê?

— Afasto ele do balcão e dos amendoins.

O púlpito continuou:

— Pelo menos o senhor pode limpar o balcão. Eu fico lá, imóvel, recebendo perdigotos de todas as tendências políticas.

— Já pensou em pedir um protetor?

— Pensei. Mas tenho medo de apresentarem um projeto de lei criando o Dia Municipal do Púlpito Salivado e, pior, homenagearem o protetor com o nome de um patriarca de alguma família com muitos eleitores.

— E seria aprovado?

— Por unanimidade, com moção de aplausos ao autor.

O púlpito respirou fundo.

— Também existem os vereadores de agenda.

— Como assim?

— Não fazem discurso. Fazem programação de eventos.

— Explique.

— Anunciam a festa do próximo domingo, agradecem o almoço da semana passada, convidam para o campeonato de sábado, parabenizam pelo aniversário de terça e lembram da missa do mês seguinte.

— E discutem os problemas da cidade?

— Nunca!. Mas conhecem a programação social melhor do que qualquer socialite.

Uma psicóloga, interessada nos aspectos emocionais do paciente, retomou:

— O senhor falou em tristeza, cansaço e frustração. Mas existe algo que lhe cause revolta?

O púlpito hesitou.

— As distorções, doutora.

— Distorções?

— Algumas por maldade, outras por conveniência, outras em nome de um suposto livre-arbítrio e muitas pela absoluta incapacidade de interpretar um texto.. 

Um jovem psicólogo perguntou:

— E ninguém corrige?

— Corrigir até poderiam. Mas existe uma cláusula no Estatuto do Corporativismo Legislativo que determina não desmentir o colega durante a sessão.

— Mesmo quando ele estiver errado?

— Principalmente quando está errado. Corrigir um colega é penalizado com boicotes aos seus projetos.

— Vou dar um exemplo do perigo das distorções. Numa sessão, um vereador gospel fez uma interpretação tão distorcida de uma lei federal que fiquei preocupado até com a Bíblia.

— Com a Bíblia? Por quê?

— Imagine o que ele não é capaz de fazer com um texto de dois mil anos, se  consegue deturpar uma lei de apenas duas páginas!

Um psiquiatra comentou:

— Talvez ele tenha apenas uma interpretação diferente.

— Doutor, uma coisa é interpretar. Outra é fazer o texto confessar um crime que não cometeu.

O dono do buteco aproveitou a deixa:

— Aqui também tem um freguês que interpreta tudo errado.

— Como assim?

— Toda vez que apresento a conta, ele diz que não gastou tudo aquilo e ainda pede mais uma dose.

Outro psicólogo tentou mudar de assunto:

— Mas deve ser interessante ter uma visão privilegiada do plenário.

— Interessante e deprimente. Enquanto um vereador discursa, outros conversam, mexem no celular, trocam mensagens, riem, assistem a novelas pelo celular, prestam atenção em qualquer coisa, menos no colega que está ali em pé comigo.

— Assistem a novelas?

— Sim ... .acho que estão mais preocupados com o destino de Batanga* do que a população da cidade que paga os salários deles.

O púlpito abaixou a voz.

— Mas o que mais me entristece, doutores, é a falta de debate.

— Como assim?

— Eles raramente discutem. Cada um fala para a própria plateia, grava seu vídeo e volta para o seu lugar.

— Não há divergências?

— Poderia haver, mas o Estatuto do Corporativismo Legislativo também  não permite.

O psiquiatra perguntou:

— E quando aparece um assunto realmente importante?

— Aí entra em uma ação preventiva. Antes das sessões, há uma espécie de consulta coletiva com o prefeito. Uns recebem orientações sobre como votar, outros como deve defender ou pedir adiamento do projeto..

— Então não existem divergências?

— Pouquissímas, doutor! .

— E a tal independência do Legislativo?

— Continua intacta. Cada vereador da base tem total e plena liberdade para concordar em 100% com o prefeito . 

Uma psicóloga, intrigada com a submissão legislativa descrita pelo paciente, perguntou:

— Existem vereadores de extrema direita que defendem suas convicções com entusiasmo?

— São todos da base do prefeito. Quando o assunto é política nacional, falam grosso, gesticulam, denunciam, protestam e até batem em cima de mim.

— E quando o assunto são os direitos dos funcionários públicos municipais?

O púlpito abaixou a voz.

— Aí acontece um fenômeno extraordinário.

— Qual?

— A tropa de choque da extrema direita, fiel aliada do prefeito, recolhe-se à clausura, faz voto de silêncio total e finge que a pauta não é prioridade. 

O psiquiatra demonstrou interesse:

— Silêncio total?

— Sim! Aqueles mesmos vereadores que enfrentam o presidente da República, o Supremo Tribunal Federal, a ONU e tudo o que chamam de esquerda, ficam totalmente mudos quando precisam defender os funcionários públicos.

A psicóloga insistiu:

— Acha que eles têm medo do prefeito?

