quinta-feira, 6 de novembro de 2025

"A Unanimidade é Burra:" O Segredo por trás dos Projetos Irrelevantes

 

Prólogo

Nas arcadas do poder local, encenou-se uma tragicomédia (ou seria farsa?) que o próprio Nelson Rodrigues assinaria sem pestanejar. Uma comédia de equívocos onde o óbvio precisa de lei, o trivial vira urgência, e a irrelevância se veste de legado. Em sua genialidade ímpar, o legislativo concedeu, através de um Projeto de Lei, o direito histórico de um bloco de carnaval... desfilar no carnaval. 

Sim, você leu corretamente. O PL — Projeto de Lei "assegura" a participação de um bloco ligado a uma clínica na programação oficial do Carnaval. Uma causa nobre, sem dúvida. Mas eis o detalhe sublime: qualquer bloco carnavalesco consegue isso com uma simples solicitação junto à Secretaria de Cultura e Turismo. Não é necessária uma lei.

Aliás, nenhuma outra agremiação na história carnavalesca da cidade precisou de uma.

O arquivo morto entra em cena

Encerrada a euforia da aprovação, o projeto encontrou seu destino mais nobre: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Mas nem as pastas mais antigas, acostumadas a abrigar as preciosidades do nada, estavam preparadas para tamanha exuberância do inútil. A revolta foi imediata. Convocou-se, às pressas, uma reunião emergencial para decidir onde arquivar tamanha obra-prima da desimportância pública, um monumento à genialidade do supérfluo que, reconheça-se, atingiu níveis inéditos de excelência.

Quem mais se indignou foi a pasta  “No Âmbito Municipal”, responsável por abrigar os projetos que legislam sobre um dia já celebrado no calendário nacional, e conhecido popularmente como “os irmãos gêmeos das datas nacionais”. Com sua sabedoria em eventos e efemérides, pediu a palavra e expôs a sua opinião:

— A seletividade é digna de nota — vociferou. — Será que o nobre autor do projeto já assistiu a um único desfile cívico do Sete de Setembro ou prestigiou a apresentação dos blocos e escolas de samba no carnaval na cidade? Se tivesse assistido, veria com seus olhos que esses já são os verdadeiros palcos de inclusão desta cidade. Pessoas com todos os tipos de deficiência, inclusive com transtornos do neurodesenvolvimento, desfilam, brincam e são celebradas. Nossa cidade é exemplo de inclusão espontânea em seus eventos, sem precisar de uma lei para sê-lo. 

A pasta do “Cooperativismo Situação–Oposição”, carinhosamente apelidada de “eu aprovo o seu e você aprova o meu”, prontificou-se, com falsa modéstia, a receber o projeto.

— Estou abarrotada, é verdade, mas essa é a minha sina. O que os nobres vereadores ainda não entenderam é que o cidadão até tolera o erro, mas não perdoa o abandono. E hoje, meus caros, eles sentem assim: abandonados…por irrelevâncias como essa.

Fez uma breve pausa, ajeitou a aba e continuou, com ironia:

— Para sustentar o teatro do “Faz de Conta”, eles fazem da tragédia uma comédia, e assim, projetos sem propósito como este são aprovados num consagrador abraço entre governo e oposição: Eu aprovo o seu, você aprova o meu. E, no final,  todos saem sorrindo, como se tivessem feito história.

Um soluço abafado ecoou do fundo da sala. Era a pasta dos “Projetos Não Sancionados pelo Prefeito”. Visivelmente transtornada, já em prantos e abraçando uma caixa de "lenço de papel Yes¹" como se ela fosse um salva-vidas, desabafou:

— É sempre a mesma coisa! E o final é previsível... o prefeito sanciona o disparate! Esses projetos são uma pandemia de inutilidades para a qual, infelizmente, ainda não inventaram vacinas! E eu, como fico? Totalmente vazia... sem nenhum — ou melhor, nenhumzinho — projeto para conversar, para passar o tempo! Estou às portas da depressão! Se não fossem essas reuniões emergenciais, não sei o que seria de mim…

O desabafo caiu na sala como um peso. Um silêncio constrangedor se espalhou entre as prateleiras. As outras pastas se entreolharam, sem encontrar palavra alguma de consolo. Afinal, o que dizer a alguém cuja única função na vida era... ser esquecida?

