Parlamento do Buteco
Fabio Chrispim Marin
Como de costume, às sextas-feiras acontecem as reuniões ordinárias do Parlamento do Buteco. Não há presidente, secretário, ordem do dia, questão de ordem e nem pedido de vista. O quórum se forma à medida que chegam os habituais frequentadores e todos têm direito à palavra, mesmo quando lhes faltam opinião, argumentos ou qualquer conhecimento ideológico, técnico ou político. Afinal, ali, opinar sobre qualquer assunto é facultativo.
Naquela noite, o Parlamento recebeu convidados especiais. Psicólogos e psiquiatras haviam escolhido o buteco para um happy hour. Entre uma cerveja e outra, discutiam os desafios da profissão, as angústias da vida moderna e as teorias freudianas e junguianas, sem chegar a um consenso sobre os mistérios da mente humana.
A conversa transcorria animada quando surgiu um visitante inesperado. Não era propriamente um cliente do buteco, tampouco um paciente convencional. Era o púlpito da Câmara Municipal, que, depois de tantos anos ouvindo os problemas dos outros, resolvera procurar alguém disposto a ouvir os seus.
Chegou cabisbaixo, com a madeira envelhecida, o verniz desgastado e uma expressão de quem havia perdido a vontade de sustentar qualquer argumento.
— Boa noite, doutores. Será que posso conversar com vocês?
Um psiquiatra, já na terceira dose, respondeu:
— Claro, puxe uma cadeira.
— Não posso. Sou um púlpito.
— Então fique de pé mesmo.
O psicólogo aproximou-se.
— O que está acontecendo?
— Estou deprimido.
— Há quanto tempo?
— Desde que começaram a confundir livre-arbítrio com obrigação de falar.
O psiquiatra fez uma anotação no guardanapo.
— Conte mais.
— Toda semana sou obrigado a ouvir discursos intermináveis. Vereador que ocupa os dez minutos regulamentares, pede mais tempo de liderança e continua falando sem ter absolutamente nada a dizer.
— E o que você sente?
— Um vazio, doutor. Um vazio profundo.
— Vazio existencial?
— Não. Vazio de conteúdo.
Uma psicóloga, que defendeu uma tese sobre conversas de Buteco perguntou:
— E como são esses discursos?
— Começam cumprimentando os presentes, os ouvintes da rádio, os telespectadores da TV, das redes sociais e do YouTube, falam de uma coisa, passam para outra e voltam à primeira. Em seguida, agradecem a alguém, lembram de uma reunião, anunciam um evento e terminam pedindo tempo de liderança.
O psiquiatra pediu outra cerveja.
— Continue.
— São especialistas em masturbação discursiva.
A psiquiatra freudiana ergueu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Falam, desfalam, repetem, enrolam, prolongam o prazer de ouvir a própria voz e, quando finalmente terminam, só eles parecem satisfeitos.
O psiquiatra decano, que acompanhava a consulta, comentou:
— Pelo menos nesse caso ninguém corre o risco de engravidar alguma ideia.
— É o que o senhor pensa….
O púlpito suspirou.
— O pior é aguentar os vereadores DKW.
Um dos psiquiatras estranhou:
— DKW? Aqueles automóveis antigos?
— Exatamente.
— Por quê?
— Vivem engasgando.
O garçom interrompeu:
— Tenho um tio que tem um DKW. Quando engasga, é só limpar o carburador e colocar um litro de óleo para cada quarenta litros de gasolina. Não engasga mais.
O púlpito respondeu:
— Na Câmara é mais complicado. O problema não está no combustível nem no óleo. Está na falta de cultura, leitura e conteúdo.
Um dos psiquiatras, incomodado com a intromissão do garçom, pediu para trazer mais um rabo de galo.
— Garçom intrometido! Mas, será que eles não engasgam pelo nervosismo?
— Não, doutor. É que alguns não conseguem ler nem o improviso que os assessores escreveram.
O decano caiu na risada.