— Eles têm medo de perder as benesses do Executivo e os votos do eleitorado de extrema direita. Afinal, criticar Brasília rende aplausos e votos; contrariar o prefeito e defender os trabalhadores pode custar a perda dos votos e dos privilégios.

O decano comentou:

— Então a Câmara funciona como um coral, onde nem todos sabem a música, mas ninguém desafina contra o maestro.

Uma psicóloga interrompeu:

— O senhor está falando muito de corporativismo. Isso acontece em outras situações?

— Constantemente. Tem vereador da oposição que sobe indignado, enumera gastos desnecessários da prefeitura, critica contratos, despesas administrativas, aluguéis...

— Isso não é justamente o papel de fiscalizar?

— Claro que é. O problema é quando a indignação escolhe o endereço.

— Como assim?

— Falam de imóveis alugados, mas certos contratos desaparecem do discurso, principalmente, quando o imóvel pertence a uma associação presidida por um colega vereador.

O psiquiatra demonstrou interesse:

— E o contrato é irregular?

— Não estou dizendo isso, doutor. Digo que deveriam ser feitas as mesmas perguntas sobre todos os contratos, inclusive os que envolvem seus colegas na Câmara.

O decano comentou:

— Então é uma fiscalização seletiva?

— Podemos dizer que sim.

O diagnóstico

Depois de quase duas horas de consulta, os psicólogos e psiquiatras reuniram-se num canto.

O decano quis saber:

— E então? Qual é o diagnóstico?

Uma psicóloga respondeu:

— O paciente apresenta sinais de exaustão emocional, angústia recorrente e profunda frustração com a falta de sentido de sua existência profissional.

Outro profissional ponderou:

— Também demonstra ressentimento por não poder responder aos discursos que é obrigado a ouvir silenciosamente...Infelizmente temos uma má noticia para voçê.


O púlpito ficou apreensivo.

— O senhor parece ter perdido a capacidade de reconhecer um discurso sensato.

— Então o que devo fazer?

— Recomendamos repouso, afastamento temporário das situações de estresse e evitar ambientes onde as pessoas falam muito e escutam pouco.

O púlpito arregalou os olhos.

— Mas isso significa que preciso me afastar da Câmara!

— Exatamente.

— Por quanto tempo?

O psiquiatra pensou por alguns segundos.

— Até o ambiente melhorar.

O púlpito abaixou a cabeça.

— Então os senhores estão me recomendando aposentadoria?

O decano pediu a última rodada.

— Sim!  Por excesso de trabalho inútil.

Foi quando o anarquista, que havia acompanhado apenas os trechos da consulta que conseguira entender e totalmente embriagado, levantou-se cambaleando.

— Vocês estudaram tantos anos e não sabem resolver um problema desses?

O psiquiatra respondeu:

— Estamos recomendando repouso e acompanhamento.

— Conversa fiada!  Eu resolvo agora com terapia de choque.

Antes que alguém pudesse impedi-lo, o anarquista desferiu um potentoso pontapé na lateral do púlpito.

Ouviu-se um estalo seco.

Uma das peças de madeira se soltou e o púlpito caiu.

Um psicólogo gritou:

— Ficou louco? 

O anarquista, orgulhoso, apontou para o paciente:

— Pronto! Problema resolvido. Agora ele vai passar um tempo na marcenaria, bem longe dos vereadores.

O púlpito, ainda assustado, examinou a lateral danificada.

Depois de alguns segundos, esboçou um sorriso.

— Doutores... acho que estou melhorando.

— Como assim?

— Pela primeira vez na vida eu fiquei deitado…é um sentimento bom.  Imagina poder ficar deitado sem precisar ouvir ninguém discursar e salivar em cima de mim.

O garçom apresentou a conta da noite. 

O anarquista examinou o valor da sua conta, levantou o copo e proclamou:

— Abaixo a propriedade privada! Abaixo o lucro! Abaixo a exploração capitalista!

O dono do Buteco respondeu:

— Pode começar acabando com a exploração: pague a conta e pare de explorar a minha paciência!

E a sessão foi encerrada, com o púlpito encaminhado à marcenaria e o anarquista submetido, pela primeira vez na vida, a uma autoridade que não admitia recurso: a do dono do buteco

  • Batanga: reino africano fictício no universo da novela “a nobreza do Amor, exibida na TV Globo

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com púlpitos deprimidos, Câmara municipais e seus vereadores, diagnósticos de psicólogos e psiquiatras, é mera coincidência, ou fruto criativo da mente do leitor. 


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

EM ITATIBA, O PODER AINDA É COISA DE HOMEM

 




A cidade está preparada para eleger uma mulher prefeita?


Itatiba mantém uma tradição política historicamente marcada pela predominância masculina nos principais espaços de poder. Ao longo de sua história, a cidade nunca teve uma mulher eleita prefeita ou vice-prefeita e muito poucas chegaram a disputar esses cargos. Não é apenas uma coincidência eleitoral, é o reflexo de uma cultura machista em que as mulheres encontram dificuldades para alcançar os postos mais importantes na administração pública.

