domingo, 3 de maio de 2026

CATARINA FALECEU. E NINGUÉM EXPLICOU

 





Catarina faleceu.

Uma morte fria. Literalmente gelada.

A família ficou consternada. Abalada, Em choque — ou pelo menos o suficiente para gerar conteúdo. Mas quem realmente entendeu o potencial daquele momento foi a prima influencer, especialista em transformar qualquer emoção em métricas.

Sem perder tempo — porque timing é tudo — soltou o post padrão:

📸 Fundo preto
🎗️ Laço discreto
🖤 A palavra: LUTO

Só isso.

Sem nome completo. Sem contexto. Sem causa da morte. Sem localização do velório. Sem link na bio. Sem CTA. Nada. Um minimalismo estratégico. Um silêncio altamente performático. E foi aí que começou o espetáculo.

Uma sequência interminável de comentários que faria qualquer social media pedir aumento:

— Nossa! O que aconteceu?
— Quem morreu???
— Qual a funerária???
— Vai ser um velório aberto ou só pra família?
— Enterro ou cremação?
— Me chama no direct!
— Pelo amor de Deus, alguém explica!!!
— Já tem horário???
— Gente, eu PRECISO saber!!! 😭

E, claro, os clássicos:

🙏 Meus sentimentos
🙏 Sentimentos à família
🙏 Que Deus conforte
🙏 Que esteja em um lugar melhor

Sem saber quem faleceu, Mas comentando com autoridade.

Enquanto isso, o algoritmo sorria.

Curtidas subindo.
Comentários explodindo.
Engajamento orgânico.
Alcance entregue.
Story já preparado.
Reels a caminho.

Mas nada de informação.

Nada sobre quem morreu.
Nada sobre o defunto.
Nada sobre o velório.

A essa altura, entraram os comentaristas teológicos profissionais, Versículos sendo distribuídos com precisão bíblica, sem sequer saber quem era o defunto.:

📖 “Eu sou a ressurreição e a vida…”
📖 “Ele enxugará toda lágrima…”
📖 “Ainda que ande pelo vale da sombra da morte…”
📖 “Na casa de meu Pai há muitas moradas…”

A dor e o luto ficaram coletivos. A cidade toda consternada, e a informação, inexistente.

E o post seguia firme, estático…
Sem edição.
Sem atualização.
Sem nenhum esclarecimento.

Interpelada pelos familiares, a prima influencer foi categórica: não revelem nada ainda, o mistério gera retenção!

O povo , os amigos, conhecidos, curiosos profissionais e fofoqueiros de plantão e desafetos, já estavam emocionalmente envolvidos. A essa altura, os desesperados e agoniados seguidores, somente queriam um desfecho.Afinal quem morreu!

No dia seguinte, com números que fariam qualquer curso de marketing digital pedir licença para virar case: 

👍 3.500 curtidas
🔁 600 compartilhamentos
💬 3.250 comentários

Veio, enfim, a revelação em um post emocionado.

A família enlutada agradece as mensagens e o apoio neste momento tão difícil com a partida da querida Catarina.

Catarina era a fiel companheira noturna da tia Coloca: Diariamente, conversavam  sobre tudo — ou melhor, tia Colaca falava, respondia e interpretava Catarina com absoluta convicção, sustentando uma relação profunda, intensa e rigorosamente unilateral. Catarina, por sua vez, mantinha seu estilo reservado: observava em silêncio e, vez ou outra, ensaiava um discreto flerte.

Após quatro dias sem aparecer, tia Colaca entrou em desespero e mobilizou a família. Buscas foram realizadas, em um verdadeiro mutirão emocional, até que Catarina foi encontrada atrás do sofá, já em estado avançado de desidratação existencial.

Para evitar um colapso psicológico da tia Colaca, providenciamos imediatamente uma substituição estratégica. Hoje, ela já está feliz. Conversa diariamente com Cláudia — a nova lagartixa — , relembrando, com saudade, as aventuras e peripécias da saudosa Catarina.

Em tempo: Catarina foi jogada no vaso sanitário, com as devidas honras.






quarta-feira, 22 de abril de 2026

A CARRETA AZUL NÃO VEIO…

 


O Novembro Azul do ano passado foi o mais frustrante da história dos homens itatibenses.

Estávamos cheios de expectativas. 

