sábado, 4 de abril de 2026

OPORTUNISMO ARREGAÇADO

 



Em um recente evento musical, a ausência do prefeito foi sentida — e com eco, diga-se. Na plateia, apenas um único vereador, e da oposição. A explicação para o sumiço da base governista era simples: sem prefeito, não havia motivo para prestigiar nem que fosse o mais pujante dos eventos. Segundo fontes do Palácio, o prefeito estaria “refletindo sobre a agenda institucional”. Nos bastidores, porém, a verdade era outra: ele queria apenas sossego dos pegajosos vereadores.

Segundo um assessor que não quis se identificar, ele teria ouvido falar qualquer coisa,  que a gota d’água veio no carnaval. O prefeito tentou seguir o trio elétrico, mas mal conseguia andar: vereadores da base formaram uma escolta tão devota, quase uma procissão. Por onde o prefeito pisava, brotava vereador. Iam atrás, passo a passo, suando, ofegantes, deixando as esposas e filhos em casa.

— Eu e minha mulher tivemos uma discussão brava, e ela até pediu o divórcio — confessou um vereador — Mas valeu. Consegui ficar o tempo todo atrás do prefeito, mesmo contrariando as ordens domésticas.

No aconchego do lar, o prefeito desabafou à primeira-dama: “eles não me deixam em paz, querem saber onde vou, porque vou, com quem eu vou, e a  pergunta mais oportunista: quem vai com a gente e que horas a gente sai! Basta eu sair do gabinete eles brotam de todos lugares e, todos eles, pedem para fazer uma live sobre uma demanda urgentíssima da população que tanto precisa. Já pedi um milhão de vezes para me darem um pouco de sossego, mas não me ouvem, eles me  sufocam!”

Ainda em tom de desabafo, já testando os limites da paciência da esposa, que observava em silêncio confessional, continuou:

“Na Quinta-feira Santa, fui na feira buscar as sardinhas… ou a pescada branca que você pediu… e não tive um minuto de sossego! Era um tal de ‘Escolhe essa, prefeito! Olha a beleza dessa sardinha!’… ‘Se fizer um escabeche, fica uma maravilha!’… ‘A primeira-dama gosta de peixe? E as crianças?...Pediam uma selfie comigo escolhendo peixe… e, pasmem, me convidaram pra comer pastel enquanto a gente resolvia umas demandas pendentes…E não era para me preocupar com a conta, seus assessores pagariam o pastel com o vale alimentação”

Foi em um desses momentos de desabafo que o secretário de Saúde sugeriu uma ideia salvadora, drástica, pedagógica, sanitária e radical. Tratava-se de uma medida para testar a fidelidade e saber até que ponto os vereadores da base eram oportunistas. O prefeito escutou com atenção, mas ficou relutante. Pediu um tempo para pensar e consultar a primeira-dama (ela é que daria a palavra final, pois era um assunto de extremo interesse para ela). Com o aval recebido, convocou uma coletiva solene:

Como incentivo ao  Programa Municipal de Conscientização Prepucial,  serei o primeiro cidadão a me submeter voluntariamente à cirurgia de fimose. Pela saúde. Pela ciência. Pelo fim dos prepúcios!

A cidade parou.
A imprensa chapa branca ovacionou: “Uma Pequena Intervenção, Um Grande Movimento”

A imprensa marrom fez duras críticas ao oportunismo político: A base governista transforma a fimose em palanque

O Pasquim da cidade estampou em sua primeira página:“O Dia em que a Política local Arregaçou”

A Sociedade da Harmonia entre a Glande e o Prepúcio ficou indignada e emitiu um comunicado, no qual considerou a campanha preconceituosa.
Os urologistas sorriram.
A oposição desconfiou.
E os vereadores da base… hesitaram. Por três minutos. E aderiram 100%

No dia seguinte, abriu-se o cadastro do Programa Municipal de Conscientização Prepucial — “Gestão Sem Atritos". 

Formaram-se as primeiras filas, ocupadas pelos vereadores da base, seus auxiliares (ou os relutantes maridos das assessoras) e comissionados com cargos na prefeitura que aderiram “voluntariamente”.  Ao redor, a equipe deles operava em modo tiktoker premium: teste de luz, ajuste de enquadramento e emoção milimetricamente ensaiada. Registravam cada passo, cada suspiro e cada olhar profundo com precisão coreografada. Os vereadores, por sua vez, todos visivelmente comovidos e segurando apreensivo suas genitálias por cima da calça, alternavam entre semblantes graves, tensos e expressões de comoção.

 Tudo pronto. Gargantas aquecidas. Peitos estufados. Era a deixa solene para o início dos discursos memoráveis e compartilháveis. Depois de editados, foram postados nas redes sociais para cumprir sua verdadeira função: performar.

 — Sempre defendi a operação da fimose.

— Medida de homens corajosos, como o nosso prefeito
  — Estamos juntos, prefeito… até o fim dos prepúcios!

— Se o prefeito vai… nós vamos também. Unidos pelo mesmo propósito!

— Estamos alinhados, unidos e determinados — até o último os últimos cortes!

— Essa é uma decisão histórica. Nunca se cortou tanto pelo bem comum!

— Coragem é fazer o que precisa ser feito… mesmo quando dói.

O hospital conveniado viveu um dilema: não haviam leitos para tantos políticos com a mesma aflição. E o pior — todos exigiram dividir o quarto com o prefeito.

E, pela primeira vez na história do município, Executivo e Legislativo marcharam unidos — rumo ao centro cirúrgico. Induzidos somente e unicamente pelo oportunismo político. 

Moral da história: em política, quando se está atrás do poder, até a cicatriz prepucial se torna palanque político.

N.A: Esta é uma obra de ficção, portanto, qualquer semelhança com cargos, eventos ou com políticos recém operados de fimose, será uma puta coincidência 

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