Antes da eleição, escrevi que Itatiba teria duas apurações. A primeira, oficial, definiria presidente, governador, senadores e deputados. A segunda começaria depois, quando lideranças e grupos políticos locais colocassem seus números sobre a mesa para medir quanto de seu prestígio conseguiram transformar em votos.
Chegou a hora desta segunda apuração. Mas com uma ressalva: o voto não vem com etiqueta. Um mesmo candidato pode receber o apoio do prefeito, de vereadores e de diferentes grupos políticos, o que torna difícil saber exatamente quem transferiu votos e quantos. Feita a ressalva, vamos aos números.
Thomás: força eleitoral e articulação política
Thomás Capeletto distribuiu seu apoio entre diferentes candidaturas e terminou a eleição com vários desses nomes eleitos. Três deputados federais: Carlos Sampaio e Saulo Pedroso, ambos do PSD, e Luiz Fernando Machado (PL); estadual, Rogério Nogueira (PSD), João Paulo (PL) e Danilo Joan (PP).
Vereadores da base do prefeito ampliaram ainda mais essa rede, com votações que evidenciam sua capacidade de mobilização política: Leila Bedani apoiou Rogério Nogueira (PSD), que recebeu 925 votos; Washington Bortolossi esteve com Telhadinha (PP), que obteve 1.235; e Fernando Soares fez campanha para João Paulo (PL), que alcançou 2.029 votos.
Merece destaque também a atuação da liderança local do PL, especialmente do vereador Juninho Parodi, na articulação dos apoios do partido aos candidatos Luis Fernando e João Paulo. Resta, porém, uma questão sobre as expressivas votações da anti-feminista Eduarda Campobiano e de Lucas Pavanato: quanto desses votos pode ser atribuído à mobilização da liderança local e quanto decorreu da projeção própria dos candidatos?
Agora, o desafio para Thomás Capeletto muda: liderar essa base e transformar a rede construída na eleição em articulação capaz de trazer emendas, recursos e investimentos para Itatiba.
Douglas dividiu sua força em três candidaturas
O grupo político do ex-prefeito Douglas Oliveira entrou na eleição com três candidatos, que somaram 13.588 votos em Itatiba: Igor Húngaro (PDT), com 5.314; Cadu (PRD), com 4.516; e Mayara Oliveira (PSDB), esposa de Douglas, com 3.758.
O número chama a atenção quando comparado aos 13.904 votos obtidos por Douglas em Itatiba, em 2022. Há, porém, uma ressalva: como as candidaturas de 2026 se dividiram entre federal e estadual, um mesmo eleitor pode ter sido contabilizado duas vezes. Ainda assim, fica uma questão para as lideranças do grupo: houve ampliação da base eleitoral ou apenas a divisão, entre três candidatos, da força política que Douglas já havia demonstrado sozinho?
NOVO: frustração ou projeto político?
O NOVO apresentou Marcela Gomes como candidata a deputada estadual que recebeu 229 votos em Itatiba. Diante disso, os 229 votos representam uma frustração eleitoral ou o ponto de partida de um projeto político? A resposta dependerá do que o NOVO fizer daqui para frente. Se pretende ampliar seu espaço na política itatibense até 2028, terá de transformar a presença partidária em identidade local e, a identidade local em base eleitoral.
Republicanos: o tamanho da estrutura e o peso das lideranças
O Republicanos chegou à eleição com uma estrutura política considerável: três vereadores, além de lideranças como Fernando Perobelli e Erik Carbonari. O resultado das urnas, porém, indica que essa estrutura não se traduziu na mesma proporção em mobilização eleitoral.
Para federal, dois vereadores e lideranças do partido apoiaram Marcos Pereira, que recebeu 729 votos. Já Júnior Cecon optou por Roberto de Lucena, com 575, apenas 154 de diferença. Para estadual, o equilíbrio foi ainda maior: Rafa Zimbaldi, que recebeu o apoio de Cecon, obteve 625 votos, contra 624 de Molina, candidato escolhido pela direção do Republicanos e pelo vereador Willian Soares.
Os números deixam uma questão para a liderança do partido: a divisão dos apoios diluiu sua força ou ampliou a presença política para 2028?
David Bueno e a difícil divisão dos créditos
David Bueno talvez seja o melhor exemplo da dificuldade de medir a transferência eleitoral. Ele e seu grupo de vereadores apoiaram Danilo Joan (PP), que recebeu 2.887 votos em Itatiba e foi eleito para a ALESP. Mas Danilo também contou com o apoio do prefeito Thomás Capeletto, dificultando separar o peso de cada grupo nessa votação.
Já Maurício Neves (PP), apoiado mais diretamente pelo grupo de David, recebeu 1.049 votos em Itatiba — 1.838 votos a menos que Danilo. A questão está justamente aí: se Danilo contou com uma rede de apoio mais ampla e Maurício esteve mais identificado com o grupo de David, qual das duas votações mede melhor a capacidade de mobilização de David Bueno?
João Fattori: o peso de uma década fora do jogo
Depois de aproximadamente uma década afastado da linha de frente da política, o ex-prefeito João Fattori, ao lado do ex-vereador Roberto Penteado, voltou a participar de uma eleição. Apoiaram Missionário José Olímpio (662 votos) e Rodrigo Moraes (692 votos), ambos do PL. Rodrigo conquistou novamente uma cadeira na ALESP.
Dez anos representam muito tempo na política. Antigos aliados seguiram outros caminhos ou deixaram a atividade, novas lideranças surgiram e parte do grupo que acompanhava Fattori se dispersou.
Se pretende voltar às articulações para a sucessão municipal de 2028, Fattori terá de se reposicionar, reconstruir alianças e demonstrar capacidade de mobilização eleitoral. Os resultados de 2026 oferecem uma primeira fotografia deste retorno: Fattori voltou ao jogo; agora será preciso observar que espaço conseguirá ocupar.
PT: entre o cenário nacional e a construção local
O PT de Itatiba apoiou Maurici para estadual (843 votos) e Kiko Celeguim para federal (743), que conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados. O partido, porém, não repetiu para Lula o desempenho de 2022, quando alcançou 30,03% dos votos no primeiro turno em Itatiba.
Em um cenário ainda marcado pela polarização nacional e pela força do campo bolsonarista, fica uma questão: até que ponto a política nacional continuará condicionando o espaço do PT em Itatiba? Entre os cerca de 18 mil eleitores que votaram em Lula, o partido pode buscar novas lideranças, ampliar sua atuação nos bairros e fortalecer sua organização, ao lado da presença política já exercida pelo vereador Vinícius Costa na Câmara.
A terceira apuração: dos votos aos resultados
Para os itatibenses que votaram nos candidatos apoiados pelas lideranças políticas locais, começa agora uma terceira apuração: acompanhar o que os parlamentares eleitos efetivamente farão pela cidade, por meio de emendas, projetos e articulação política.
Os votos já foram contabilizados. Agora, a conta é outra: quanto desse apoio político se transformará em resultados concretos para Itatiba?