A caixa de “Primeiros Socorros Legislativos para Crises no Executivo”, cujo conteúdo se resumia a três carimbos: "URGENTE, VISTO E REPROVADO", aproximou-se com certo constrangimento. Tentou um gesto de solidariedade e deu uns tapinhas desajeitados na capa da colega dos “Projetos Não Sancionados”.

— Calma, colega...Você já tentou conversar com um carimbo? Querida, eu também vivo sozinha... Mas veja pelo lado positivo! Enquanto o prefeito se ocupa sancionando essas genialidades legislativas, pelo menos não inventa mais nenhum empréstimo mirabolante, nem cria outra subsecretaria para empregar filhos e apadrinhados dos vereadores.

Fez uma pausa, endireitou o rótulo amassado e concluiu com ar filosófico:

— O nosso vazio, minha cara, é a última linha de defesa contra o endividamento da prefeitura. Somos o silêncio que impede a ruína. Pense nisso... somos resistência!

Um breve murmúrio de aprovação percorreu as prateleiras, mas logo o ambiente voltou ao silêncio solene que caracteriza os arquivos mortos. Até que, com a pompa de quem anuncia um parecer final, a pasta do “Selo Amigo” — responsável por etiquetar os recém-chegados — pediu a palavra.

— Caríssimos, Nelson Rodrigues, em sua sabedoria sarcástica, já advertia: “A unanimidade é burra.” E o legislativo local acaba de comprovar, com louvor e unanimidade, que ele tinha razão.

Ergueu a lombada com elegância erudita e prosseguiu, numa cadência de ata cerimonial:

— Assim, o Festival de Projetos Irrelevantes segue a todo vapor, produzindo pouco, consumindo tempo e recursos públicos e enterrando, voto a voto, o que resta da credibilidade política local. Então, queridos colegas, só nos resta cumprir nosso dever institucional: arquivar as irrelevâncias, uma a uma, com a dignidade de quem preserva o nada.

De repente, o som de uma buzina fanha interrompeu o silêncio. Era a pasta do “Dia do Fusca” — que permanecera calada o tempo todo,

— Pelo que vejo, existe um complô para me derrubar... Não me surpreenderia se aparecesse um PL para “garantir a um galo, de um determinado avicultor, o direito sagrado de ciscar no seu próprio galinheiro”.

E, após uma pausa dramática, finalizou:

— E, para piorar, é até possível que algum dos seus nobres pares proponha uma emenda assim: ‘Fica terminantemente proibido o galo ciscar para frente, mesmo que no seu galinheiro’. 

Fecham-se as cortinas da irrelevância legislativa! 

Notas:

1 - Lenço de Papel Yes — fabricado pela Johnson & Johnson na década de 1960.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

A chegada do Dia do Conservadorismo ao Arquivo Morto

 



   A ata do “PL  Dia do Conservadorismo”, assinada e promulgada com a solenidade de quem decreta feriado nacional, chegou ao seu destino final: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Chegou cheio de pompa e refesteleiro, ainda que lhe faltasse a maionese — e a maioria absoluta — na aprovação. Ao adentrar o recinto empoeirado, deparou-se com seus futuros colegas de repartição.

— E você, o que veio fazer aqui? — perguntou o PL Dia do Fusca, líder natural do arquivo, com os faróis já arregalados.

— Sou o Dia do Conservadorismo! — respondeu o recém-chegado, inflado de orgulho. — Fui apoiado por líderes religiosos e políticos de expressão municipal e nacional!


Nesse instante, a Pasta de Projetos no Âmbito Municipal soltou uma gargalhada sonora. — Líderes? Aqui, todo mundo tem um. E olhe pra gente agora: todos gloriosamente esquecidos.


Atrás dela, acenava o Dia do Empreendedorismo Ecumênico, que ergueu a voz: — Isso é nada! Fui inspirado nos grandes mestres da arte de enriquecer: Valdomiros, Felicianos, Silas, Macedos… e ainda por inúmeros cardeais e papas! E estou aqui, esquecido e sem recursos para celebrar a minha data. Não consigo nem pagar o dízimo. Nem durmo direito, pois, segundo alguns pastores e padres, minha inadimplência já me garantiu um lugar cativo no inferno!


