sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CRÔNICA DE UMA CRISE NA SAÚDE: ENTRE A REALIDADE E A SÁTIRA

 





    A pequena cidade de Conservadora enfrentava uma crise econômica sem precedentes, que preocupava a população e deixava os cabelos brancos do prefeito literalmente em pé.
No setor de saúde, os reflexos eram graves: uma UBS fechada, Unidades Avançadas de Saúde (UAS) com horários de atendimento reduzidos e uma drástica limitação na emissão de guias para procedimentos e exames — pasmem — até mesmo os de fezes. A situação, no entanto, não era exclusividade do município: atingiu várias cidades que negligenciaram o planejamento para o aumento de receitas próprias. A participação do IPTU e do ISSQN no orçamento de Conservadora permaneceu praticamente inalterada nos últimos anos e com uma leve tendência à queda.

Preocupado com a dimensão da crise na saúde, o alcaide — acostumado a ouvir somente sua corte — resolveu subir ao alto do Monte da Humildade, centro de erudição, filosofia e espiritualidade, para pedir conselhos aos sábios mestres que lá viviam reclusos. Após dissertar sobre os problemas da cidade, ouviu algumas reprimendas, que não conseguiu prestar atenção devido aos incontáveis alertas do Zap que apitavam a todo instante. Preocupados com a falta de concentração do discípulo, os sábios prepararam um pergaminho com duas orientações para reverter a crise: 


1. Empatia e Comunicação
Mais empatia com a população. A prefeitura deveria fazer um comunicado oficial prévio para tranquilizá-la. Como não o fez, os mestres sugeriram ganhar tempo até conseguir recursos. Em consenso, recomendaram um pronunciamento oficial atribuindo a queda de receita à taxação de produtos brasileiros pelos EUA. Os mestres garantiram que os cidadãos verdadeiramente conservadores iriam acreditar piamente na história. Mas, antes — pois sempre há um "mas" ao consultar os sábios do Monte da Humildade —, ele teria de explicar para a população o motivo do aumento dos cargos comissionados, justamente quando a saúde pública dava seus primeiros sinais de colapso. Para os mestres, foi um pecado que nem mesmo líderes ávidos por bajular o parlamento ousarIam cometer.


2. Medida Drástica e Desumana (Mas Necessária):

Exonerar parte dos comissionados recentemente contratados, incluindo filhos e apadrinhados dos vereadores. O prefeito tentou argumentar com os mestres se não haveria outra solução. Para poder nomeá-los, quebrou o compromisso público de não contratar parentes de vereadores, além do que, era desumano e contra os seus princípios demitir filhos de vereadores. Segundo o mestre das finanças, a medida era de extrema necessidade e que geraria uma economia de cerca de 💰um milhão de reais anuais — valor suficiente para reabrir as UAS em período integral e realizar inúmeros procedimentos e exames. Como contrapartida aos edis, os mestres sugeriram que ele gravasse um vídeo agradecendo a "abnegação e altruísmo" dos vereadores por atenderem "uma demanda urgente da população que mais necessita". Também, deveria negociar com o presidente da Câmara a outorga do título de Vereador Altruísta do Ano — honraria que, certamente, deixaria os vaidosos vereadores orgulhosos.


Momento de Reflexão
Após uma sessão de Cantos Zen em um local do monte destinado ao relaxamento e à meditação, o prefeito sentiu-se mais aliviado e confiante. Permaneceu, porém, apreensivo com a reação de seus aliados na Câmara — que iriam perder os cargos negociados "no fio do bigode". Questionava-se onde encontraria forças para outro ato tão cruel! Lembrava-se do seu último ato desumano: dificultou o acesso ao concurso público para centenas de cidadãos Conservadorenses. As provas foram realizadas principalmente em outras cidades, impedindo que muitos conseguissem chegar aos locais do exame. Lembrava-se de não ter tido empatia com os concurseiros e de não lhes dar uma mínima explicação. Estrategicamente, para se livrar da culpa, conseguiu passar a responsabilidade para quem organizou o concurso. Águas passadas…Agora, exonerar filho de vereador com cargo comissionado! Seria muita maldade…


Antes de se despedir do Grão-Sábio Mestre — uma espécie de Dalai Lama local —, o prefeito recebeu um envelope com a instrução de abri-lo somente no Palácio Municipal.


