quarta-feira, 15 de julho de 2026

DIALÓGOS NA SALA DE ESPERA DA FARMÁCIA DE ALTO CUSTO

 






As salas de espera têm um dom especial: enquanto o relógio parece demorar a andar, as pessoas  conversam. Ali, todos compartilham o mesmo cansaço, indignação e sentimento de abandono. Em cada conversa, revela-se um retrato fiel da forma como são tratados por quem deveria cuidar deles. 

Numa manhã qualquer, na farmácia De alto custo instalada “provisoriamente” no auditório do Paço Municipal, os pacientes esperavam pelos seus medicamentos. Entre eles circulavam  histórias, ironias e uma pergunta que ninguém conseguia responder: afinal, o que é realmente provisório — o local ou a falta de respeito e empatia?

— Bom dia. A senhora é a última da fila?

— Não sei dizer…

— Seu horário era a que horas?

— Nove.

— Agora são onze e vinte.

— Então, estou adiantada.

...

— Moço, onde fica o banheiro?

— Não tem... É exclusivo para funcionários.

— Mas eu uso bolsa de colostomia.

— Ordem da casa.

— A bolsa não recebeu essa ordem.

...

— Mãe, o bebê está chorando.

— Está na hora de mamar.

— Tem algum lugar reservado?

— Tem.

— Onde?

— Na imaginação de quem escolheu este prédio.

...

— Está calor aqui.

— Não tem janela?

— Nem o vento entra.

— É uma medida para reduzir os custos do Alto Custo….

— Pelo menos, o forro tem bastante ventilação.

— Aqueles buracos?

— É o sistema de climatização natural.

...

— O senhor veio de ônibus?

— Queria ter vindo.

— Não passa nenhuma linha por aqui.

— Então, como chegou?

— De Uber.

— Ficou caro?

— Moro bem longe. Quarenta reais entre a ida e a volta.

— Quarenta reais?

— É.

— Dá para comprar muita coisa.

— Principalmente para quem vive de aposentadoria.

— E quem não tem esse dinheiro?

— Perde o medicamento, ou pede favor para que alguém venha buscá-lo.

— Eu tive que descer bem longe e caminhar com a Cremilda,  minha bengala.

— Ah...

...

— O prefeito disse que é temporário.

— Verdade.

— Igual àquelas reformas do prédio do SUS.

...

— Você já viu a secretária por aqui?

— De saúde?

— É.

— Nunca vi.

— Dizem que existe…mas é como  um medicamento em falta!

...

— Qual é a doença do senhor?

— Câncer.

— Eu tenho artrite reumatoide.

— Tenho esclerose múltipla.

— Eu sou diabético.

— Meu marido é transplantado.

— Meu filho tem uma doença rara com nome estrangeiro.

— Parece que a única doença comum aqui é a paciência.

...

— Chamaram a senha 42?

— Ainda estão no 18.

— Mas meu horário era às dez horas.

— Aqui, o horário é apenas uma sugestão.

— Tenha paciência; quem sabe, antes das treze horas, você será chamado. 

— Sabe de uma coisa?

— O quê?

— Não tenho nada a reclamar dos funcionários.

— Também não.

— Trabalham improvisando o impossível.

— E ainda recebem reclamações.

— Por decisões que nunca passaram pelas mãos deles.

— Engraçado...

— Quem errou não aparece…

— Quem tenta resolver é quem leva a bronca.

— No fim...

— Só o constrangimento é dividido.

— Só a responsabilidade é que nunca chega.

...

— O senhor sabe por que marcam a cada meia hora?

— Para organizar.

— Organizar o quê?

— A frustração.

...

— Cadê os vereadores?

— Devem estar fiscalizando.

— Fiscalizando o quê?

— Se ninguém reclama alto.

...

— Mas eles não podem cobrar providências?

— Podem.

— E por que não cobram?

— Porque alguns confundem mandato com estágio probatório.

— O presidente da Câmara apareceu?

— Gravou um vídeo dizendo que estava tudo bem e que tinha enviado R$ 400 mil reais.

— E a fila?

— Ele somente gravou o vídeo depois

— Depois de quê?

— Do horário de pico.

...

— E o prefeito?

— Disse que é provisório.

— Mas já faz tanto tempo…

— Psiu...

— Não faça perguntas difíceis.

— Mas ele veio conhecer a farmácia provisória ?

— Não! Mas mandou dizer: "E daqui a gente segue trabalhando."

— Daqui?

— Não... você não entendeu: daqui, da farmácia do  Alto Custo, a gente segue esperando. 

...