O PL Dia do Fusca, com a paciência de quem já rodou mil léguas sobre paralelepípedos, buzinou suavemente — um som baixo e cansado que ecoou como um suspiro no Arquivo Morto.


— Meu caro Dia do Conservadorismo, permita-me uma lição de estrada. Aqui, sob este manto de poeira, repousam os irrelevantes. Fomos todos gestados no ventre de algum interesse eleitoral e paridos pelo consagrador abraço do corporativismo entre os pares. Nossas vidas são foguetes de confete: um espetáculo efêmero para iludir eleitores, até cair no esquecimento da história. Tudo pelo voto. Tudo pelo poder. 

Após uma pausa para tirar o pó de sua capa, o  PL Dia do Fusca retomou a palavra:


— A minha irrelevância é atemporal, mas sou um símbolo verdadeiro. Criei memórias afetivas e tive a sorte de ter um Clube do Carro Antigo na cidade. Já você… é só uma data no calendário. Será relegado à própria insignificância. Garanto: até o próximo 10 de março, ninguém — mas ninguém mesmo — lembrará que você existe. Talvez, o seu autor suba ao púlpito e repita algum termo que aprendeu recentemente com algum youtuber. Você não terá nada mais, meu querido.


O PL  Selo Amigo, responsável pela etiquetagem dos recém-chegados, percebeu que o Dia do Conservadorismo sentiu o golpe. Com a sua contumaz empatia, abraçou-o fraternalmente, afagou-lhe a capa e, com doçura burocrática, disse:

Meu caro, não fique triste… veja pelo lado positivo! Aqui a gente se aposenta no mesmo instante em que nasce. É o único lugar do mundo onde a irrelevância é um cargo vitalício. Temos regalias que nem o plenário tem: assistir à Galinha Pintadinha sem que ninguém acuse a pintinha de doutrinação. É a vida boa — ou melhor, é a morte lenta e irrelevante, mas com desenho animado liberado. Finalizou, com um sorriso de quem conhece o fim de todas as leis irrelevantes:

— Não é uma benção… é uma absolvição.

Notas do autor

1. Um esclarecimento necessário: não sou contra o conservadorismo enquanto posição ideológica. Sou contra a irrelevância legislativa. Sou contra o desperdício de tempo, de recursos públicos e da capacidade e conhecimento dos vereadores em projetos que não melhoram a qualidade de vida do cidadão. 

2. Um conselho de marketing político ao nobre vereador: na próxima quarta-feira, use a Tribuna Livre para explicar como você, autor do projeto, pretende investir seus conhecimentos, tempo e seus recursos para fazer do Dia do Conservadorismo uma data marcante na história. Tenho certeza de que seus eleitores ficaram orgulhosos por ter um líder conservador como você. Mas sem repetir as inverdades da última sessão.

3. Resposta ao pronunciamento do vereador: lamento profundamente que, ao defender o seu projeto, ele tenha optado por acusações falsas e gravíssimas sem qualquer fundamento. Diante de alegações que beiram a calúnia, recorro à mesma fonte moral que ele diz guiar sua vida pública com dois lembretes:

  • “Não espalharás notícias falsas” (Êxodo 23:1).

  • Aparta de ti a falsidade da boca, e a perversidade dos lábios põe longe de ti.” (Provérbios 4:24)





sexta-feira, 24 de outubro de 2025

DIA DO CONSERVADORISMO






  Itatiba celebra símbolos e ignora Futuros

Sim, meus caros, Itatiba acaba de ganhar um novo marco em seu calendário: o Dia do Conservadorismo. Aprovada com pompa e circunstância pela Câmara Municipal, a data – a ser comemorada todo 10 de março — já nasce com tamanha relevância que deixa até o Dia do Fusca envergonhado.

Enquanto parte de nossos vereadores se dedica a aprovar temas de relevância, no mínimo, duvidosa, um silêncio inquietante paira sobre uma crise real e urgente: o êxodo silencioso de nossos jovens do ensino médio. Os números não mentem. Segundo o Centro de Liderança Pública, Itatiba despencou 84 posições no ranking de acesso ao ensino médio em 2024 e ocupa a vergonhosa 164ª posição no Brasil*. 