De Volta à Realidade
De volta ao Palácio, a corte e os vereadores da base o tranquilizaram: não seria necessário cortar cargos nem gravar vídeos. Uma viagem a Brasília 🛫em busca de emendas com deputados federais resolveria tudo. Foram  felizes, cheios de esperança, gravaram vídeos e cantaram em uníssono a música oficial da excursão: 


🎵 Um vereador incomoda um prefeito. Dois vereadores incomodam, incomodam muito mais. Três vereadores incomodam um prefeito. Quatro vereadores..🎵. 


Nos gabinetes, posaram para fotos sorridentes como turistas no Cristo Redentor. Fizeram vídeos caminhando em câmera lenta pelos corredores do Congresso, com olhares profundos de quem estava "fazendo história". Voltaram de mãos vazias. A única emenda que conseguiram foi a dos vídeos, para postarem nas redes sociais como "produtiva agenda de trabalho". Quanto aos títulos de Vereador Altruísta do Ano, por unanimidade, eles não abriram mão da honraria.


 Dias depois, tranquilo e na solidão de seu gabinete, o prefeito lembrou-se da carta do Grão-Sábio Mestre. Abriu o envelope e leu a última recomendação:

"Prefeito, esperamos ter auxiliado sua administração a superar esta crise, que, embora previsível, não fez parte de seu plano de governo. Com planejamento, medidas fortes, empatia, humildade e uma boa comunicação, você sairá da crise. Se nada der certo, resta uma última alternativa: rezar e esperar que a política e o mercado se autorregulem. Afinal, como diria Ronald Reagan: “Não espere que a solução venha do governo. O governo é o problema.”

Ass.: Grão-Sábio Mestre do Monte da Humildade


Aviso importante: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com épocas, crises, prefeituras, prefeitos, vereadores, viagens a Brasilia, locais, slogans, cargos, nomes, alcunhas, títulos ou pessoas será “uma puta coincidência”.

Fabio Chrispim Marin


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Ribeirão Jacaré: A Morte Anunciada?

    A prefeitura de Itatiba realiza uma intervenção radical no Ribeirão Jacaré, da região do Jardim de Lucca até as proximidades da ETE Sabesp. O objetivo declarado é nobre: prevenir enchentes e melhorar a mobilidade urbana. O método escolhido, porém, representa um retrocesso ambiental que pode trocar um problema por uma catástrofe anunciada. Enquanto cidades modernas evoluem para soluções baseadas na natureza, Itatiba insiste em repetir os erros do passado. O caso mais dramático que ilustra o destino de um rio canalizado encontra-se a poucos quilômetros: as marginais do Tietê, em São Paulo. Um rio convertido em depósito de esgoto e lixo, com custos astronômicos para a sua recuperação e prejuízos imensuráveis à qualidade de vida dos paulistanos.

O cenário do Tietê pode se repetir em Itatiba: a supressão de microflorestas, árvores frutíferas, espécies nativas como Pau-Brasil e da mata ciliar pode gerar danos ambientais permanentes e irreversíveis. As consequências são previsíveis: aumento drástico da temperatura local, extinção de espécies e degradação do ribeirão Jacaré. O mais grave é que, até o momento, a prefeitura não apresentou à sociedade um plano de reposição florestal. A reposição não é uma mera sugestão; é uma obrigação legal e moral inegociável.

