sábado, 18 de abril de 2026

E DAQUI, A GENTE SEGUE ATRAPALHANDO O TRÂNSITO

 



Na década de 1980, “eu ouvi falar qualquer coisa” que o então prefeito Roberto Lanhoso, adorava quando havia congestionamento nas entradas e saídas da cidade. Dizia que o progresso  havia chegado a Itatiba. Tanto é que não alterou a mão dupla da Avenida 29 de Abril nem da Rua Luiz Scavone. Logo depois, veio Maurício Camargo, com menos poesia e mais pragmatismo, e transformou as duas vias em mão única. O trânsito flui maravilhosamente até hoje.

Em Itatiba, dirigir pelo centro é um exercício de paciência, resignação e, em alguns casos, fé. As quadras são curtas, herança comum das cidades do interior, pensadas para uma época em que o maior fluxo era de carroças — e, convenhamos, com muito mais civilidade no trânsito. 

Hoje, a realidade é outra. A frota cresce diariamente; o espaço, não. E aqui cabe um raro momento de concordância com o poder público: não há muito o que fazer. Alargar ruas no centro  não é opção. Reescrever o passado urbano também não. Ponto. 

Atualmente, às margens do ribeirão Jacaré, a Prefeitura executa uma intervenção relevante. Trata-se de uma obra que, no futuro, pode, sim, contribuir para aliviar o trânsito naquela região. Até aqui, tudo certo. Planejamento, execução e perspectiva de melhoria: três palavras que raramente andam juntas, mas que, neste caso, até ensaiam uma convivência. 

Ensaiam, pois  problema não está na obra, e sim: está no caminho até ela. Ou melhor: na completa ausência de caminhos claros para quem tenta passar por ali.

Motoristas, especialmente aqueles que não são de Itatiba, entram em um verdadeiro jogo de caça ao tesouro, sem mapa e com pistas falsas. Há placas que indicam acesso a rodovias que, na prática, levam diretamente a uma ponte sobre o Jacaré… que ainda não existe, pois está em construção. Um conceito ousado de mobilidade: você chega, mas não passa.

Faltam rotas alternativas, avisos antecipados e indicações nos cruzamentos. Falta, sobretudo, o básico: alguém pensar como motorista antes de agir como gestor. Enfim, falta boa vontade e empatia.

O que se vê hoje não é apenas desorganização. É algo mais sofisticado: uma combinação de descuido com uma certa arrogância institucional: aqui, quem manda somos nós!

Esquecem os gestores  que nossa cidade não é um clube fechado. 

Ela recebe visitantes, prestadores de serviço, entregadores, turistas e pessoas que simplesmente não nasceram com um GPS emocional instalado. — pessoas que não deveriam ser submetidas a um rally urbano improvisado repleto de obstáculos, desvios invisíveis e finais inesperados.

Gestão de trânsito exige exige empatia para entender que, do outro lado do volante, está um cidadão tentando chegar ao seu destino e, na maioria das vezes, com horários para cumprir. Empatia para perceber que uma placa mal colocada não é um detalhe técnico, mas uma decisão que pode impactar diretamente o dia de alguém.

Quando a Prefeitura não sinaliza, ela comunica,  literalmente, que a cidade é desorganizada e sem direção.

Olhando para o cenário atual, fica claro que Itatiba continua fiel aos conceitos de Lanhoso.  Se antes o congestionamento era tratado como sinal de progresso…hoje Itatiba mostra que evoluiu. Não é mais trânsito que para a cidade…

É a própria gestão municipal que insiste em não evoluir.

É a modernização do caos.

sábado, 4 de abril de 2026

OPORTUNISMO ARREGAÇADO

 



    Em um recente evento musical, a ausência do prefeito foi sentida — e com eco, diga-se. Na plateia, apenas um único vereador, e da oposição. A explicação para o sumiço da base governista era simples: sem prefeito, não havia motivo para prestigiar nem que fosse o mais pujante dos eventos. Segundo fontes do Palácio, o prefeito estaria “refletindo sobre a agenda institucional”. Nos bastidores, porém, a verdade era outra: ele queria apenas sossego dos pegajosos vereadores.