— Está vendo aquele senhor de muletas?

— Sim.

— Chegou antes de mim.

— E aquela moça com o bebê no colo?

— Também.

— E aquela senhora de oitenta anos?

— Também.

— Então, ninguém passa na frente?

— Só o relógio.

...

— Escutaram?

— O quê?

— Chamaram a senha.

— Qual?

— Dezenove.

— Aleluia!

...

— O curioso é que todo mundo aqui tem algum problema de saúde.

— Sim.

— Mas quem parece anestesiado é o poder público.

...

— Sabe qual é o único remédio que não é distribuído aqui?

— Qual?

— A empatia.

— Aquela que faz alguém imaginar o que é um idoso esperar mais de duas horas por um atendimento.

— A que faz entender o constrangimento de uma mãe sem um lugar digno para amamentar.

— A que faz perceber o sofrimento de um paciente oncológico em pé, aguardando a sua vez.

— A que faz pensar em quem usa uma bolsa de colostomia e não encontra um banheiro.

— A que faz lembrar que um aposentado precisa gastar quarenta reais com Uber para buscar o seu medicamento gratuito.

— Esse remédio...

— Continua faltando aqui nesta farmácia….

— E, pelo visto, também nos gabinetes de quem deveria cuidar dela.

.


terça-feira, 12 de maio de 2026

ZONA AZUL: A DRAGA OFICIALIZADA

 


Fabio Chrispim Marin

No artigo anterior, mostrei como as novas “dragas econômicas digitais” — bets, marketplaces, streamings e plataformas globais — passaram a retirar bilhões de reais da economia das cidades, drenando o consumo do comércio local e reduzindo a circulação de renda entre pequenos negócios e prestadores de serviços. 

Como se isso não bastasse, a Prefeitura de Itatiba decidiu recolocar a Zona Azul no coração comercial da cidade. 

A Zona Azul é uma “draga da economia local”: grande parte dos recursos arrecadados pela concessionária não retorna proporcionalmente para a economia itatibense. O sistema gera poucos empregos, apresenta baixo efeito multiplicador e, ao mesmo tempo, dificulta a permanência das pessoas justamente onde o comércio físico mais precisa delas: nas ruas centrais.

Em 2016, quando ainda era proprietário da Drogaria Zezinho, no centro de Itatiba, escrevi o artigo “Zona Azul: Antimarketing para o Comércio”. O tempo passou, mas a essência daquela reflexão permanece atual. Ao longo dos anos, consolidou-se um consenso popular de que o estacionamento rotativo seria extremamente positivo para o comércio local — uma narrativa amplamente difundida, que, entretanto, não conseguiu comprovar claramente os resultados prometidos para o fortalecimento do comércio. A única comprovação é que o estacionamento rotativo impõe ao consumidor: limitação de tempo e medo da multa. 

A Zona Azul foi baseada em estudos ou em achismos? 

Como profissional de comunicação e marketing, costumo dizer que não existe marketing sem pesquisa. Até o momento, não foram apresentados estudos técnicos que fundamentem os impactos da implantação da Zona Azul sobre o comércio local. Por isso, a pergunta é inevitável: os consumidores foram ouvidos? Existem pesquisas qualitativas e quantitativas sobre como a população enxerga o centro comercial da cidade? Como eles se sentem diante da obrigação de pagar para estacionar em uma vaga pública, sob risco de multa e pontos na CNH?

Mais do que isso, foram realizados estudos sobre o tempo médio de permanência no comércio, comportamento de compra, circulação de consumidores, perda ou ganho de fluxo nas ruas centrais, redução ou ampliação da compra por impulso nas lojas, e se houve migração do consumo para regiões sem estacionamento rotativo? Foram feitas pesquisas comparativas sobre faturamento do comércio, ticket médio, fluxo de pedestres, conveniência percebida e impactos econômicos antes e depois da implantação da Zona Azul? 

Sem esses dados e informações, qualquer defesa categórica da Zona Azul deixa de ser planejamento — e passa a ser apenas achismo travestido de solução técnica.

O consumidor começa a temer o centro. 

Existe um efeito psicológico pouco debatido sobre o estacionamento rotativo: o medo — da multa, dos pontos na CNH e da fiscalização constante. A simples preocupação com horários e penalidades transforma a ida ao centro em uma experiência tensa. Hoje, a infração custa R$195,23, além de cinco pontos na carteira de habilitação.

E isso altera diretamente o comportamento das pessoas.