Exemplos de sucesso como o de Curitiba demonstram que existem alternativas inteligentes. Os parques inundáveis conciliam drenagem com áreas de lazer, criando espaços verdes que previnem enchentes sem prejudicar os rios. Enquanto o prefeito celebra a obra nas redes sociais, a realidade para a população itatibense é de total opacidade: a prefeitura permanece sem responder questões cruciais sobre os impactos reais desta intervenção na qualidade de vida dos itatibenses. A Câmara de Vereadores, cuja função é exatamente fiscalizar, compactua 100% com esse silêncio. Em razão da falta de transparência, é necessário que a prefeitura responda às seguintes perguntas publicamente:

  • A prefeitura tem consciência de que cada árvore nativa e frutífera removida representa a destruição de um habitat inteiro? Que é uma sentença de morte para a fauna que dela depende?

  • Compreendem que a mata ciliar é a armadura viva do nosso ribeirão? Sem ela, o assoreamento e a poluição condenam o Jacaré a se tornar um canal doente, comprometendo suas funções de corredor de biodiversidade e termorregulador natural do clima?

  • Quanto aos moradores do entorno? Alguém os informou que, no lugar da vegetação, herdarão uma ilha de calor insuportável, onde o concreto e o asfalto irradiarão temperaturas altíssimas, e a região em torno do ribeirão ficará abafada e insalubre?

  • Onde está o plano de reposição? Quantas árvores foram suprimidas? O replantio priorizará espécies nativas e a criação de quantos parques lineares?

O prefeito acredita estar construindo seu legado. Contudo, pode ser que não seja reconhecido no futuro por solucionar as enchentes, mas por devastar o meio ambiente de Itatiba. A história poderá registrá-lo como responsável por um retrocesso ambiental. O futuro do ribeirão Jacaré e de nossa cidade demanda decisões transparentes e participativas. Não pode ser decidido no silêncio de um gabinete.

Em 20 anos, ao olharmos para o Ribeirão Jacaré, o que veremos? Um canal de concreto morto e poluído como as marginais do Tietê? Ou um coração verde pulsando a vida? A decisão final cabe ao prefeito, mas a cobrança é nossa. E a mobilização começa já.

Compartilhe este texto. Faça ecoar este debate e cobre respostas!
Vamos juntos reescrever este capítulo!!!

Fabio Chrispim Marin
E daqui a gente segue tentando preservar o meio ambiente de Itatiba.


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

A oportunidade turística que Itatiba ainda não enxergou.

 




A Feimoc — Feira da Indústria e do Móvel Colonial, nas décadas de 1960 e 70, foi muito mais que uma feira: foi um exemplo bem-sucedido de como promover uma cidade. Ao consolidar Itatiba como a "Capital Brasileira do Móvel Colonial", a iniciativa não apenas gerou turismo e riqueza, mas criou uma identidade clara e poderosa para a cidade no cenário nacional. No entanto, com o declínio do setor, nossos gestores cometeram um erro estratégico fatal: abandonaram o trabalho de branding e permitiram que essa identidade se perdesse. Uma miopia crônica os impediu de entender que, no turismo, uma marca forte é o principal ativo de um destino – e sem investimento contínuo, ela se dilui até desaparecer.


Essa mesma miopia está fazendo Itatiba desperdiçar uma das suas maiores oportunidades recentes: o título de Município de Interesse Turístico (MIT), conquistado em 2018. A classificação abriu as portas para cerca de R$ 4 milhões em recursos estaduais, aplicados na infraestrutura turística. Desde então, foram  elaborados dois Planos Diretores de Desenvolvimento Turístico. No entanto, o essencial ficou faltando: nenhuma ação estratégica de marketing foi realizada para criar uma identidade e consolidar Itatiba como destino turístico.  Como resultado, o pouco reconhecimento que Itatiba possui hoje deve-se  exclusivamente a iniciativas privadas, como o Zooparque, a Federação Ornitológica, a pista de arrancada SPID Cup, hotéis-fazenda e a realização de casamentos.

Até mesmo o caqui, com suas grandiosas festas anuais, permanece subexplorado. A fruta carece de uma marca forte — um “Caqui de Itatiba”, como fez Jundiaí com a sua Uva Niágara. Uma rápida pesquisa no Google para “cidades produtoras de caqui” revela a ausência de estratégia: Itatiba aparece somente em uma matéria da prefeitura — nenhum destaque em veículos do setor agrícola ou turístico. 