Diante desse cenário, é legítimo perguntar: estamos mesmo "conservando" o que importa? O ensino médio, etapa crucial que define trajetórias de vida, é de responsabilidade direta do governo do estado. Portanto, a pergunta que se impõe é: não seria a atitude mais genuinamente conservadora a edilidade cobrar incansavelmente o governador — e conservador — Tarcísio de Freitas o cumprimento de sua “promessa” de mais uma escola de ensino médio para Itatiba? 

A construção de escolas de ensino médio nas regiões periféricas de Itatiba, poupará nossos jovens de jornadas exaustivas de ônibus — uma barreira concreta que alimenta a evasão escolar. Enquanto a “promessa” de uma nova escola é somente uma “promessa”, a evasão, alimentada pela necessidade de trabalhar ou procurar emprego, responde por 39,1% do abandono escolar no país (IBGE), continua sua marcha silenciosa.

Senhores vereadores, vocês foram eleitos por um grupo, mas agora representam a cidade toda, portanto: 

É de vossa obrigação promover estudos e debates que de fato escutem as dores, necessidades e motivações da nossa juventude, principalmente nos alunos que estão concluindo o 9º ano do ensino fundamental. É preciso entender por que a falta de interesse responde por 16,5% das saídas da escola e, a partir daí, construir com eles um futuro que faça sentido. Um futuro que dialogue com o que eles sonham e esperam conquistar em suas vidas.

É de vossa obrigação propor e negociar junto ao executivo medidas concretas que derrubem as barreiras que afastam os nossos jovens da escola. Isso inclui desde programas de incentivo financeiro — nos moldes do ‘Pé de Meia’ federal — até a garantia de transporte gratuito, que anule o custo de deslocamento. 

Senhores vereadores: 

Daqui a vinte anos, o que terá mais valor para vocês: uma foto desbotada ao lado de uma placa simbólica ao Dia do Conservadorismo, ou a lembrança viva de uma geração de jovens que conseguiu concluir o ensino médio e ingressar na faculdade? 

Esses sim seriam os projetos dignos de aprovação. 

Esses sim seriam os legados dignos de celebração.

A criação do 'Dia do Conservadorismo' vai muito além de uma mera homenagem calendária, revela-se um gesto político calculado para consumo de um nicho ideológico específico. 

No entanto, assim como ocorreu com o 'Dia do Fusca', sua utilidade prática para a população será nula. Restará, no fim das contas, apenas a constatação de que se trata mais de um símbolo vazio do que de uma ação concreta para melhorar a vida dos cidadãos itatibenses. 

É triste! Mas é o legado que a Câmara Municipal de Itatiba optou por construir.

 

* Fonte: Ranking CLP — Centro de Liderança Pública.

https://rankingdecompetitividade.org.br/municipios/




sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O FAZ DE CONTA POR TRÁS DOS VÍDEOS DOS VEREADORES

 



Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil, parece ter previsto nossa era digital. Em "Teoria do Medalhão", seu conto sobre a arte de triunfar na vida não pelo talento, mas pela bajulação, superficialidade e fama vazia, ele poderia estar descrevendo o manual de sobrevivência do político moderno. Se vivesse hoje, não teria dúvidas: diagnosticaria as redes sociais como a vitrine definitiva dos medalhões do século XXI. 

É nesse cenário que a política se transforma em coreografia ensaiada. Já não são necessárias tribunas nem salões — bastam um celular, um filtro digital e uma boa dose de desfaçatez. Tudo com um roteiro teatral, onde vigora uma lei não escrita: a arte de se apropriar do que já está pronto. Alguns vereadores governistas encenam um reality show de conquistas, sobre o pano de fundo silencioso das obras já concluídas. Passeiam por realizações alheias, transformando o cronograma da prefeitura em seu próprio currículo. Protocolam requerimentos solicitando melhorias, omitindo cuidadosamente em suas redes que a solicitação já constava no cronograma oficial da prefeitura.  Assim, o "faz de conta" deixa de ser artimanha e consolida-se como método de trabalho. Enquanto isso, nas ruas, a oposição dedica-se a garimpar problemas e omissões..