Durante todo o mês anterior, devido à intensa campanha do Outubro Rosa, nos bares e nas rodas de café, o assunto era um só:

 Mês que vem é Novembro Azul, né?
Será que a carreta vem este ano?
Vai ter mutirão ou será  cada um por si?
E o exame… vai ser o PSA ou… aquele método com o dedo?

 — Se a carreta vier ... .é no dedo mesmo….

Sempre tem  alguém mais experiente à mesa que baixava o tom e falava:

  — É rapidinho…nem dói…e  você nem vai perceber…

 —  Ora… se não vai perceber, por que todo mundo comenta depois?

Tem aqueles que tem a desculpa na ponta da língua para não fazer o exame.

Eu não preciso fazer o exame do toque… tenho um primo que tem o mesmo DNA e faz todo ano……Eu só espero sair o resultado dele.

— Meu plano de saúde é ótimo… o problema é que eu nunca tenho “tempo” para marcar consulta.

— Eu não tenho plano e vou ao postinho de saúde. O médico pede todo ano  um monte de exames, inclusive o PSA, mas, como ele não encaminha para o urologista fazer o exame de toque, eu fico bem quietinho…Eu que não vou contestar o doutor! 

— Vou esperar sair um exame novo… tipo aplicativo, que você faz pelo celular, sem ninguém enfie o dedo onde não deve.

— Ô… eu não vou não. Esse negócio aí mexe com a estrutura do cidadão… depois, nunca mais é o mesmo.

— Meu avô nunca fez esse exame… viveu até os 70 e poucos anos e somente morreu por causa de  um problema urinário.

— Se você for, eu vou com você… mas você vai primeiro, só para eu ver como é.

E assim, entre uma desculpa e outra, os homens vão empurrando o assunto com a barriga…Mas, no fundo, todo homem tem uma esperança secreta: que viesse a tal da carreta azul, resolvesse tudo de uma vez e depois, no bar, dissesse a todos que “foi no mutirão”.

Enfim, chegou novembro…

Esperávamos um mutirão festivo, com tenda, música, zumba, café e bolo.

Não veio nada. Nem um panfletinho sobre o tema.

Esperávamos prédios iluminados de azul…
Questionado, o prefeito foi direto:
—Todos os prédios da  prefeitura já não são pintados de  azul?

Esperávamos ser tratados como heróis.
Fomos tratados como medrosos:
Já devia ter feito isso desde os 40 anos.

Esperávamos o acolhimento.
Recebemos pressão:
Vai logo e para de frescura.

Esperávamos incentivo.
Recebemos chacota:
— Levou bombons e flores para o médico?

Esperávamos que o médico reconhecesse nossa coragem.
Ele disse apenas:
Relaxa… (O que, convenhamos, só piora a situação.)

Esperávamos que nossas mulheres fossem compreensivas…
Mas ouvimos:
Para de frescura, eu faço exames ginecológicos todo ano. Você tá com medo de quê?

Esperávamos a carreta azul, mas ela não veio.

Mas, entre o orgulho e o preconceito…
entre a piada e o constrangimento…
fica uma verdade que ninguém gosta de admitir:

A triste realidade é que o homem prefere fazer graça a fazer exame.

E enquanto a gente ri…
a estatística trabalha.

No fim das contas, o Novembro Azul em Itatiba passou…
Sem carreta, sem eventos, sem mutirões…

Mas deixou um lembrete importante:

Se não vier campanha,
se não vier carreta,
se não vier ninguém chamar…

Vai você!

Mesmo constrangido e com vergonha.

Mesmo reclamando.
Mesmo com medo.
Mesmo aguentando piada depois.

Porque, no final, meu amigo…
é melhor perder o preconceito
do que perder a vida.


Fabio Chrispim Marin


sábado, 18 de abril de 2026

E DAQUI, A GENTE SEGUE ATRAPALHANDO O TRÂNSITO

 



Na década de 1980, “eu ouvi falar qualquer coisa” que o então prefeito Roberto Lanhoso, adorava quando havia congestionamento nas entradas e saídas da cidade. Dizia que o progresso  havia chegado a Itatiba. Tanto é que não alterou a mão dupla da Avenida 29 de Abril nem da Rua Luiz Scavone. Logo depois, veio Maurício Camargo, com menos poesia e mais pragmatismo, e transformou as duas vias em mão única. O trânsito flui maravilhosamente até hoje.