Em cidades interioranas como Itatiba, o comércio de rua ainda preserva um diferencial valioso: a convivência humana. Caminhar pelo centro, encontrar conhecidos, olhar vitrines, passar pelas bancas de revistas, sentar-se nas praças, tomar um café, comer um pastel, fazer um lanche ou almoçar sem pressa fazem parte da experiência urbana — e também da dinâmica econômica local.

A Zona Azul interfere justamente nesse modelo de convivência e consumo.

Sob a pressão do relógio e da fiscalização, a ida ao comércio deixa de ser espontânea e transforma-se em uma operação cronometrada: compra-se apenas o necessário e vai-se embora rapidamente. Desaparecem o passeio, a permanência nas ruas, a circulação entre lojas e o consumo por impulso.

O centro deixa de funcionar como espaço de convivência, lazer e descoberta, tornando-se apenas um local de passagem rápida.

Esse processo produz um efeito silencioso, porém profundo: reduz o fluxo, diminui a permanência, enfraquece o consumo e corrói, aos poucos, a vitalidade econômica do comércio no centro.

Como exemplo, cito os centros das cidades de Campinas e Jundiaí, que hoje ilustram esse processo de esvaziamento urbano e comercial, marcado pelo aumento de imóveis vagos, pela perda de circulação e pela degradação gradual das áreas centrais, que se tornaram  dormitórios para moradores de rua. 

O comércio trabalhando para a concessionária

Outro aspecto curioso da Zona Azul está na relação criada entre a concessionária e os comerciantes. Consolidou-se uma lógica quase surreal, na qual os lojistas vendem os tickets do estacionamento rotativo sem receber qualquer remuneração pelo serviço, utilizando a própria estrutura comercial para operacionalizar parte do sistema de arrecadação da empresa.

Na prática, o comércio:

  • Interrompe atendimentos aos próprios clientes.

  • Presta suporte operacional aos usuários do sistema.

  • Assume desgaste junto aos consumidores.

  • Utiliza seus funcionários, seu tempo e sua estrutura.

  • E ainda contribui diretamente para a maximização do lucro da concessionária.

Tudo gratuitamente.

Em outras palavras: o comércio local passa a trabalhar gratuitamente para aumentar a eficiência operacional de uma empresa privada, inclusive ajudando a reduzir seus custos com mão de obra. 

O centro está em contagem regressiva? 

A Zona Azul não regulamenta apenas o estacionamento; ela pode estar colocando em contagem regressiva o futuro do centro de Itatiba. Talvez essa deva ser a principal discussão econômica dos próximos anos: como impedir que o dinheiro — e também as pessoas — desapareçam das ruas do centro de Itatiba.





sábado, 9 de maio de 2026

AS DRAGAS DA ECONOMIA LOCAL – Parte 1

 




Historicamente, o varejo de rua sempre enfrentou concorrência: supermercados, atacarejos, shopping centers e, mais recentemente, os  e-commerces e os grandes marketplaces. Mas o cenário atual tornou-se mais complexo e tão agressivo neste momento quanto as bets.  Já não se trata apenas de competição comercial. Estamos diante de verdadeiras “dragas econômicas” — estruturas que retiram dinheiro da economia local sem devolver, na mesma proporção, circulação de renda, empregos ou desenvolvimento para a cidade.

O dinheiro que antes circulava em roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, alimentação e pequenos serviços — movimentando toda a cadeia de  lojas, empregos e fornecedores locais — agora é transferido para plataformas digitais de apostas. O mais preocupante é que esse recurso praticamente desaparece da economia real das cidades.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre 2023 e abril de 2026. O impacto é tão expressivo que equivale, segundo o setor, a quase dois Natais perdidos para o comércio.  A própria CNC estima que, para cada R$ 1 bilhão gasto em apostas online, o varejo perde cerca de 0,7% do faturamento.

Os efeitos já aparecem no orçamento das famílias. Uma parte crescente da renda passou a ser direcionada às apostas, enquanto contas básicas, crediários e financiamentos entram em atraso. Supermercados e lojas de bens duráveis já registram queda no consumo, especialmente entre as classes C, D e E — justamente a base do comércio de rua em cidades médias como Itatiba.

As bets são apenas a face mais visível de um fenômeno maior. Hoje, uma parcela crescente do orçamento doméstico é capturada por serviços e plataformas digitais como streaming de vídeo e música, marketplaces internacionais, aplicativos, assinaturas digitais e crédito consignado. O celular e as Smart TVs  transformaram-se em um verdadeiro shopping invisível, sem vitrine física, sem geração proporcional de empregos locais e sem circulação significativa de riqueza dentro do município.O dinheiro continua existindo, mas deixou de circular no bairro, no comércio local e na economia da cidade.