Nosso cartão-postal ignorado: a Princesa das Colinas.

A identidade turística de Itatiba está literalmente diante de nossos olhos — basta olhar para cima. A cidade é coroada por um conjunto de elevações únicas que definem sua paisagem, mas que permanecem completamente invisíveis para as políticas públicas. Essa miopia estratégica nos impede de transformar paisagens deslumbrantes em destinos consolidados.

Conheça as joias dessa coroa natural negligenciada:

  • Pico Alto (1.113 m): ponto mais alto da região, com potencial excepcional para ecoturismo e contemplação.

  • Pico da Jurema (940 m): abriga projeto visionário do arquiteto Cid Camargo para mirante e restaurante — aguarda há anos um gestor com a mesma ousadia.

  • Serra dos Cocais (970 m): uma das últimas serras do Planalto Atlântico no interior, com afloramentos rochosos e biodiversidade única.

Esses locais são a base concreta para reposicionar Itatiba. Por meio de políticas públicas de incentivo e de Parcerias Público-Privadas (PPPs), a implantação de mirantes, parques e restaurantes nestes locais pode finalmente consolidar nossa vocação turística. O potencial não se limita às áreas rurais: no centro urbano, a torre da Matriz oferece vistas deslumbrantes do núcleo histórico, provando que nossa geografia favorável nos acompanha até o coração da cidade.

Cada elevação representa uma oportunidade estratégica para desenvolver o turismo de natureza, aventura, trilhas e experiências eco culturais — cenários perfeitos para viralizar nas redes sociais. Itatiba não precisa ser construída do zero; precisa ser descoberta. Cada foto, story, tag com #PrincesaDasColinas, #PicoAltoItatiba, #SerradosCocaisItatiba, #TorredaMatrizItatiba é um convite gratuito para o mundo conhecer a nossa Princesa das Colinas. Uma propaganda gratuita que nossos gestores insistem em ignorar.

O futuro do turismo em Itatiba não está no chão — está no alto de nossas colinas. Basta ter a coragem de subir e plantar a bandeira de uma nova era para a economia local.

Fabio Chrispim Marin


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Como Itatiba perdeu a Coca-Cola e o que isso diz sobre o nosso futuro.

 




Um episódio dos anos 1970 é emblemático e define a miopia estratégica que acompanha Itatiba: na época, corria o boato de que industriais locais haviam feito lobby contra a instalação da Coca-Cola por medo de concorrência por mão de obra. A realidade, porém, era outra. Nosso maior obstáculo era a infraestrutura — as rodovias Dom Pedro I e Constâncio Cintra, ainda não eram duplicadas, o que inviabilizava a logística da empresa. Jundiaí, com visão estratégica, ofereceu um terreno próximo à rodovia Anhanguera. Mesmo sem recursos hídricos suficientes, resolveu o problema com criatividade e articulação — e, com apoio do governo do estado, passou a captar água do Rio Atibaia, aqui em Itatiba. A Coca-Cola se instalou, atraiu outras gigantes como a Pepsi e transformou Jundiaí em um polo industrial de relevância nacional. Itatiba, entretanto, ficou à deriva.

Esse caso não é somente uma história do passado; é o sintoma de uma carência histórica que persiste: a ausência de um planejamento estratégico de longo prazo, apoiado em estudos técnicos e participação social. Itatiba sofre de uma miopia crônica que a impede de enxergar além do horizonte eleitoral. Enquanto outras cidades se planejam para as próximas décadas, nós ainda patinamos em responder a uma pergunta fundamental: o que Itatiba quer ser quando crescer? Em outras palavras, Itatiba não possui um projeto de cidade. Não tem um DNA.