Segundo um assessor que não quis se identificar, ele teria ouvido falar qualquer coisa,  que a gota d’água veio no carnaval. O prefeito tentou seguir o trio elétrico, mas mal conseguia andar: vereadores da base formaram uma escolta tão devota, quase uma procissão. Por onde o prefeito pisava, brotava vereador. Iam atrás, passo a passo, suando, ofegantes, deixando as esposas e filhos em casa.

— Eu e minha mulher tivemos uma discussão brava, e ela até pediu o divórcio — confessou um vereador — Mas valeu. Consegui ficar o tempo todo atrás do prefeito, mesmo contrariando as ordens domésticas.

No aconchego do lar, o prefeito desabafou à primeira-dama: “eles não me deixam em paz, querem saber onde vou, porque vou, com quem eu vou, e a  pergunta mais oportunista: quem vai com a gente e que horas a gente sai! Basta eu sair do gabinete eles brotam de todos lugares e, todos eles, pedem para fazer uma live sobre uma demanda urgentíssima da população que tanto precisa. Já pedi um milhão de vezes para me darem um pouco de sossego, mas não me ouvem, eles me  sufocam!”

Ainda em tom de desabafo, já testando os limites da paciência da esposa, que observava em silêncio confessional, continuou:

“Na Quinta-feira Santa, fui na feira buscar as sardinhas… ou a pescada branca que você pediu… e não tive um minuto de sossego! Era um tal de ‘Escolhe essa, prefeito! Olha a beleza dessa sardinha!’… ‘Se fizer um escabeche, fica uma maravilha!’… ‘A primeira-dama gosta de peixe? E as crianças?...Pediam uma selfie comigo escolhendo peixe… e, pasmem, me convidaram pra comer pastel enquanto a gente resolvia umas demandas pendentes…E não era para me preocupar com a conta, seus assessores pagariam o pastel com o vale alimentação”

Foi em um desses momentos de desabafo que o secretário de Saúde sugeriu uma ideia salvadora, drástica, pedagógica, sanitária e radical. Tratava-se de uma medida para testar a fidelidade e saber até que ponto os vereadores da base eram oportunistas. O prefeito escutou com atenção, mas ficou relutante. Pediu um tempo para pensar e consultar a primeira-dama (ela é que daria a palavra final, pois era um assunto de extremo interesse para ela). Com o aval recebido, convocou uma coletiva solene:

Como incentivo ao  Programa Municipal de Conscientização Prepucial,  serei o primeiro cidadão a me submeter voluntariamente à cirurgia de fimose. Pela saúde. Pela ciência. Pelo fim dos prepúcios!

A cidade parou.
A imprensa chapa branca ovacionou: “Uma Pequena Intervenção, Um Grande Movimento”

A imprensa marrom fez duras críticas ao oportunismo político: A base governista transforma a fimose em palanque

O Pasquim da cidade estampou em sua primeira página:“O Dia em que a Política local Arregaçou”

A Sociedade da Harmonia entre a Glande e o Prepúcio ficou indignada e emitiu um comunicado, no qual considerou a campanha preconceituosa.
Os urologistas sorriram.
A oposição desconfiou.
E os vereadores da base… hesitaram. Por três minutos. E aderiram 100%

No dia seguinte, abriu-se o cadastro do Programa Municipal de Conscientização Prepucial — “Gestão Sem Atritos". 

Formaram-se as primeiras filas, ocupadas pelos vereadores da base, seus auxiliares (ou os relutantes maridos das assessoras) e comissionados com cargos na prefeitura que aderiram “voluntariamente”.  Ao redor, a equipe deles operava em modo tiktoker premium: teste de luz, ajuste de enquadramento e emoção milimetricamente ensaiada. Registravam cada passo, cada suspiro e cada olhar profundo com precisão coreografada. Os vereadores, por sua vez, todos visivelmente comovidos e segurando apreensivo suas genitálias por cima da calça, alternavam entre semblantes graves, tensos e expressões de comoção.

 Tudo pronto. Gargantas aquecidas. Peitos estufados. Era a deixa solene para o início dos discursos memoráveis e compartilháveis. Depois de editados, foram postados nas redes sociais para cumprir sua verdadeira função: performar.