Em Itatiba, dirigir pelo centro é um exercício de paciência, resignação e, em alguns casos, fé. As quadras são curtas, herança comum das cidades do interior, pensadas para uma época em que o maior fluxo era de carroças — e, convenhamos, com muito mais civilidade no trânsito. 

Hoje, a realidade é outra. A frota cresce diariamente; o espaço, não. E aqui cabe um raro momento de concordância com o poder público: não há muito o que fazer. Alargar ruas no centro  não é opção. Reescrever o passado urbano também não. Ponto. 

Atualmente, às margens do ribeirão Jacaré, a Prefeitura executa uma intervenção relevante. Trata-se de uma obra que, no futuro, pode, sim, contribuir para aliviar o trânsito naquela região. Até aqui, tudo certo. Planejamento, execução e perspectiva de melhoria: três palavras que raramente andam juntas, mas que, neste caso, até ensaiam uma convivência. 

Ensaiam, pois  problema não está na obra, e sim: está no caminho até ela. Ou melhor: na completa ausência de caminhos claros para quem tenta passar por ali.

Motoristas, especialmente aqueles que não são de Itatiba, entram em um verdadeiro jogo de caça ao tesouro, sem mapa e com pistas falsas. Há placas que indicam acesso a rodovias que, na prática, levam diretamente a uma ponte sobre o Jacaré… que ainda não existe, pois está em construção. Um conceito ousado de mobilidade: você chega, mas não passa.

Faltam rotas alternativas, avisos antecipados e indicações nos cruzamentos. Falta, sobretudo, o básico: alguém pensar como motorista antes de agir como gestor. Enfim, falta boa vontade e empatia.

O que se vê hoje não é apenas desorganização. É algo mais sofisticado: uma combinação de descuido com uma certa arrogância institucional: aqui, quem manda somos nós!

Esquecem os gestores  que nossa cidade não é um clube fechado. 

Ela recebe visitantes, prestadores de serviço, entregadores, turistas e pessoas que simplesmente não nasceram com um GPS emocional instalado. — pessoas que não deveriam ser submetidas a um rally urbano improvisado repleto de obstáculos, desvios invisíveis e finais inesperados.

Gestão de trânsito exige exige empatia para entender que, do outro lado do volante, está um cidadão tentando chegar ao seu destino e, na maioria das vezes, com horários para cumprir. Empatia para perceber que uma placa mal colocada não é um detalhe técnico, mas uma decisão que pode impactar diretamente o dia de alguém.

Quando a Prefeitura não sinaliza, ela comunica,  literalmente, que a cidade é desorganizada e sem direção.

Olhando para o cenário atual, fica claro que Itatiba continua fiel aos conceitos de Lanhoso.  Se antes o congestionamento era tratado como sinal de progresso…hoje Itatiba mostra que evoluiu. Não é mais trânsito que para a cidade…

É a própria gestão municipal que insiste em não evoluir.

É a modernização do caos.

sábado, 4 de abril de 2026

OPORTUNISMO ARREGAÇADO

 



    Em um recente evento musical, a ausência do prefeito foi sentida — e com eco, diga-se. Na plateia, apenas um único vereador, e da oposição. A explicação para o sumiço da base governista era simples: sem prefeito, não havia motivo para prestigiar nem que fosse o mais pujante dos eventos. Segundo fontes do Palácio, o prefeito estaria “refletindo sobre a agenda institucional”. Nos bastidores, porém, a verdade era outra: ele queria apenas sossego dos pegajosos vereadores.

Segundo um assessor que não quis se identificar, ele teria ouvido falar qualquer coisa,  que a gota d’água veio no carnaval. O prefeito tentou seguir o trio elétrico, mas mal conseguia andar: vereadores da base formaram uma escolta tão devota, quase uma procissão. Por onde o prefeito pisava, brotava vereador. Iam atrás, passo a passo, suando, ofegantes, deixando as esposas e filhos em casa.

— Eu e minha mulher tivemos uma discussão brava, e ela até pediu o divórcio — confessou um vereador — Mas valeu. Consegui ficar o tempo todo atrás do prefeito, mesmo contrariando as ordens domésticas.

No aconchego do lar, o prefeito desabafou à primeira-dama: “eles não me deixam em paz, querem saber onde vou, porque vou, com quem eu vou, e a  pergunta mais oportunista: quem vai com a gente e que horas a gente sai! Basta eu sair do gabinete eles brotam de todos lugares e, todos eles, pedem para fazer uma live sobre uma demanda urgentíssima da população que tanto precisa. Já pedi um milhão de vezes para me darem um pouco de sossego, mas não me ouvem, eles me  sufocam!”