Ciclo após ciclo, testemunhamos a repetição de padrões. As gestões dedicam-se naturalmente a obras de visibilidade — importantes para vincular a imagem do gestor a um legado concreto — e a ações essenciais do cotidiano: zeladoria, saúde, educação, mobilidade e resposta a crises. Vale destacar as obras e ações preventivas, como programas de manutenção preditiva e intervenções contra enchentes, mas mesmo essas, em sua maioria, ainda são reativas. Há anos, não vemos nenhuma ação estratégica para posicionar Itatiba no cenário regional ou nacional. Falta-nos uma identidade clara, uma marca que vá além de slogans e se traduza em desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentáveis. A história recente ilustra bem essa carência de visão. Itatiba já foi celebrada como a Capital Brasileira do Móvel Colonial, mas não soube se reinventar diante das mudanças no consumo. 

Precisamos corrigir urgentemente o foco. A nova perimetral — que interliga quatro rodovias: Romildo Prado, Constâncio Cintra, Alkindar Junqueira e Dom Pedro I — é uma oportunidade ímpar para os setores imobiliário, turístico, logístico e industrial. Mas onde está o planejamento para seu entorno? Há quanto tempo essa obra era aguardada, sem que se ouvisse falar em estudos de viabilidade ou incentivos para atrair investimentos? Ignorar essa chance é repetir erros passados. Como o da duplicação da Dom Pedro I, quando Itatiba não criou zonas industriais ou logísticas ao longo da rodovia. Enquanto isso, Jarinu, nossa vizinha, soube aproveitar oportunidades e hoje exibe um PIB per capita quase 31% superior ao nosso. 

Itatiba tem potencial incontestável: localização privilegiada, belezas naturais, base empresarial diversificada e malha rodoviária estratégica. Para realizá-lo, é urgente redefinir nosso DNA econômico e elaborar um plano ousado e profissional — com participação de especialistas, setor privado e sociedade civil. Para enxergar o futuro, Itatiba precisa de lentes de longo alcance. Só assim focaremos com clareza o amanhã que merecemos. 


Fabio Chrispim Marin 

Um itatibense incomodado com as miopias crônicas de Itatiba.

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Jacke Boava: a aposta de Thomás Capeletto vai dar certo?

 




Em um vídeo postado em suas redes sociais no dia 7 de setembro de 2025 — exatamente três anos antes das eleições municipais —, a secretária de Governo, Jackeline Boava, agora "Jacke Boava", posicionou-se claramente como a sucessora natural do prefeito Thomás Capeletto. A produção impecável do material, da roupa à criação de uma marca pessoal, indica um movimento meticuloso. Mas será que essa estratégia, que parece replicar em miniatura o bem-sucedido plano de Lula para Dilma Rousseff, será eficaz?


A história recente da cidade sugere cautela. Os dois últimos prefeitos reeleitos que tentaram emplacar seus sucessores falharam dramaticamente. O erro de Fumach (2008) e de Fattori (2016) foi idêntico: a demora em indicar oficialmente seu candidato. O que ambos tinham em comum? Terminaram seus mandatos com alta rejeição. Fumach, mesmo com a entrega do Parque da Juventude, não reverteu o desgaste de uma reeleição com somente 29,2% dos votos. Fattori, eleito com 59,3%, viu seu poder minguar ao perder o controle da Câmara e enfrentar a lenta reconstrução da cidade no pós-enchente de 2016. Os dois casos acima comprovam claramente que o eleitor não vota em candidatos apoiados por governos mal avaliados. 


A estratégia de Capeletto é clara: antecipar o jogo. O exemplo bem-sucedido é o de Lula, que começou em 2007 a construir publicamente Dilma como a opção de "continuidade" de um governo popular. A questão a ser avaliada é se a popularidade do governo Thomás em 2028 será alta o suficiente para que a estratégia da "continuidade" funcione. O plano para Jacke segue o mesmo roteiro: primeiro, consolidar seu nome como uma opção viável nas pesquisas. Depois, caso bem-sucedida, trabalhar a própria imagem. Mas será que Jacke Boava conseguirá se desvencilhar da sombra do prefeito e provar que é mais do que uma extensão do governo, apresentando propostas próprias e um olhar único para o futuro da cidade?


