sexta-feira, 31 de outubro de 2025

A chegada do Dia do Conservadorismo ao Arquivo Morto

 



   A ata do “PL  Dia do Conservadorismo”, assinada e promulgada com a solenidade de quem decreta feriado nacional, chegou ao seu destino final: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Chegou cheio de pompa e refesteleiro, ainda que lhe faltasse a maionese — e a maioria absoluta — na aprovação. Ao adentrar o recinto empoeirado, deparou-se com seus futuros colegas de repartição.

— E você, o que veio fazer aqui? — perguntou o PL Dia do Fusca, líder natural do arquivo, com os faróis já arregalados.

— Sou o Dia do Conservadorismo! — respondeu o recém-chegado, inflado de orgulho. — Fui apoiado por líderes religiosos e políticos de expressão municipal e nacional!


Nesse instante, a Pasta de Projetos no Âmbito Municipal soltou uma gargalhada sonora. — Líderes? Aqui, todo mundo tem um. E olhe pra gente agora: todos gloriosamente esquecidos.


Atrás dela, acenava o Dia do Empreendedorismo Ecumênico, que ergueu a voz: — Isso é nada! Fui inspirado nos grandes mestres da arte de enriquecer: Valdomiros, Felicianos, Silas, Macedos… e ainda por inúmeros cardeais e papas! E estou aqui, esquecido e sem recursos para celebrar a minha data. Não consigo nem pagar o dízimo. Nem durmo direito, pois, segundo alguns pastores e padres, minha inadimplência já me garantiu um lugar cativo no inferno!


O PL Dia do Fusca, com a paciência de quem já rodou mil léguas sobre paralelepípedos, buzinou suavemente — um som baixo e cansado que ecoou como um suspiro no Arquivo Morto.


— Meu caro Dia do Conservadorismo, permita-me uma lição de estrada. Aqui, sob este manto de poeira, repousam os irrelevantes. Fomos todos gestados no ventre de algum interesse eleitoral e paridos pelo consagrador abraço do corporativismo entre os pares. Nossas vidas são foguetes de confete: um espetáculo efêmero para iludir eleitores, até cair no esquecimento da história. Tudo pelo voto. Tudo pelo poder. 

Após uma pausa para tirar o pó de sua capa, o  PL Dia do Fusca retomou a palavra:


— A minha irrelevância é atemporal, mas sou um símbolo verdadeiro. Criei memórias afetivas e tive a sorte de ter um Clube do Carro Antigo na cidade. Já você… é só uma data no calendário. Será relegado à própria insignificância. Garanto: até o próximo 10 de março, ninguém — mas ninguém mesmo — lembrará que você existe. Talvez, o seu autor suba ao púlpito e repita algum termo que aprendeu recentemente com algum youtuber. Você não terá nada mais, meu querido.


O PL  Selo Amigo, responsável pela etiquetagem dos recém-chegados, percebeu que o Dia do Conservadorismo sentiu o golpe. Com a sua contumaz empatia, abraçou-o fraternalmente, afagou-lhe a capa e, com doçura burocrática, disse:

Meu caro, não fique triste… veja pelo lado positivo! Aqui a gente se aposenta no mesmo instante em que nasce. É o único lugar do mundo onde a irrelevância é um cargo vitalício. Temos regalias que nem o plenário tem: assistir à Galinha Pintadinha sem que ninguém acuse a pintinha de doutrinação. É a vida boa — ou melhor, é a morte lenta e irrelevante, mas com desenho animado liberado. Finalizou, com um sorriso de quem conhece o fim de todas as leis irrelevantes:

— Não é uma benção… é uma absolvição.

Notas do autor

1. Um esclarecimento necessário: não sou contra o conservadorismo enquanto posição ideológica. Sou contra a irrelevância legislativa. Sou contra o desperdício de tempo, de recursos públicos e da capacidade e conhecimento dos vereadores em projetos que não melhoram a qualidade de vida do cidadão. 

2. Um conselho de marketing político ao nobre vereador: na próxima quarta-feira, use a Tribuna Livre para explicar como você, autor do projeto, pretende investir seus conhecimentos, tempo e seus recursos para fazer do Dia do Conservadorismo uma data marcante na história. Tenho certeza de que seus eleitores ficaram orgulhosos por ter um líder conservador como você. Mas sem repetir as inverdades da última sessão.

3. Resposta ao pronunciamento do vereador: lamento profundamente que, ao defender o seu projeto, ele tenha optado por acusações falsas e gravíssimas sem qualquer fundamento. Diante de alegações que beiram a calúnia, recorro à mesma fonte moral que ele diz guiar sua vida pública com dois lembretes:

  • “Não espalharás notícias falsas” (Êxodo 23:1).

  • Aparta de ti a falsidade da boca, e a perversidade dos lábios põe longe de ti.” (Provérbios 4:24)





6 comentários:

  1. Puxa vida e nós reclamavamos quando eles só davam nomes às ruas.

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  2. E nós reclamavamos quando eles só davam nomes às ruas

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  3. e os dias municipais, irmãos gêmeos aos dos nacionais? também vão pro arquivo morto?

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  4. https://youtube.com/shorts/TmTpOdxg5iM?si=kSpt9bY7PBLqi5T4

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  5. O legislativo vem comprovando sua insignificância pela ostensiva demagogia e fisiologia.
    Só é norteado por "interesses próprios".
    O eleitor néscio deve ser mantido como tal, para a preservação da espécie (um sórdido ciclo vicioso).
    As ervas daninhas seguem essa lei.

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