 — Sempre defendi a operação da fimose.

— Medida de homens corajosos, como o nosso prefeito
  — Estamos juntos, prefeito… até o fim dos prepúcios!

— Se o prefeito vai… nós vamos também. Unidos pelo mesmo propósito!

— Estamos alinhados, unidos e determinados — até o último os últimos cortes!

— Essa é uma decisão histórica. Nunca se cortou tanto pelo bem comum!

— Coragem é fazer o que precisa ser feito… mesmo quando dói.

O hospital conveniado viveu um dilema: não haviam leitos para tantos políticos com a mesma aflição. E o pior — todos exigiram dividir o quarto com o prefeito.

E, pela primeira vez na história do município, Executivo e Legislativo marcharam unidos — rumo ao centro cirúrgico. Induzidos somente e unicamente pelo oportunismo político. 

Moral da história: em política, quando se está atrás do poder, até a cicatriz prepucial se torna palanque político.

N.A: Esta é uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com cargos, eventos ou com políticos recém operados de fimose, será uma puta coincidência 

segunda-feira, 30 de março de 2026

MULTA E DOAÇÃO: A GENEALIDADE DA CÂMARA DE ITATIBA

 



O Legislativo itatibense possui um talento raro: transformar problemas complexos em soluções simples. A mais recente demonstração dessa criatividade é o PL 222/2025, de autoria do vereador Fernando Soares (PSD), que propõe converter multas leves de trânsito em doações de sangue ou no cadastro de medula óssea.

Segundo a proposta, o cidadão pode errar no trânsito, mas não lhe causará  problema algum: ele doa sangue, limpa a ficha e ainda fica com a consciência tranquila. É uma espécie de “pix solidário da infração”. Faltou apenas criar, junto ao projeto, um programa de pontos: a cada três multas quitadas com doação, ganha-se um diploma de Gratidão Humanitária…

O problema, inclusive pontuado pela Comissão de Justiça e Redação da Câmara, é que a multa de trânsito é uma penalidade prevista no Código de Trânsito Brasileiro, com função clara: educar e punir para evitar repetição. Não cabe à Câmara Municipal reinventar a sanção ao propor que o motorista imprudente não pague a multa, mas  “se redima” com coleta de sangue.

O ápice da incoerência do projeto encontra-se na área da saúde.

A doação de sangue sempre foi um ato voluntário, solidário, consciente e de amor ao próximo. Agora, com a devida criatividade legislativa, ganha uma nova utilidade pela proposta do vereador: tornar-se  uma moeda de troca para infrações de trânsito.  É a evolução do altruísmo e empatia para a compensação financeira.

Existe, porém, um detalhe importante, incômodo e agravante que o vereador não previu: o processo depende da sinceridade do doador, que precisa responder corretamente a todos os questionamentos na triagem. Contudo, quando há  uma multa em jogo, surge um dilema ético bastante prático: dizer a verdade ou economizar? O resultado provável é fácil de prever: mais bolsas de sangue descartadas, maior risco sanitário e mais pressão sobre um sistema que já opera no limite.

Agora, o capítulo especial: medula óssea. Aqui,  a proposta atinge um nível quase poético de desconexão com a realidade.

Não existe “doar medula” como quem paga um boleto. Existe, sim, é um processo rigoroso: cadastro, idade entre 18 e 35 anos, boas condições de saúde, ida ao hemocentro e coleta de sangue para entrar em um banco de dados. A partir daí, o cidadão torna-se apenas um nome na lista.

E só.

Na prática, não se doa medula: faz-se um cadastro, mas não há garantia de doação, a qual pode nunca ocorrer. Mesmo que um dia haja compatibilidade, ainda será necessário passar por novos exames, avaliação médica e, principalmente, contar com a disponibilidade e o consentimento do possível doador, que pode simplesmente recusar.  Some-se a isso outro detalhe inconveniente: nem todos podem participar desse programa, pois existem restrições médicas, etárias e físicas. No fim, a multa acaba sendo quitada com um “talvez".