A aposta de Thomás Capeletto é alta. Se bem-sucedida, ele não somente garante a continuidade de seu projeto político, mas entra para a história como o primeiro prefeito a quebrar o ciclo de fracassos na sucessão municipal e a eleger a primeira mulher prefeita de Itatiba. Mas o caminho é cheio de incógnitas. A capacidade de Jacke de construir uma identidade política própria, a manutenção da união na base aliada e a transformação da "herança" de Thomás em um trampolim — e não em uma âncora — são fatores decisivos.


Itatiba se transforma, assim, em um intrigante laboratório político. Os próximos três anos trarão a resposta à questão central: a aposta ousada de Thomás Capeletto em Jacke Boava será a jogada mestre que irá reescrever a história política da cidade, ou será mais um capítulo de uma história de sucessões malogradas?


Publicado no Jornal de Itatiba, coluna Opiniões em 13/09/2025


Fabio Chrispim Marin

Consultor de Marketing Político




















quarta-feira, 3 de abril de 2024

O Fantasma do Quociente Eleitoral

 




O quociente eleitoral (QE) é o número de votos que um partido precisa para eleger um vereador ou deputado. Ele assusta, traz surpresas, alegrias e decepções. Aparenta ser um cálculo incompreensível, mas somente quando conseguimos entendê-lo, é que seu propósito é revelado: “um sistema eleitoral democrático, justo e equitativo.” Agora, para o candidato que não vence a eleição, é tentar explicar o inexplicável.

        Nas eleições de 1996, houve um caso curioso em Itatiba envolvendo o quociente eleitoral. Na listagem dos vereadores eleitos, aparecia Waldenir Gilli (PMDB) ocupando a 17ª cadeira. O PPB local contestou o resultado, argumentando que a vaga era do seu candidato João Fusussi, pois na contagem interna realizada pelo partido, apontava que o PPB teria uma votação maior que o PMDB. Os líderes pepebistas alegavam que a diferença estava nos votos de legenda. O juiz eleitoral acatou o pedido e, após nova totalização, descobriu-se o erro cartorário, que prejudicou a distribuição das vagas para a Câmara Municipal.

 Naquela eleição, a coligação majoritária que elegeu Adilson Franco Penteado, era composta pelos partidos PPB, PMDB e PSDB. No entanto, as três legendas não se coligaram para a proporcional e disputaram o pleito para vereadores individualmente. O equívoco cometido pelo cartório, foi utilizar a votação dos partidos PPB, PMDB e PSDB, como uma coligação para calcular o quociente eleitoral. Com o erro descoberto e, com a nova totalização, Gilli perdeu a vaga para Ester Dalcin Sibinelli (PSD) e, o PPB, não conseguiu emplacar João Fusussi como vereador. Segundo a reportagem do jornal de Itatiba, o mesmo erro aconteceu em outras vinte cidades do estado de São Paulo e, também, em Morungaba, onde Fernando Stella (PFL) perdeu a vaga para Marquinhos Oliveira (PSD), o atual prefeito morungabense.

As eleições proporcionais de 2024 trarão mudanças na legislação e no cenário eleitoral. Entre as mudanças destacam-se: o aumento de duas cadeiras na Câmara Municipal; a diminuição de candidatos que irão disputar a eleição; e a alienação eleitoral que poderá chegar na casa dos 30.000 eleitores. Para a divisão das cadeiras na Câmara Municipal, também teremos mudanças. Será uma operação em três etapas: primeiro serão beneficiados os partidos que atingirem 100% do Quociente Eleitoral (QE); depois será a distribuição das sobras por médias, incluindo os partidos que alcançaram 80% do QE. No entanto, nem todos os candidatos poderão participar desta distribuição, devido às cláusulas de barreira. Por último, caso ainda todas vagas não estiverem preenchidas, existe a chamada "sobra das sobras", onde todas as legendas poderão participar da divisão.

