Em uma recente roda de conversa em um tradicional buteco da cidade, um grupo eclético de frequentadores discutia a possibilidade da venda dos naming rights de Itatiba. A inspiração para a brilhante ideia teria vindo dos valores da venda dos direitos do estádio do Palmeiras ao Nubank. Afinal, se um estádio pode render milhões para um clube, por que não vender também o nome da própria cidade?
Um dos frequentadores — economista aposentado, especialista em contas públicas, inflação, câmbio e fiado em buteco — pegou um guardanapo e começou a fazer cálculos complexos com uma calculadora de bolso.
Após alguns minutos de profundo raciocínio econômico, ele concluiu que os recursos obtidos com a venda dos naming rights de Itatiba seriam suficientes para diversas ações. Entre elas, acabar com o mato e os buracos, asfaltar os loteamentos irregulares e terminar as obras das marginais do Jacaré. Além disso, a verba permitiria até construir uma nova prefeitura e construir um piscinão capaz de acabar definitivamente com as enchentes ou, ao menos, transferi-las para outro local da cidade.
Com a aura de quem acabara de apresentar um plano econômico ao FMI, o aposentado ergueu levemente o dedo indicador e concluiu:
— Isso não é apenas modernização administrativa…é uma necessidade inevitável neste mundo globalizado e conectado.
Como ocorre em conversas de buteco, as opiniões rapidamente ultrapassaram qualquer limite jurídico e moral. Em menos de vinte minutos, a mesa produziu mais propostas do que a Câmara Municipal apresentou durante todo o mandato legislativo.
E o espírito do buteco continuou quando surgiu a primeira proposta oficial do parlamento etílico para os naming rights :
— E se for MC Itatiba? O prefeito até fez uma live para anunciar a segunda unidade. …podemos dizer que Itatiba integra um grupo seleto: é uma das cidades do interior paulista que possui duas unidades da rede!
Os frequentadores mais nacionalistas protestaram. Defenderam que o nome correto deveria ser “Méqui Itatiba”, por respeitar a cultura popular brasileira e o patrimônio linguístico construído nas filas do drive-thru.
Já os fanáticos pelo Burger King acusaram a um favorecimento institucional ao hambúrguer do Ronald McDonald.
— O BK deve pagar mais — protestou um homem, já emocionalmente comprometido pela cachaça. — E ainda dá para colocar uma grande coroa na entrada da cidade!
A discussão degringolou de vez quando um corretor de imóveis, já no quinto Rabo de Galo, resolveu participar do debate.
— O nome correto deve ser algo como: Itatiba (Incorporadora) Empreendimentos Imobiliários.
O argumento veio forte e técnico.
— A cidade aprova loteamentos com menos de 150 m² e apartamentos de 40 m² em ritmo industrial.
A proposta foi derrubada por um marqueteiro presente na roda, que imediatamente pediu a palavra como se estivesse em uma audiência pública.
— Isso não pode acontecer! Tal medida posicionará a cidade como desorganizada e sem planejamento para o futuro! Precisamos de uma marca aspiracional, premium e sofisticada; algo que gere pertencimento emocional, percepção de exclusividade e valorização imobiliária.
Tomou um gole de sua cerveja, que ele sempre pede sem gelo para não ter de dividir com os serrotes, ajeitou a postura de consultor e continuou:
— Olha… "eu ouvi falar qualquer coisa" que recentemente aconteceu na cidade um casamento digno da monarquia europeia. Foi um evento realizado num campo de golfe, com uma lista de convidados mais restrita do que licitação pública. Com a presença de poucos membros da corte. Nem o bobo foi convidado!
A mesa silenciou-se, atenta.
— Precisamos aproveitar isso! — continuou o marqueteiro, já completamente tomado pelo espírito do branding territorial. — A cidade se tornou um polo de casamentos de luxo e campos de golfe. O futuro está aí! Temos de reposicionar Itatiba internacionalmente!
Ele fez uma pausa, olhou para todos como quem apresenta um projeto revolucionário, e decretou:
— Minha proposta é simples: “Itatiba — (Patrocinador) Golf & Casamentos Reais”.
Como ocorre em todo ambiente verdadeiramente democrático, logo surgiram as divergências, interesses paralelos, vaidades pessoais e pequenos grupos articulando alternativas nos cantos da mesa.
Sem consenso sobre os naming rights, decidiram, por unanimidade, encerrar o assunto.
No fim da noite, depois de 18 garrafas de cerveja, 36 martelinhos de cachaça e 15 rabos de galo, a mesa discutiu sete soluções urbanísticas, quatro planos de reestruturação econômica. O saldo da reunião incluiu cinco secretários demitidos e dois pedidos de impeachment. Por fim, a mesa chegou a uma conclusão unânime: produziram em poucas horas, mais ideias para o futuro da cidade do que boa parte do Legislativo nos últimos anos. E, sem pedidos de vista!
Talvez resida aí o verdadeiro perigo dos debates em butecos. Vai que algum vereador resolve aparecer...




.png)