Misturar trânsito com saúde para produzir soluções de efeito rápido é típico de uma política que busca aplausos,  não resultados. O PL 222/2025 representa a ideia perfeita para o feed das redes sociais, porém é completamente inadequado à realidade. No mundo real, problemas complexos não se resolvem com criatividade isolada, mas com planejamento, dados, estudos, pesquisas, gestão e muita responsabilidade.

Fica, então, a dúvida sobre a proposta do nobre vereador: se a intenção é realmente salvar vidas, talvez fosse mais eficaz começar pela base — investir na conscientização dos jovens, abrir espaço nas escolas, por meio da Secretaria de Educação, para incentivar futuros doadores de sangue e medula óssea. É ali, com os jovens, que se constroem valores; é onde nascem o altruísmo e a empatia que sustentam a verdadeira cultura da doação.

No fim, fica a impressão de que é mais fácil fazer política com os algoritmos das redes sociais do que formar cidadãos.

Em tempo: a Comissão de Justiça e Redação deu parecer CONTRÁRIO ao Projeto de Lei nº 222/2025, com um voto favorável em separado, deixando a decisão final a critério do Douto e Soberano Plenário. 

Então, esperamos que o Douto e Soberano Plenário seja, ao menos desta vez, mais comprometido com a realidade e que consiga superar o velho instinto de corporativismo, que frequentemente fala mais alto que o interesse público.

Fabio Chrispim Marin

Fui doador de sangue por mais de 30 anos, desde a época da DOVOSAN - Doadores Voluntários de Sangue, entidade fundada por José Lázaro Chrispim - Tiché, na década de 1970.



segunda-feira, 2 de março de 2026

JÁ OUVI FALAR QUALQUER COISA






Já ouvi falar qualquer coisa é uma coletânea de crônicas que mistura fatos, lendas, anedotários, fofocas, política, velórios e causos populares

Sem cronologia e sem pudor, os textos se baseiam em relatos orais, notícias de jornais antigos e, claro, na imaginação fértil do autor.

São histórias que podem — ou não — ter acontecido. E se alguma delas lhe soar familiar, não estranhe: talvez você, “já tenha ouvido falar qualquer coisa.”

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O OPORTUNISMO POLÍTICO QUE SE ALIMENTA DA DOR


 

Ninguém chega a um hospital público feliz. Quem passa por aquela porta está ali porque sente dor, medo, tristeza, fragilidade ou angústia. Com mais de 30 anos de trabalho em farmácia, costumo dizer que ninguém entrava na Drogaria Zezinho sorrindo e animado para tomar uma injeção de Benzetacil. Chegavam tensos, frágeis, receosos e temerosos da dor que viria. Nas UPAs e hospitais públicos, o sentimento que antecede o atendimento é esse. O ambiente hospitalar é marcado pela vulnerabilidade, pela dor, medo e ansiedade.  Longe das câmeras e sem roteiro, profissionais atuam com empatia, enfrentam limitações, lidam com urgências e tomam decisões difíceis. Trata-se de uma realidade dura, complexa e que exige respeito.

É nesse cenário que surgem os chamados vereadores tiktokers. Investem no papel de juízes morais, emitem pré-julgamentos, constroem narrativas frágeis e exploram o sofrimento alheio em troca de curtidas e engajamento. Transformam ambientes sensíveis em palcos digitais. O resultado é previsível e grave: espalham insegurança, alimentam a desconfiança da população, enfraquecem instituições públicas e não contribuem em nada para melhorar o serviço. 

O papel do vereador é fiscalizar o Executivo com responsabilidade — acompanhar contratos, cobrar investimentos, avaliar políticas públicas — e não invadir, constranger ou induzir falas para produzir conteúdo emocional. Quando ultrapassam esse limite, o que se apresenta como defesa do cidadão revela-se encenação e oportunismo político, cujo ápice está em declarações imprudentes e perigosas, como afirmar que “as pessoas estão com medo de ir ao hospital ou à UPA”.

Chama atenção, sobretudo, o que não aparece em seus mandatos. Esses vereadores não são vistos com o celular na mão, entrando no gabinete do prefeito para cobrar investimentos estruturais na saúde; nem os vemos pressionando por soluções concretas à demora no agendamento de consultas com especialistas, para acabar com as filas intermináveis de exames e cirurgias ou exigindo o fim da redução do horário de atendimento nas unidades avançadas. Também não há vídeos deles em audiências públicas exigindo a implantação de um centro de saúde especializado para os idosos — uma necessidade real e crescente devido ao acelerado envelhecimento da população brasileira.