— Mas se foi escrito antes, como pode ser improviso?
— Na Câmara pode!
Uma psicóloga, que até então apenas ouvia, resolveu investigar a rotina do paciente.
— E quando começa esse seu sofrimento?
— Antes mesmo de começarem os discursos, doutora.
— Como assim?
— As sessões estão marcadas para às cinco da tarde. Eu fico lá, pontualmente, esperando. Cinco e dez, cinco e vinte... e nada. Nunca começam no horário!
— E o senhor fica ansioso?
— Muito! É uma angústia antecipatória. Fico imaginando o que vou ter de ouvir.
O psiquiatra perguntou:
— E qual é a justificativa para os atrasos?
O púlpito hesitou.
— Antes de responder, doutor, preciso de uma garantia: nossa conversa está protegida pelo sigilo médico-paciente?
— Absolutamente. Tudo o que disser aqui ficará entre nós.
— Nem os vereadores ficarão sabendo?
— Nem eles.
— Então posso falar. Pessoalmente, acho que o poder lhes subiu à cabeça. Alguns parecem acreditar que, por serem vereadores, estão acima das obrigações e das leis. Confundem autoridade com privilégio... perderam respeito ao cidadão que liga a TV às cinco da tarde ou comparece a Câmara para acompanhar a sessão.
— E por que o senhor ficou com tanto receio de dizer isso?
— Doutor, na Câmara as paredes têm ouvidos e até o púlpito precisa tomar cuidado com o que fala.
Uma jovem psicóloga quis saber:
— Além dos discursos e dos atrasos, existe alguma coisa a mais lhe incomoda?
O púlpito quase chorou.
— Os vereadores gospel...
— Gospel?
— Aqueles que transformam o pronunciamento em pregação. Não necessariamente são evangélicos, mas falam como se fossem, com tanta empolgação que salivam, tossem, pigarreiam e batizam o microfone com saliva.
— Isso deve te incomodar…
— Muito! Eu e o microfone ficamos todos molhados. Ninguém leva um lenço, uma toalha, nada!
Uma psiquiatra tentou tranquilizá-lo:
— Talvez seja apenas entusiasmo.
— Entusiasmo? Tem sessão em que saio precisando de banho e desinfecção. Outro dia, um deles soltou uma chuva de saliva em mim. Parecia uma cerimônia de aspersão de cuspe ungido.
O intrometido dono do buteco se aproximou:
— Aqui também acontece. Tem freguês que fala cuspindo.
— E o senhor faz o quê?
— Afasto ele do balcão e dos amendoins.
O púlpito continuou:
— Pelo menos o senhor pode limpar o balcão. Eu fico lá, imóvel, recebendo perdigotos de todas as tendências políticas.
— Já pensou em pedir um protetor?
— Pensei. Mas tenho medo de apresentarem um projeto de lei criando o Dia Municipal do Púlpito Salivado e, pior, homenagearem o protetor com o nome de um patriarca de alguma família com muitos eleitores.
— E seria aprovado?
— Por unanimidade, com moção de aplausos ao autor.
O púlpito respirou fundo.
— Também existem os vereadores de agenda.
— Como assim?
— Não fazem discurso. Fazem programação de eventos.
— Explique.
— Anunciam a festa do próximo domingo, agradecem o almoço da semana passada, convidam para o campeonato de sábado, parabenizam pelo aniversário de terça e lembram da missa do mês seguinte.
— E discutem os problemas da cidade?
— Nunca!. Mas conhecem a programação social melhor do que qualquer socialite.
Uma psicóloga, interessada nos aspectos emocionais do paciente, retomou:
— O senhor falou em tristeza, cansaço e frustração. Mas existe algo que lhe cause revolta?
O púlpito hesitou.
— As distorções, doutora.
— Distorções?
— Algumas por maldade, outras por conveniência, outras em nome de um suposto livre-arbítrio e muitas pela absoluta incapacidade de interpretar um texto..