Ainda em tom de desabafo, já testando os limites da paciência da esposa, que observava em silêncio confessional, continuou:

“Na Quinta-feira Santa, fui na feira buscar as sardinhas… ou a pescada branca que você pediu… e não tive um minuto de sossego! Era um tal de ‘Escolhe essa, prefeito! Olha a beleza dessa sardinha!’… ‘Se fizer um escabeche, fica uma maravilha!’… ‘A primeira-dama gosta de peixe? E as crianças?...Pediam uma selfie comigo escolhendo peixe… e, pasmem, me convidaram pra comer pastel enquanto a gente resolvia umas demandas pendentes…E não era para me preocupar com a conta, seus assessores pagariam o pastel com o vale alimentação”

Foi em um desses momentos de desabafo que o secretário de Saúde sugeriu uma ideia salvadora, drástica, pedagógica, sanitária e radical. Tratava-se de uma medida para testar a fidelidade e saber até que ponto os vereadores da base eram oportunistas. O prefeito escutou com atenção, mas ficou relutante. Pediu um tempo para pensar e consultar a primeira-dama (ela é que daria a palavra final, pois era um assunto de extremo interesse para ela). Com o aval recebido, convocou uma coletiva solene:

Como incentivo ao  Programa Municipal de Conscientização Prepucial,  serei o primeiro cidadão a me submeter voluntariamente à cirurgia de fimose. Pela saúde. Pela ciência. Pelo fim dos prepúcios!

A cidade parou.
A imprensa chapa branca ovacionou: “Uma Pequena Intervenção, Um Grande Movimento”

A imprensa marrom fez duras críticas ao oportunismo político: A base governista transforma a fimose em palanque

O Pasquim da cidade estampou em sua primeira página:“O Dia em que a Política local Arregaçou”

A Sociedade da Harmonia entre a Glande e o Prepúcio ficou indignada e emitiu um comunicado, no qual considerou a campanha preconceituosa.
Os urologistas sorriram.
A oposição desconfiou.
E os vereadores da base… hesitaram. Por três minutos. E aderiram 100%

No dia seguinte, abriu-se o cadastro do Programa Municipal de Conscientização Prepucial — “Gestão Sem Atritos". 

Formaram-se as primeiras filas, ocupadas pelos vereadores da base, seus auxiliares (ou os relutantes maridos das assessoras) e comissionados com cargos na prefeitura que aderiram “voluntariamente”.  Ao redor, a equipe deles operava em modo tiktoker premium: teste de luz, ajuste de enquadramento e emoção milimetricamente ensaiada. Registravam cada passo, cada suspiro e cada olhar profundo com precisão coreografada. Os vereadores, por sua vez, todos visivelmente comovidos e segurando apreensivo suas genitálias por cima da calça, alternavam entre semblantes graves, tensos e expressões de comoção.

 Tudo pronto. Gargantas aquecidas. Peitos estufados. Era a deixa solene para o início dos discursos memoráveis e compartilháveis. Depois de editados, foram postados nas redes sociais para cumprir sua verdadeira função: performar.

 — Sempre defendi a operação da fimose.

— Medida de homens corajosos, como o nosso prefeito
  — Estamos juntos, prefeito… até o fim dos prepúcios!

— Se o prefeito vai… nós vamos também. Unidos pelo mesmo propósito!

— Estamos alinhados, unidos e determinados — até o último os últimos cortes!

— Essa é uma decisão histórica. Nunca se cortou tanto pelo bem comum!

— Coragem é fazer o que precisa ser feito… mesmo quando dói.

O hospital conveniado viveu um dilema: não haviam leitos para tantos políticos com a mesma aflição. E o pior — todos exigiram dividir o quarto com o prefeito.

E, pela primeira vez na história do município, Executivo e Legislativo marcharam unidos — rumo ao centro cirúrgico. Induzidos somente e unicamente pelo oportunismo político. 

Moral da história: em política, quando se está atrás do poder, até a cicatriz prepucial se torna palanque político.

N.A: Esta é uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com cargos, eventos ou com políticos recém operados de fimose, será uma puta coincidência 

segunda-feira, 30 de março de 2026

MULTA E DOAÇÃO: A GENEALIDADE DA CÂMARA DE ITATIBA

 



O Legislativo itatibense possui um talento raro: transformar problemas complexos em soluções simples. A mais recente demonstração dessa criatividade é o PL 222/2025, de autoria do vereador Fernando Soares (PSD), que propõe converter multas leves de trânsito em doações de sangue ou no cadastro de medula óssea.

