sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CRÔNICA DE UMA CRISE NA SAÚDE: ENTRE A REALIDADE E A SÁTIRA

 





    A pequena cidade de Conservadora enfrentava uma crise econômica sem precedentes, que preocupava a população e deixava os cabelos brancos do prefeito literalmente em pé.
No setor de saúde, os reflexos eram graves: uma UBS fechada, Unidades Avançadas de Saúde (UAS) com horários de atendimento reduzidos e uma drástica limitação na emissão de guias para procedimentos e exames — pasmem — até mesmo os de fezes. A situação, no entanto, não era exclusividade do município: atingiu várias cidades que negligenciaram o planejamento para o aumento de receitas próprias. A participação do IPTU e do ISSQN no orçamento de Conservadora permaneceu praticamente inalterada nos últimos anos e com uma leve tendência à queda.

Preocupado com a dimensão da crise na saúde, o alcaide — acostumado a ouvir somente sua corte — resolveu subir ao alto do Monte da Humildade, centro de erudição, filosofia e espiritualidade, para pedir conselhos aos sábios mestres que lá viviam reclusos. Após dissertar sobre os problemas da cidade, ouviu algumas reprimendas, que não conseguiu prestar atenção devido aos incontáveis alertas do Zap que apitavam a todo instante. Preocupados com a falta de concentração do discípulo, os sábios prepararam um pergaminho com duas orientações para reverter a crise: 


1. Empatia e Comunicação
Mais empatia com a população. A prefeitura deveria fazer um comunicado oficial prévio para tranquilizá-la. Como não o fez, os mestres sugeriram ganhar tempo até conseguir recursos. Em consenso, recomendaram um pronunciamento oficial atribuindo a queda de receita à taxação de produtos brasileiros pelos EUA. Os mestres garantiram que os cidadãos verdadeiramente conservadores iriam acreditar piamente na história. Mas, antes — pois sempre há um "mas" ao consultar os sábios do Monte da Humildade —, ele teria de explicar para a população o motivo do aumento dos cargos comissionados, justamente quando a saúde pública dava seus primeiros sinais de colapso. Para os mestres, foi um pecado que nem mesmo líderes ávidos por bajular o parlamento ousarIam cometer.


2. Medida Drástica e Desumana (Mas Necessária):

Exonerar parte dos comissionados recentemente contratados, incluindo filhos e apadrinhados dos vereadores. O prefeito tentou argumentar com os mestres se não haveria outra solução. Para poder nomeá-los, quebrou o compromisso público de não contratar parentes de vereadores, além do que, era desumano e contra os seus princípios demitir filhos de vereadores. Segundo o mestre das finanças, a medida era de extrema necessidade e que geraria uma economia de cerca de 💰um milhão de reais anuais — valor suficiente para reabrir as UAS em período integral e realizar inúmeros procedimentos e exames. Como contrapartida aos edis, os mestres sugeriram que ele gravasse um vídeo agradecendo a "abnegação e altruísmo" dos vereadores por atenderem "uma demanda urgente da população que mais necessita". Também, deveria negociar com o presidente da Câmara a outorga do título de Vereador Altruísta do Ano — honraria que, certamente, deixaria os vaidosos vereadores orgulhosos.


Momento de Reflexão
Após uma sessão de Cantos Zen em um local do monte destinado ao relaxamento e à meditação, o prefeito sentiu-se mais aliviado e confiante. Permaneceu, porém, apreensivo com a reação de seus aliados na Câmara — que iriam perder os cargos negociados "no fio do bigode". Questionava-se onde encontraria forças para outro ato tão cruel! Lembrava-se do seu último ato desumano: dificultou o acesso ao concurso público para centenas de cidadãos Conservadorenses. As provas foram realizadas principalmente em outras cidades, impedindo que muitos conseguissem chegar aos locais do exame. Lembrava-se de não ter tido empatia com os concurseiros e de não lhes dar uma mínima explicação. Estrategicamente, para se livrar da culpa, conseguiu passar a responsabilidade para quem organizou o concurso. Águas passadas…Agora, exonerar filho de vereador com cargo comissionado! Seria muita maldade…


Antes de se despedir do Grão-Sábio Mestre — uma espécie de Dalai Lama local —, o prefeito recebeu um envelope com a instrução de abri-lo somente no Palácio Municipal.


De Volta à Realidade
De volta ao Palácio, a corte e os vereadores da base o tranquilizaram: não seria necessário cortar cargos nem gravar vídeos. Uma viagem a Brasília 🛫em busca de emendas com deputados federais resolveria tudo. Foram  felizes, cheios de esperança, gravaram vídeos e cantaram em uníssono a música oficial da excursão: 


🎵 Um vereador incomoda um prefeito. Dois vereadores incomodam, incomodam muito mais. Três vereadores incomodam um prefeito. Quatro vereadores..🎵. 


Nos gabinetes, posaram para fotos sorridentes como turistas no Cristo Redentor. Fizeram vídeos caminhando em câmera lenta pelos corredores do Congresso, com olhares profundos de quem estava "fazendo história". Voltaram de mãos vazias. A única emenda que conseguiram foi a dos vídeos, para postarem nas redes sociais como "produtiva agenda de trabalho". Quanto aos títulos de Vereador Altruísta do Ano, por unanimidade, eles não abriram mão da honraria.


 Dias depois, tranquilo e na solidão de seu gabinete, o prefeito lembrou-se da carta do Grão-Sábio Mestre. Abriu o envelope e leu a última recomendação:

"Prefeito, esperamos ter auxiliado sua administração a superar esta crise, que, embora previsível, não fez parte de seu plano de governo. Com planejamento, medidas fortes, empatia, humildade e uma boa comunicação, você sairá da crise. Se nada der certo, resta uma última alternativa: rezar e esperar que a política e o mercado se autorregulem. Afinal, como diria Ronald Reagan: “Não espere que a solução venha do governo. O governo é o problema.”

Ass.: Grão-Sábio Mestre do Monte da Humildade


Aviso importante: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com épocas, crises, prefeituras, prefeitos, vereadores, viagens a Brasilia, locais, slogans, cargos, nomes, alcunhas, títulos ou pessoas será “uma puta coincidência”.

Fabio Chrispim Marin


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