Caso real:  O Ar-Condicionado Profético

Um caso de alguns anos atrás, digno de registro, ilustra com perfeição essa dinâmica. A concessionária de transporte público de uma pequena cidade paulista estava para receber uma nova frota. É importante entender: comprar um ônibus não é como comprar um pão na padaria. O processo é lento — primeiro adquire-se o chassi, que depois segue para a montagem da carroceria e a pintura nos padrões da empresa, em seguida a compra e instalação dos equipamentos constantes no contrato com a prefeitura. Um ciclo que naturalmente consome meses entre o pedido e a entrega. Pois bem. Um nobre vereador, convenientemente munido de informações privilegiadas sobre a data de entrega dos ônibus  — e, pasmem, de que os veículos já viriam com ar-condicionado —, decidiu agir. Vinte dias antes da chegada da nova frota, protocolou um solene requerimento, no qual solicitava que os novos ônibus fossem  equipados exatamente com o mesmo ar-condicionado que já estava instalado neles. Para comprovar seu "trabalho visionário", postou em suas redes o documento protocolado, atribuindo a si uma conquista que já era fato consumado. 

O Preço da Encenação

Várias outras ações semelhantes pipocam nas redes sociais. Desde entrega de uniformes escolares, implantação do Refis, obras em vias públicas, muros caindo e milagrosamente reconstruídos e reformas diversas. Tudo ensaiado com o executivo: script pré-formatado em um teatro coreografado para criar a ilusão de trabalho no palco digital. Tudo pelos likes! 

A pergunta que se impõe é: quando a encenação fica tão evidente, o que resta além do constrangimento público? Restam os frutos amargos da própria irrelevância. Ao se reduzirem a meros instrumentos de divulgação do Executivo, os vereadores renunciam a seu verdadeiro poder: o de fiscalizar, propor e representar diretamente seus eleitores. Transformam-se em influencers do poder, hipnotizados pelos aplausos de um público que, muitas vezes, nem sequer foi quem os elegeu. 

Enquanto isso, a oposição ocupa o vácuo que deixam. E não precisa criar crises — basta somente apontá-las e colher dividendos políticos reais: nas dores tangíveis da população quanto à saúde, educação e serviços públicos.

No grande teatro da política, quem aceita o papel de coadjuvante acaba esquecido atrás das cortinas. O palco devora os que se contentam com migalhas de visibilidade. 

Fabio Chrispim Marin é consultor em Marketing Politico e Comunicação 


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CRÔNICA DE UMA CRISE NA SAÚDE: ENTRE A REALIDADE E A SÁTIRA

 





    A pequena cidade de Conservadora enfrentava uma crise econômica sem precedentes, que preocupava a população e deixava os cabelos brancos do prefeito literalmente em pé.
No setor de saúde, os reflexos eram graves: uma UBS fechada, Unidades Avançadas de Saúde (UAS) com horários de atendimento reduzidos e uma drástica limitação na emissão de guias para procedimentos e exames — pasmem — até mesmo os de fezes. A situação, no entanto, não era exclusividade do município: atingiu várias cidades que negligenciaram o planejamento para o aumento de receitas próprias. A participação do IPTU e do ISSQN no orçamento de Conservadora permaneceu praticamente inalterada nos últimos anos e com uma leve tendência à queda.

Preocupado com a dimensão da crise na saúde, o alcaide — acostumado a ouvir somente sua corte — resolveu subir ao alto do Monte da Humildade, centro de erudição, filosofia e espiritualidade, para pedir conselhos aos sábios mestres que lá viviam reclusos. Após dissertar sobre os problemas da cidade, ouviu algumas reprimendas, que não conseguiu prestar atenção devido aos incontáveis alertas do Zap que apitavam a todo instante. Preocupados com a falta de concentração do discípulo, os sábios prepararam um pergaminho com duas orientações para reverter a crise: 


1. Empatia e Comunicação
Mais empatia com a população. A prefeitura deveria fazer um comunicado oficial prévio para tranquilizá-la. Como não o fez, os mestres sugeriram ganhar tempo até conseguir recursos. Em consenso, recomendaram um pronunciamento oficial atribuindo a queda de receita à taxação de produtos brasileiros pelos EUA. Os mestres garantiram que os cidadãos verdadeiramente conservadores iriam acreditar piamente na história. Mas, antes — pois sempre há um "mas" ao consultar os sábios do Monte da Humildade —, ele teria de explicar para a população o motivo do aumento dos cargos comissionados, justamente quando a saúde pública dava seus primeiros sinais de colapso. Para os mestres, foi um pecado que nem mesmo líderes ávidos por bajular o parlamento ousarIam cometer.


