O Novembro Azul do ano passado foi o mais frustrante da história dos homens itatibenses.
Estávamos cheios de expectativas.
Durante todo o mês anterior, devido à intensa campanha do Outubro Rosa, nos bares e nas rodas de café, o assunto era um só:
— Mês que vem é Novembro Azul, né?
— Será que a carreta vem este ano?
— Vai ter mutirão ou será cada um por si?
— E o exame… vai ser o PSA ou… aquele método com o dedo?
— Se a carreta vier ... .é no dedo mesmo….
Sempre tem alguém mais experiente à mesa que baixava o tom e falava:
— É rapidinho…nem dói…e você nem vai perceber…
— Ora… se não vai perceber, por que todo mundo comenta depois?
Tem aqueles que tem a desculpa na ponta da língua para não fazer o exame.
— Eu não preciso fazer o exame do toque… tenho um primo que tem o mesmo DNA e faz todo ano……Eu só espero sair o resultado dele.
— Meu plano de saúde é ótimo… o problema é que eu nunca tenho “tempo” para marcar consulta.
— Eu não tenho plano e vou ao postinho de saúde. O médico pede todo ano um monte de exames, inclusive o PSA, mas, como ele não encaminha para o urologista fazer o exame de toque, eu fico bem quietinho…Eu que não vou contestar o doutor!
— Vou esperar sair um exame novo… tipo aplicativo, que você faz pelo celular, sem ninguém enfie o dedo onde não deve.
— Ô… eu não vou não. Esse negócio aí mexe com a estrutura do cidadão… depois, nunca mais é o mesmo.
— Meu avô nunca fez esse exame… viveu até os 70 e poucos anos e somente morreu por causa de um problema urinário.
— Se você for, eu vou com você… mas você vai primeiro, só para eu ver como é.
E assim, entre uma desculpa e outra, os homens vão empurrando o assunto com a barriga…Mas, no fundo, todo homem tem uma esperança secreta: que viesse a tal da carreta azul, resolvesse tudo de uma vez e depois, no bar, dissesse a todos que “foi no mutirão”.
Enfim, chegou novembro…
Esperávamos um mutirão festivo, com tenda, música, zumba, café e bolo.
Não veio nada. Nem um panfletinho sobre o tema.
Esperávamos prédios iluminados de azul…
Questionado, o prefeito foi direto:
—Todos os prédios da prefeitura já não são pintados de azul?
Esperávamos ser tratados como heróis.
Fomos tratados como medrosos:
— Já devia ter feito isso desde os 40 anos.
Esperávamos o acolhimento.
Recebemos pressão:
— Vai logo e para de frescura.
Esperávamos incentivo.
Recebemos chacota:
— Levou bombons e flores para o médico?
Esperávamos que o médico reconhecesse nossa coragem.
Ele disse apenas:
— Relaxa… (O que, convenhamos, só piora a situação.)
Esperávamos que nossas mulheres fossem compreensivas…
Mas ouvimos:
— Para de frescura, eu faço exames ginecológicos todo ano. Você tá com medo de quê?
Esperávamos a carreta azul, mas ela não veio.
Mas, entre o orgulho e o preconceito…
entre a piada e o constrangimento…
fica uma verdade que ninguém gosta de admitir:
A triste realidade é que o homem prefere fazer graça a fazer exame.
E enquanto a gente ri…
a estatística trabalha.
No fim das contas, o Novembro Azul em Itatiba passou…
Sem carreta, sem eventos, sem mutirões…
Mas deixou um lembrete importante:
Se não vier campanha,
se não vier carreta,
se não vier ninguém chamar…
Vai você!
Mesmo constrangido e com vergonha.
Mesmo reclamando.
Mesmo com medo.
Mesmo aguentando piada depois.
Porque, no final, meu amigo…
é melhor perder o preconceito
do que perder a vida.
Fabio Chrispim Marin
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