Um jovem psicólogo perguntou:
— E ninguém corrige?
— Corrigir até poderiam. Mas existe uma cláusula no Estatuto do Corporativismo Legislativo que determina não desmentir o colega durante a sessão.
— Mesmo quando ele estiver errado?
— Principalmente quando está errado. Corrigir um colega é penalizado com boicotes aos seus projetos.
— Vou dar um exemplo do perigo das distorções. Numa sessão, um vereador gospel fez uma interpretação tão distorcida de uma lei federal que fiquei preocupado até com a Bíblia.
— Com a Bíblia? Por quê?
— Imagine o que ele não é capaz de fazer com um texto de dois mil anos, se consegue deturpar uma lei de apenas duas páginas!
Um psiquiatra comentou:
— Talvez ele tenha apenas uma interpretação diferente.
— Doutor, uma coisa é interpretar. Outra é fazer o texto confessar um crime que não cometeu.
O dono do buteco aproveitou a deixa:
— Aqui também tem um freguês que interpreta tudo errado.
— Como assim?
— Toda vez que apresento a conta, ele diz que não gastou tudo aquilo e ainda pede mais uma dose.
Outro psicólogo tentou mudar de assunto:
— Mas deve ser interessante ter uma visão privilegiada do plenário.
— Interessante e deprimente. Enquanto um vereador discursa, outros conversam, mexem no celular, trocam mensagens, riem, assistem a novelas pelo celular, prestam atenção em qualquer coisa, menos no colega que está ali em pé comigo.
— Assistem a novelas?
— Sim ... .acho que estão mais preocupados com o destino de Batanga* do que a população da cidade que paga os salários deles.
O púlpito abaixou a voz.
— Mas o que mais me entristece, doutores, é a falta de debate.
— Como assim?
— Eles raramente discutem. Cada um fala para a própria plateia, grava seu vídeo e volta para o seu lugar.
— Não há divergências?
— Poderia haver, mas o Estatuto do Corporativismo Legislativo também não permite.
O psiquiatra perguntou:
— E quando aparece um assunto realmente importante?
— Aí entra em uma ação preventiva. Antes das sessões, há uma espécie de consulta coletiva com o prefeito. Uns recebem orientações sobre como votar, outros como deve defender ou pedir adiamento do projeto..
— Então não existem divergências?
— Pouquissímas, doutor! .
— E a tal independência do Legislativo?
— Continua intacta. Cada vereador da base tem total e plena liberdade para concordar em 100% com o prefeito .
Uma psicóloga, intrigada com a submissão legislativa descrita pelo paciente, perguntou:
— Existem vereadores de extrema direita que defendem suas convicções com entusiasmo?
— São todos da base do prefeito. Quando o assunto é política nacional, falam grosso, gesticulam, denunciam, protestam e até batem em cima de mim.
— E quando o assunto são os direitos dos funcionários públicos municipais?
O púlpito abaixou a voz.
— Aí acontece um fenômeno extraordinário.
— Qual?
— A tropa de choque da extrema direita, fiel aliada do prefeito, recolhe-se à clausura, faz voto de silêncio total e finge que a pauta não é prioridade.
O psiquiatra demonstrou interesse:
— Silêncio total?
— Sim! Aqueles mesmos vereadores que enfrentam o presidente da República, o Supremo Tribunal Federal, a ONU e tudo o que chamam de esquerda, ficam totalmente mudos quando precisam defender os funcionários públicos.
A psicóloga insistiu:
— Acha que eles têm medo do prefeito?
— Eles têm medo de perder as benesses do Executivo e os votos do eleitorado de extrema direita. Afinal, criticar Brasília rende aplausos e votos; contrariar o prefeito e defender os trabalhadores pode custar a perda dos votos e dos privilégios.
O decano comentou:
— Então a Câmara funciona como um coral, onde nem todos sabem a música, mas ninguém desafina contra o maestro.
Uma psicóloga interrompeu:
— O senhor está falando muito de corporativismo. Isso acontece em outras situações?