O pequeno comerciante já não concorre apenas com a loja da esquina. Agora, disputa mercado com gigantes como Mercado Livre, Shopee, Shein e Amazon — plataformas globais, com escalas logística, financeira e tributária inalcançáveis para o varejo tradicional.

Enquanto o lojista local paga aluguel, mantém empregos, enfrenta burocracia, recolhe impostos e ainda patrocina eventos da cidade, as grandes plataformas concentram faturamento sem reinvestir proporcionalmente na economia urbana que consome seus produtos.

O resultado é uma erosão silenciosa do varejo de rua — e, junto com ele, da renda, dos empregos e da própria vitalidade econômica das cidades.

O varejo de rua já enfrenta concorrência global, mudanças no consumo e a drenagem digital da renda familiar. Como se as dragas digitais já não fossem suficientes, Itatiba ainda conseguiu recriar a sua própria draga local: a Zona Azul.

Na próxima parte, o debate abordará como o estacionamento rotativo afasta consumidores, penaliza o comércio de rua e transforma os lojistas em prestadores de serviços gratuitos à concessionária.

Continua…






domingo, 3 de maio de 2026

CATARINA FALECEU. E NINGUÉM EXPLICOU

 





Catarina faleceu.

Uma morte fria. Literalmente gelada.

A família ficou consternada. Abalada, Em choque — ou pelo menos o suficiente para gerar conteúdo. Mas quem realmente entendeu o potencial daquele momento foi a prima influencer, especialista em transformar qualquer emoção em métricas.

Sem perder tempo — porque timing é tudo — soltou o post padrão:

📸 Fundo preto
🎗️ Laço discreto
🖤 A palavra: LUTO

Só isso.

Sem nome completo. Sem contexto. Sem causa da morte. Sem localização do velório. Sem link na bio. Sem CTA. Nada. Um minimalismo estratégico. Um silêncio altamente performático. E foi aí que começou o espetáculo.

Uma sequência interminável de comentários que faria qualquer social media pedir aumento:

— Nossa! O que aconteceu?
— Quem morreu???
— Qual a funerária???
— Vai ser um velório aberto ou só pra família?
— Enterro ou cremação?
— Me chama no direct!
— Pelo amor de Deus, alguém explica!!!
— Já tem horário???
— Gente, eu PRECISO saber!!! 😭

E, claro, os clássicos:

🙏 Meus sentimentos
🙏 Sentimentos à família
🙏 Que Deus conforte
🙏 Que esteja em um lugar melhor

Sem saber quem faleceu, Mas comentando com autoridade.

Enquanto isso, o algoritmo sorria.

Curtidas subindo.
Comentários explodindo.
Engajamento orgânico.
Alcance entregue.
Story já preparado.
Reels a caminho.

Mas nada de informação.

Nada sobre quem morreu.
Nada sobre o defunto.
Nada sobre o velório.

A essa altura, entraram os comentaristas teológicos profissionais, Versículos sendo distribuídos com precisão bíblica, sem sequer saber quem era o defunto.:

📖 “Eu sou a ressurreição e a vida…”
📖 “Ele enxugará toda lágrima…”
📖 “Ainda que ande pelo vale da sombra da morte…”
📖 “Na casa de meu Pai há muitas moradas…”

A dor e o luto ficaram coletivos. A cidade toda consternada, e a informação, inexistente.

E o post seguia firme, estático…
Sem edição.
Sem atualização.
Sem nenhum esclarecimento.

Interpelada pelos familiares, a prima influencer foi categórica: não revelem nada ainda, o mistério gera retenção!

O povo , os amigos, conhecidos, curiosos profissionais e fofoqueiros de plantão e desafetos, já estavam emocionalmente envolvidos. A essa altura, os desesperados e agoniados seguidores, somente queriam um desfecho.Afinal quem morreu!

No dia seguinte, com números que fariam qualquer curso de marketing digital pedir licença para virar case: 

👍 3.500 curtidas
🔁 600 compartilhamentos
💬 3.250 comentários

Veio, enfim, a revelação em um post emocionado.

A família enlutada agradece as mensagens e o apoio neste momento tão difícil com a partida da querida Catarina.

Catarina era a fiel companheira noturna da tia Coloca: Diariamente, conversavam  sobre tudo — ou melhor, tia Colaca falava, respondia e interpretava Catarina com absoluta convicção, sustentando uma relação profunda, intensa e rigorosamente unilateral. Catarina, por sua vez, mantinha seu estilo reservado: observava em silêncio e, vez ou outra, ensaiava um discreto flerte.