Foram necessários 35 anos desde a redemocratização de 1947 para que uma mulher conquistasse uma cadeira na Câmara Municipal de Itatiba. Coube à advogada Lia de Araújo Oliveira Marchi romper essa barreira em 1982, tornando-se a primeira vereadora da história do município. Em 1986, reafirmou seu pioneirismo ao ser reeleita e, em 1991, alcançou outro feito histórico: tornou-se a primeira mulher a presidir o Legislativo itatibense, posto que nenhuma outra mulher voltou a ocupar. Essas três conquistas consagraram a Dra. Lia como um marco na história da participação feminina na política local. Seu pioneirismo foi reconhecido com uma homenagem cuja modéstia contrasta com a importância de suas conquistas: deram seu nome a um púlpito na sala de sessões da Câmara Municipal. Convenhamos, uma distinção pouco expressiva para quem rompeu tantas barreiras na política itatibense. A escolha chega a sugerir uma ironia machista: para uma mulher que conquistou seu espaço em um ambiente historicamente dominado por homens, um púlpito já estaria de bom tamanho…Não acredito que tenha sido essa a intenção dos homenageadores, mas o simbolismo é difícil de ignorar.
Em 1992,outro capítulo da participação feminina na política itatibense foi escrito: Maria Eunice de Lourdes Milda Mancin de Camargo tornou-se a primeira mulher a disputar a Prefeitura de Itatiba. Esposa do ex-prefeito José Maurício de Camargo, sua candidatura representou um marco na história da participação feminina na política itatibense. Dona Nice voltou às urnas em 1996 como candidata a vice-prefeita, novamente sem se eleger. Embora não tenha chegado ao comando do Executivo, ajudou a romper com a ideia de que o papel das mulheres na política municipal deveria se limitar aos bastidores do poder e às funções protocolares. Como primeira-dama, criou o Fundo Social de Solidariedade, atuou na direção das áreas de Saúde e Promoção Social e conferiu uma dimensão mais atuante à função. Sua presença na vida pública foi marcada pela coragem, pela iniciativa e pela disposição de enfrentar situações difíceis. Dona Nice mostrou que, para uma mulher fazer a diferença na política, não precisava estar à frente da Prefeitura. Bastava não aceitar ficar à sombra de quem estava.
Outra pioneira da política itatibense foi a professora Marina Bredariol Almeida, que se tornou uma referência da participação feminina na vida pública, com uma trajetória marcada pela persistência e pela atuação constante nas disputas eleitorais. Disputou nove eleições: foi eleita vereadora em 1996, concorreu três vezes à Prefeitura, outras três a deputada e duas a vice-prefeita. Independentemente dos resultados eleitorais, sua trajetória representa um capítulo importante da presença feminina na disputa pelos espaços de poder em Itatiba. Seu nome chegou a ser escolhido para batizar um futuro CEMEI no bairro San Francisco. A homenagem, porém, teve um destino curioso, pois a creche sequer chegou a ser inaugurada. Com o desaparecimento do projeto, desapareceu também o reconhecimento público à professora Marina. Uma injustiça histórica com quem abriu caminhos às mulheres na política itatibense e cujo legado na educação e na vida pública merece mais do que uma homenagem que ficou na promessa.
Uma mulher no comando da prefeitura de Itatiba faria diferença?
A ausência feminina nos principais espaços de poder em Itatiba merece uma reflexão, sobretudo diante do recente fortalecimento de correntes conservadoras no cenário político nacional, algumas das quais abertamente contrárias a direitos historicamente conquistados pelas mulheres. Não se trata de eleger uma prefeita simplesmente por ser mulher, mas de abrir espaço para novas lideranças, com diferentes visões administrativas e propostas para a saúde, a educação, a assistência social e a qualidade de vida. Em um cenário político no qual conquistas históricas das mulheres voltam a ser questionadas, ganha ainda mais importância o compromisso dessas lideranças com a defesa dos direitos femininos e a prevenção de possíveis retrocessos.
E em 2028?
As eleições municipais de 2028 oferecem a Itatiba uma oportunidade de repensar a composição de suas lideranças políticas. Mais do que definir a sucessão do atual prefeito, será o momento de discutir a ampliação do protagonismo feminino, abrindo espaço para que mulheres disputem, com efetivas condições de participação, os cargos de prefeita e vice-prefeita.
Não faltam mulheres em Itatiba com experiência e capacidade de liderança na política, na educação, na saúde, no comércio, na indústria, no empreendedorismo e nas entidades sociais. Parece, sim, faltar espaço nos partidos e a disposição das lideranças políticas para reconhecer e apoiar essas candidaturas. 
Mais do que questionar uma tradição profundamente arraigada na política itatibense, é hora de discutir por que, depois de tantas décadas, o protagonismo no exercício do poder continua reservado aos homens. Afinal, essa exclusividade masculina é fruto da vontade dos eleitores ou das escolhas de quem controla os espaços de decisão política?