Segundo a proposta, o cidadão pode errar no trânsito, mas não lhe causará  problema algum: ele doa sangue, limpa a ficha e ainda fica com a consciência tranquila. É uma espécie de “pix solidário da infração”. Faltou apenas criar, junto ao projeto, um programa de pontos: a cada três multas quitadas com doação, ganha-se um diploma de Gratidão Humanitária…

O problema, inclusive pontuado pela Comissão de Justiça e Redação da Câmara, é que a multa de trânsito é uma penalidade prevista no Código de Trânsito Brasileiro, com função clara: educar e punir para evitar repetição. Não cabe à Câmara Municipal reinventar a sanção ao propor que o motorista imprudente não pague a multa, mas  “se redima” com coleta de sangue.

O ápice da incoerência do projeto encontra-se na área da saúde.

A doação de sangue sempre foi um ato voluntário, solidário, consciente e de amor ao próximo. Agora, com a devida criatividade legislativa, ganha uma nova utilidade pela proposta do vereador: tornar-se  uma moeda de troca para infrações de trânsito.  É a evolução do altruísmo e empatia para a compensação financeira.

Existe, porém, um detalhe importante, incômodo e agravante que o vereador não previu: o processo depende da sinceridade do doador, que precisa responder corretamente a todos os questionamentos na triagem. Contudo, quando há  uma multa em jogo, surge um dilema ético bastante prático: dizer a verdade ou economizar? O resultado provável é fácil de prever: mais bolsas de sangue descartadas, maior risco sanitário e mais pressão sobre um sistema que já opera no limite.

Agora, o capítulo especial: medula óssea. Aqui,  a proposta atinge um nível quase poético de desconexão com a realidade.

Não existe “doar medula” como quem paga um boleto. Existe, sim, é um processo rigoroso: cadastro, idade entre 18 e 35 anos, boas condições de saúde, ida ao hemocentro e coleta de sangue para entrar em um banco de dados. A partir daí, o cidadão torna-se apenas um nome na lista.

E só.

Na prática, não se doa medula: faz-se um cadastro, mas não há garantia de doação, a qual pode nunca ocorrer. Mesmo que um dia haja compatibilidade, ainda será necessário passar por novos exames, avaliação médica e, principalmente, contar com a disponibilidade e o consentimento do possível doador, que pode simplesmente recusar.  Some-se a isso outro detalhe inconveniente: nem todos podem participar desse programa, pois existem restrições médicas, etárias e físicas. No fim, a multa acaba sendo quitada com um “talvez".

Misturar trânsito com saúde para produzir soluções de efeito rápido é típico de uma política que busca aplausos,  não resultados. O PL 222/2025 representa a ideia perfeita para o feed das redes sociais, porém é completamente inadequado à realidade. No mundo real, problemas complexos não se resolvem com criatividade isolada, mas com planejamento, dados, estudos, pesquisas, gestão e muita responsabilidade.

Fica, então, a dúvida sobre a proposta do nobre vereador: se a intenção é realmente salvar vidas, talvez fosse mais eficaz começar pela base — investir na conscientização dos jovens, abrir espaço nas escolas, por meio da Secretaria de Educação, para incentivar futuros doadores de sangue e medula óssea. É ali, com os jovens, que se constroem valores; é onde nascem o altruísmo e a empatia que sustentam a verdadeira cultura da doação.

No fim, fica a impressão de que é mais fácil fazer política com os algoritmos das redes sociais do que formar cidadãos.

Em tempo: a Comissão de Justiça e Redação deu parecer CONTRÁRIO ao Projeto de Lei nº 222/2025, com um voto favorável em separado, deixando a decisão final a critério do Douto e Soberano Plenário. 

Então, esperamos que o Douto e Soberano Plenário seja, ao menos desta vez, mais comprometido com a realidade e que consiga superar o velho instinto de corporativismo, que frequentemente fala mais alto que o interesse público.

Fabio Chrispim Marin

Fui doador de sangue por mais de 30 anos, desde a época da DOVOSAN - Doadores Voluntários de Sangue, entidade fundada por José Lázaro Chrispim - Tiché, na década de 1970.