Após quatro dias sem aparecer, tia Colaca entrou em desespero e mobilizou a família. Buscas foram realizadas, em um verdadeiro mutirão emocional, até que Catarina foi encontrada atrás do sofá, já em estado avançado de desidratação existencial.

Para evitar um colapso psicológico da tia Colaca, providenciamos imediatamente uma substituição estratégica. Hoje, ela já está feliz. Conversa diariamente com Cláudia — a nova lagartixa — , relembrando, com saudade, as aventuras e peripécias da saudosa Catarina.

Em tempo: Catarina foi jogada no vaso sanitário, com as devidas honras.






quarta-feira, 22 de abril de 2026

A CARRETA AZUL NÃO VEIO…

 


O Novembro Azul do ano passado foi o mais frustrante da história dos homens itatibenses.

Estávamos cheios de expectativas. 

Durante todo o mês anterior, devido à intensa campanha do Outubro Rosa, nos bares e nas rodas de café, o assunto era um só:

 Mês que vem é Novembro Azul, né?
Será que a carreta vem este ano?
Vai ter mutirão ou será  cada um por si?
E o exame… vai ser o PSA ou… aquele método com o dedo?

 — Se a carreta vier ... .é no dedo mesmo….

Sempre tem  alguém mais experiente à mesa que baixava o tom e falava:

  — É rapidinho…nem dói…e  você nem vai perceber…

 —  Ora… se não vai perceber, por que todo mundo comenta depois?

Tem aqueles que tem a desculpa na ponta da língua para não fazer o exame.

Eu não preciso fazer o exame do toque… tenho um primo que tem o mesmo DNA e faz todo ano……Eu só espero sair o resultado dele.

— Meu plano de saúde é ótimo… o problema é que eu nunca tenho “tempo” para marcar consulta.

— Eu não tenho plano e vou ao postinho de saúde. O médico pede todo ano  um monte de exames, inclusive o PSA, mas, como ele não encaminha para o urologista fazer o exame de toque, eu fico bem quietinho…Eu que não vou contestar o doutor! 

— Vou esperar sair um exame novo… tipo aplicativo, que você faz pelo celular, sem ninguém enfie o dedo onde não deve.

— Ô… eu não vou não. Esse negócio aí mexe com a estrutura do cidadão… depois, nunca mais é o mesmo.

— Meu avô nunca fez esse exame… viveu até os 70 e poucos anos e somente morreu por causa de  um problema urinário.

— Se você for, eu vou com você… mas você vai primeiro, só para eu ver como é.

E assim, entre uma desculpa e outra, os homens vão empurrando o assunto com a barriga…Mas, no fundo, todo homem tem uma esperança secreta: que viesse a tal da carreta azul, resolvesse tudo de uma vez e depois, no bar, dissesse a todos que “foi no mutirão”.

Enfim, chegou novembro…

Esperávamos um mutirão festivo, com tenda, música, zumba, café e bolo.

Não veio nada. Nem um panfletinho sobre o tema.

Esperávamos prédios iluminados de azul…
Questionado, o prefeito foi direto:
—Todos os prédios da  prefeitura já não são pintados de  azul?

Esperávamos ser tratados como heróis.
Fomos tratados como medrosos:
Já devia ter feito isso desde os 40 anos.

Esperávamos o acolhimento.
Recebemos pressão:
Vai logo e para de frescura.

Esperávamos incentivo.
Recebemos chacota:
— Levou bombons e flores para o médico?

Esperávamos que o médico reconhecesse nossa coragem.
Ele disse apenas:
Relaxa… (O que, convenhamos, só piora a situação.)

Esperávamos que nossas mulheres fossem compreensivas…
Mas ouvimos:
Para de frescura, eu faço exames ginecológicos todo ano. Você tá com medo de quê?

Esperávamos a carreta azul, mas ela não veio.

Mas, entre o orgulho e o preconceito…
entre a piada e o constrangimento…
fica uma verdade que ninguém gosta de admitir:

A triste realidade é que o homem prefere fazer graça a fazer exame.

E enquanto a gente ri…
a estatística trabalha.

No fim das contas, o Novembro Azul em Itatiba passou…
Sem carreta, sem eventos, sem mutirões…

Mas deixou um lembrete importante:

Se não vier campanha,
se não vier carreta,
se não vier ninguém chamar…

Vai você!

Mesmo constrangido e com vergonha.

Mesmo reclamando.
Mesmo com medo.
Mesmo aguentando piada depois.

Porque, no final, meu amigo…
é melhor perder o preconceito
do que perder a vida.


Fabio Chrispim Marin