Filmar corredores de hospital ou serviços na UPA rende visualizações. Enfrentar o prefeito e responsabilizá-lo publicamente pelos problemas estruturais da saúde — sobretudo quando é aliado político — exige algo bem mais raro: coragem, autonomia e independência.

A política não deve ser refém do algoritmo. Não autoriza expor famílias fragilizadas em narrativas como palco para engajamento digital.  Se há falhas, que sejam investigadas com seriedade, processos claros e respeito. Explorar a dor e  sofrimento de quem perdeu um ente, ou  alimentar o medo e desacreditar instituições para gerar engajamento não representa coragem política nem defesa do interesse público: é oportunismo político.

Nesse jogo oportunista saem prejudicados os que mais precisam da saúde pública: o cidadão,  independente da sua classe social, que passa a desconfiar do serviço público no momento em que pode precisar dele; perdem os profissionais da saúde, expostos a julgamentos sumários nas redes sociais; e perde a cidade, que assiste ao desgaste de suas instituições. 

Quando a política troca responsabilidade por espetáculo, a saúde pública paga a conta, assim como toda a população.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O CARNAVAL DE ITATIBA COMO MOTOR DA ECONOMIA CRIATIVA

 



O Carnaval de Itatiba consolidou-se como um relevante motor da economia local. Concentrado na área central, especialmente na Praça da Bandeira, o evento reúne a banda Santa Cecília, blocos, escolas de samba, trio elétrico e apresentações de artistas itatibenses. A programação se amplia com os tradicionais bailes promovidos por dois dos principais clubes sociais da cidade, fortalecendo o calendário festivo e ampliando a circulação de público e renda. A atuação conjunta do poder público e das entidades privadas valoriza a cultura local e impulsiona a economia criativa local.

O investimento realizado pela Prefeitura no carnaval — que inclui infraestrutura, som profissional, sanitários, segurança e organização — não deve ser visto como mero custo operacional. Trata-se de um aporte planejado, cujo retorno pode ser mensurado. Estudos indicam que, para cada R$1 investido em cultura, podem ser gerados até R$7,59 em impacto econômico por meio da criação de empregos, contratação de serviços e aumento da circulação de recursos no comércio e nos serviços.

Em Itatiba, esse retorno tende a ser ainda mais significativo, pois os recursos permanecem majoritariamente na própria cidade, irradiando efeitos por diversos segmentos da indústria criativa e da economia urbana. Além de músicos e produtores culturais, o carnaval movimenta costureiras, estamparias, gráficas digitais, técnicos de som e iluminação, montadores de palco, profissionais de comunicação, segurança e logística, fortalecendo uma cadeia produtiva que gera renda e dinamiza o comércio local.

Os reflexos alcançam também setores tradicionais: bares, restaurantes, lanchonetes, sorveterias, ambulantes, fornecedores de bebidas, distribuidores, supermercados e serviços de transporte registram aumento na demanda durante o período. Pequenos empreendedores encontram na festa uma oportunidade real de ampliar o faturamento,  como se viu em todo o entorno da Praça da Bandeira. 

Mais do que atrair público, o Carnaval ativa uma rede que integra cultura, comércio, serviços e trabalho temporário. É um exemplo claro de como a economia criativa — baseada na criatividade, no conhecimento e na produção cultural — gera valor econômico, fortalece a renda local e estimula o empreendedorismo.

O Carnaval de Itatiba não é um mero evento sazonal e festivo. É  um ativo econômico estratégico capaz de transformar investimento público em desenvolvimento e fortalecimento do ecossistema produtivo local. Quando bem planejados, como o carnaval de Itatiba, eventos culturais deixam de ser despesa para afirmar-se como política pública de desenvolvimento.