2. Medida Drástica e Desumana (Mas Necessária):

Exonerar parte dos comissionados recentemente contratados, incluindo filhos e apadrinhados dos vereadores. O prefeito tentou argumentar com os mestres se não haveria outra solução. Para poder nomeá-los, quebrou o compromisso público de não contratar parentes de vereadores, além do que, era desumano e contra os seus princípios demitir filhos de vereadores. Segundo o mestre das finanças, a medida era de extrema necessidade e que geraria uma economia de cerca de 💰um milhão de reais anuais — valor suficiente para reabrir as UAS em período integral e realizar inúmeros procedimentos e exames. Como contrapartida aos edis, os mestres sugeriram que ele gravasse um vídeo agradecendo a "abnegação e altruísmo" dos vereadores por atenderem "uma demanda urgente da população que mais necessita". Também, deveria negociar com o presidente da Câmara a outorga do título de Vereador Altruísta do Ano — honraria que, certamente, deixaria os vaidosos vereadores orgulhosos.


Momento de Reflexão
Após uma sessão de Cantos Zen em um local do monte destinado ao relaxamento e à meditação, o prefeito sentiu-se mais aliviado e confiante. Permaneceu, porém, apreensivo com a reação de seus aliados na Câmara — que iriam perder os cargos negociados "no fio do bigode". Questionava-se onde encontraria forças para outro ato tão cruel! Lembrava-se do seu último ato desumano: dificultou o acesso ao concurso público para centenas de cidadãos Conservadorenses. As provas foram realizadas principalmente em outras cidades, impedindo que muitos conseguissem chegar aos locais do exame. Lembrava-se de não ter tido empatia com os concurseiros e de não lhes dar uma mínima explicação. Estrategicamente, para se livrar da culpa, conseguiu passar a responsabilidade para quem organizou o concurso. Águas passadas…Agora, exonerar filho de vereador com cargo comissionado! Seria muita maldade…


Antes de se despedir do Grão-Sábio Mestre — uma espécie de Dalai Lama local —, o prefeito recebeu um envelope com a instrução de abri-lo somente no Palácio Municipal.


De Volta à Realidade
De volta ao Palácio, a corte e os vereadores da base o tranquilizaram: não seria necessário cortar cargos nem gravar vídeos. Uma viagem a Brasília 🛫em busca de emendas com deputados federais resolveria tudo. Foram  felizes, cheios de esperança, gravaram vídeos e cantaram em uníssono a música oficial da excursão: 


🎵 Um vereador incomoda um prefeito. Dois vereadores incomodam, incomodam muito mais. Três vereadores incomodam um prefeito. Quatro vereadores..🎵. 


Nos gabinetes, posaram para fotos sorridentes como turistas no Cristo Redentor. Fizeram vídeos caminhando em câmera lenta pelos corredores do Congresso, com olhares profundos de quem estava "fazendo história". Voltaram de mãos vazias. A única emenda que conseguiram foi a dos vídeos, para postarem nas redes sociais como "produtiva agenda de trabalho". Quanto aos títulos de Vereador Altruísta do Ano, por unanimidade, eles não abriram mão da honraria.


 Dias depois, tranquilo e na solidão de seu gabinete, o prefeito lembrou-se da carta do Grão-Sábio Mestre. Abriu o envelope e leu a última recomendação:

"Prefeito, esperamos ter auxiliado sua administração a superar esta crise, que, embora previsível, não fez parte de seu plano de governo. Com planejamento, medidas fortes, empatia, humildade e uma boa comunicação, você sairá da crise. Se nada der certo, resta uma última alternativa: rezar e esperar que a política e o mercado se autorregulem. Afinal, como diria Ronald Reagan: “Não espere que a solução venha do governo. O governo é o problema.”

Ass.: Grão-Sábio Mestre do Monte da Humildade


Aviso importante: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com épocas, crises, prefeituras, prefeitos, vereadores, viagens a Brasilia, locais, slogans, cargos, nomes, alcunhas, títulos ou pessoas será “uma puta coincidência”.

Fabio Chrispim Marin