Com as novas regras, existe a possibilidade de os grandes partidos perderem vagas na divisão das sobras para as pequenas legendas, então, nesse novo cenário, seus líderes precisam rever conceitos e quebrar paradigmas. Será preciso inovar, profissionalizar a campanha e dar apoio total a todos os seus candidatos. O time todo precisará estar focado e motivado para conquistar o maior número de votos possíveis. Para tanto, eles precisam ter à sua disposição material de qualidade e uma equipe completa de marketing digital e político para atendê-los de forma única.

E você, pré-candidato, estude o cálculo do quociente, ele é um fantasma imprevisível e matemático. Analise o potencial dos candidatos do seu partido, planeje a campanha e não cometa o erro de deixar tudo para os últimos 45 dias. 

Agora é hora de criar reputação, posicionar-se, definir seu público, organizar a campanha, cadastrar suas lideranças e captar recursos. Para ser sincero, você já está bem atrasado! A menos que ainda acredite no Gasparzinho, o fantasminha camarada.

 

Artigo publicado no Jornal de Itatiba em 06 de abril de 2024

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Quem Quer Se Vereador?


 

Quem Quer ser Vereador?

As eleições de 2024 em Itatiba oferecerão excelentes oportunidades para conquistar uma vaga na Câmara Municipal. São duas boas notícias: a primeira é o aumento de duas cadeiras no legislativo itatibense, que passará a ter dezenove vereadores a partir de 2025, e a segunda, é a redução no número de postulantes. Cada partido ou federação poderá inscrever até vinte candidatos, em comparação com os 26 permitidos por legenda no último pleito. Além disso, a possível, não reeleição de alguns dos atuais vereadores, podem abrir mais algumas oportunidades.

Para quem quer ser vereador, é crucial estudar a representatividade e as estratégias dos seus principais concorrentes: os atuais legisladores. Concorrentes que contam com a visibilidade do cargo, assessores remunerados, e com poder político. Todos foram eleitos com planejamento e com nichos eleitorais consolidados.

A comunicação deles merece uma atenção especial. Analise como eles se comunicam, se são discretos ou midiáticos, se defendem alguma pauta. Observe os que fazem discurso de oposição, e os que são porta-vozes da administração, e por fim, se são apenas “papagaios de pirata”, que adoram aparecer ao lado do prefeito. Em outubro, o papagaio poderá ficar sem o seu pirata e, este, por sua vez, com um novo louro em seus ombros.

Quinto Túlio Cicero – 64 a.C, no seu manual de “Como Ganhar uma Eleição”, destaca três elementos que cativam o eleitor a dar apoio a um político: um favor, a simpatia espontânea e uma esperança. E é sobre a esperança que você, pré-candidato, tem que trabalhar na sua comunicação. Faça uma retrospectiva de sua vida, estude uma pauta que você domine. Crie reputação! Posicione-se, mostrando para o eleitor que você é a esperança, a ferramenta para resolver as necessidades e dores da comunidade.

A atual legislação eleitoral, permite de forma restrita, que os pré-candidatos realizem sua pré-campanha. Só não podem pedir votos, postar abertamente que é candidato e abusar do poder político e econômico. Agora é o momento de você construir reputação e segmentar o seu eleitorado. Fortaleça os laços e conexões com a comunidade, estruture a sua base de mobilização e monte uma estrutura mínima com profissionais de comunicação, de marketing político e de mídias sociais.

Evite postagens impulsivas nas redes sociais sem definir o seu discurso, sem entender o cenário político da cidade e as principais necessidades da comunidade. Deixe a vaidade de lado, fale menos de você e mais do que interessa ao eleitor. Evite promessas vazias que não serão cumpridas.  

Para concluir, a janela eleitoral com início em 6 de março, se encerra em 6 de abril e, também, é o último dia para você se filiar. Acompanhe as trocas de partidos dos atuais vereadores, estude as composições de cada chapa e avalie as suas possibilidades. Quanto ao dinheiro do fundo eleitoral, trate-o como uma possível lenda urbana. Se vier, será ótimo.

Artigo publicado no Jornal de Itatiba - edição digital, Coluna Opiniões  06/01/2024