Em tempo: para consolidar o principal evento da economia criativa local, é necessário repensar o local das próximas Mostras Criativas. O Parque da Juventude cumpre com excelência sua função de lazer e esporte, mas não possui vocação comercial. Inserir os criativos em um espaço com fluxo natural de consumo como a Praça da Bandeira, especialmente em datas estratégicas, potencializaria vendas, ampliaria a geração de renda e fortaleceria a conexão entre cultura e varejo.

Fortalecer a economia criativa exige mais do que incentivo pontual; requer estratégia territorial. E, no comércio, localização não é detalhe — é fator decisivo de sucesso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

JOÃO FATTORI ANTECIPA O JOGO DAS ELEIÇÕES DE 2028

 



As eleições municipais de 2028 em Itatiba começaram, na prática, bem antes do calendário oficial. A recente reunião realizada no gabinete do prefeito em exercício, Mauro Delforno — durante o período de férias de Thomás Capeletto — com o  ex-prefeito João Fattori (2009–2016) não foi um gesto isolado. Trata-se de um movimento calculado que antecipa o processo sucessório e reposiciona forças no tabuleiro político local antes mesmo da formalização das candidaturas.

O reaparecimento de João Fattori no centro do debate não é casual. Duas vezes prefeito, com votações expressivas, ele entra no cenário de 2028 não como aposta, mas como referência eleitoral consolidada. Seus resultados — 48,93% dos votos válidos em 2008 e 59,30% em 2012 — representam o seu melhor ativo.

A presença de Fattori não apenas adiciona votos à disputa, mas reorganiza campos políticos. Seu legado administrativo e a memória de suas gestões criam uma base inicial sólida, capaz de atrair apoios e induzir movimentos antecipados de apoio à sua candidatura, como o registrado no gabinete do Executivo. Em uma eleição matemática com turno único, esse efeito de reorganização pode ser decisivo.

O desafio, contudo, é menos numérico e mais estratégico. O eleitorado de 2028 está fragmentado, digital e menos tolerante a figuras tradicionais. Para transformar capital político acumulado em votos futuros, Fattori precisará atualizar discurso, narrativa, presença digital e pública, sem perder o principal diferencial que o sustenta: seus resultados e conquistas. 

Esse evento no gabinete do prefeito pressiona outros atores que também disputam o legado político de Thomás Capeletto. A secretária de Governo, Jackeline Boava, tenta antecipar a herança simbólica da atual gestão antes mesmo de ser submetida ao teste das urnas. David Bueno, com forte presença digital,  já disputou a prefeitura duas vezes, mas  sem conseguir romper a barreira dos 17% dos votos válidos. Ele tende a acelerar seus movimentos para se viabilizar como sucessor natural — embora ainda precise resolver pendências jurídicas junto ao TSE, que, até o momento, o mantém inelegível. Outro candidato potencial é o Dr. Parisotto: duas vezes candidato a prefeito, em 2016 e 2020, preservou em ambas as disputas um capital político relevante, com média de 24% dos votos válidos.

No campo oposicionista, o ex-prefeito Douglas Augusto (2017–2020) é pressionado a recalcular alianças e ampliar seu arco político. Eleito em 2016 com 40,62% dos votos válidos e derrotado em 2020 com 36,36%, Douglas mantém um recall eleitoral relevante. Uma eventual consolidação de alianças — especialmente com grupos contrários ou politicamente “descartados” pela atual gestão — pode se tornar decisiva em uma disputa que tende a ser altamente fragmentada.

Enquanto isso, chama atenção o comportamento de políticos que almejam ser indicados como sucessores de Thomás Capeletto ou compor a chapa como vice. A maioria segue passiva: sem discurso, sem posicionamento claro e, sobretudo, sem atitude de candidato à prefeitura. Trata-se de um erro clássico da política eleitoral — quem não ocupa espaço, perde espaço.

A definição do sucessor passará inevitavelmente pelo crivo de Thomás Capeletto, apoiada na frieza dos números das pesquisas. A indicação, porém, não encerra o jogo — ao contrário: quem não for o escolhido pode deixar de ser coadjuvante e se transformar em adversário competitivo. No fim, o nome ungido carrega a força do governo, mas os preteridos tem algo igualmente poderoso: voto, estrutura e  disposição para enfrentar quem ficou com a chave do cofre político.