— Constantemente. Tem vereador da oposição que sobe indignado, enumera gastos desnecessários da prefeitura, critica contratos, despesas administrativas, aluguéis...
— Isso não é justamente o papel de fiscalizar?
— Claro que é. O problema é quando a indignação escolhe o endereço.
— Como assim?
— Falam de imóveis alugados, mas certos contratos desaparecem do discurso, principalmente, quando o imóvel pertence a uma associação presidida por um colega vereador.
O psiquiatra demonstrou interesse:
— E o contrato é irregular?
— Não estou dizendo isso, doutor. Digo que deveriam ser feitas as mesmas perguntas sobre todos os contratos, inclusive os que envolvem seus colegas na Câmara.
O decano comentou:
— Então é uma fiscalização seletiva?
— Podemos dizer que sim.
O diagnóstico
Depois de quase duas horas de consulta, os psicólogos e psiquiatras reuniram-se num canto.
O decano quis saber:
— E então? Qual é o diagnóstico?
Uma psicóloga respondeu:
— O paciente apresenta sinais de exaustão emocional, angústia recorrente e profunda frustração com a falta de sentido de sua existência profissional.
Outro profissional ponderou:
— Também demonstra ressentimento por não poder responder aos discursos que é obrigado a ouvir silenciosamente...Infelizmente temos uma má noticia para voçê.
O púlpito ficou apreensivo.
— O senhor parece ter perdido a capacidade de reconhecer um discurso sensato.
— Então o que devo fazer?
— Recomendamos repouso, afastamento temporário das situações de estresse e evitar ambientes onde as pessoas falam muito e escutam pouco.
O púlpito arregalou os olhos.
— Mas isso significa que preciso me afastar da Câmara!
— Exatamente.
— Por quanto tempo?
O psiquiatra pensou por alguns segundos.
— Até o ambiente melhorar.
O púlpito abaixou a cabeça.
— Então os senhores estão me recomendando aposentadoria?
O decano pediu a última rodada.
— Sim! Por excesso de trabalho inútil.
Foi quando o anarquista, que havia acompanhado apenas os trechos da consulta que conseguira entender e totalmente embriagado, levantou-se cambaleando.
— Vocês estudaram tantos anos e não sabem resolver um problema desses?
O psiquiatra respondeu:
— Estamos recomendando repouso e acompanhamento.
— Conversa fiada! Eu resolvo agora com terapia de choque.
Antes que alguém pudesse impedi-lo, o anarquista desferiu um potentoso pontapé na lateral do púlpito.
Ouviu-se um estalo seco.
Uma das peças de madeira se soltou e o púlpito caiu.
Um psicólogo gritou:
— Ficou louco?
O anarquista, orgulhoso, apontou para o paciente:
— Pronto! Problema resolvido. Agora ele vai passar um tempo na marcenaria, bem longe dos vereadores.
O púlpito, ainda assustado, examinou a lateral danificada.
Depois de alguns segundos, esboçou um sorriso.
— Doutores... acho que estou melhorando.
— Como assim?
— Pela primeira vez na vida eu fiquei deitado…é um sentimento bom. Imagina poder ficar deitado sem precisar ouvir ninguém discursar e salivar em cima de mim.
O garçom apresentou a conta da noite.
O anarquista examinou o valor da sua conta, levantou o copo e proclamou:
— Abaixo a propriedade privada! Abaixo o lucro! Abaixo a exploração capitalista!
O dono do Buteco respondeu:
— Pode começar acabando com a exploração: pague a conta e pare de explorar a minha paciência!
E a sessão foi encerrada, com o púlpito encaminhado à marcenaria e o anarquista submetido, pela primeira vez na vida, a uma autoridade que não admitia recurso: a do dono do buteco
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Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com púlpitos deprimidos, Câmara municipais e seus vereadores, diagnósticos de psicólogos e psiquiatras, é mera coincidência, ou fruto criativo da mente do leitor.

