quarta-feira, 22 de abril de 2026

A CARRETA AZUL NÃO VEIO…

 


O Novembro Azul do ano passado foi o mais frustrante da história dos homens itatibenses.

Estávamos cheios de expectativas. 

Durante todo o mês anterior, devido à intensa campanha do Outubro Rosa, nos bares e nas rodas de café, o assunto era um só:

 Mês que vem é Novembro Azul, né?
Será que a carreta vem este ano?
Vai ter mutirão ou será  cada um por si?
E o exame… vai ser o PSA ou… aquele método com o dedo?

 — Se a carreta vier ... .é no dedo mesmo….

Sempre tem  alguém mais experiente à mesa que baixava o tom e falava:

  — É rapidinho…nem dói…e  você nem vai perceber…

 —  Ora… se não vai perceber, por que todo mundo comenta depois?

Tem aqueles que tem a desculpa na ponta da língua para não fazer o exame.

Eu não preciso fazer o exame do toque… tenho um primo que tem o mesmo DNA e faz todo ano……Eu só espero sair o resultado dele.

— Meu plano de saúde é ótimo… o problema é que eu nunca tenho “tempo” para marcar consulta.

— Eu não tenho plano e vou ao postinho de saúde. O médico pede todo ano  um monte de exames, inclusive o PSA, mas, como ele não encaminha para o urologista fazer o exame de toque, eu fico bem quietinho…Eu que não vou contestar o doutor! 

— Vou esperar sair um exame novo… tipo aplicativo, que você faz pelo celular, sem ninguém enfie o dedo onde não deve.

— Ô… eu não vou não. Esse negócio aí mexe com a estrutura do cidadão… depois, nunca mais é o mesmo.

— Meu avô nunca fez esse exame… viveu até os 70 e poucos anos e somente morreu por causa de  um problema urinário.

— Se você for, eu vou com você… mas você vai primeiro, só para eu ver como é.

E assim, entre uma desculpa e outra, os homens vão empurrando o assunto com a barriga…Mas, no fundo, todo homem tem uma esperança secreta: que viesse a tal da carreta azul, resolvesse tudo de uma vez e depois, no bar, dissesse a todos que “foi no mutirão”.

Enfim, chegou novembro…

Esperávamos um mutirão festivo, com tenda, música, zumba, café e bolo.

Não veio nada. Nem um panfletinho sobre o tema.

Esperávamos prédios iluminados de azul…
Questionado, o prefeito foi direto:
—Todos os prédios da  prefeitura já não são pintados de  azul?

Esperávamos ser tratados como heróis.
Fomos tratados como medrosos:
Já devia ter feito isso desde os 40 anos.

Esperávamos o acolhimento.
Recebemos pressão:
Vai logo e para de frescura.

Esperávamos incentivo.
Recebemos chacota:
— Levou bombons e flores para o médico?

Esperávamos que o médico reconhecesse nossa coragem.
Ele disse apenas:
Relaxa… (O que, convenhamos, só piora a situação.)

Esperávamos que nossas mulheres fossem compreensivas…
Mas ouvimos:
Para de frescura, eu faço exames ginecológicos todo ano. Você tá com medo de quê?

Esperávamos a carreta azul, mas ela não veio.

Mas, entre o orgulho e o preconceito…
entre a piada e o constrangimento…
fica uma verdade que ninguém gosta de admitir:

A triste realidade é que o homem prefere fazer graça a fazer exame.

E enquanto a gente ri…
a estatística trabalha.

No fim das contas, o Novembro Azul em Itatiba passou…
Sem carreta, sem eventos, sem mutirões…

Mas deixou um lembrete importante:

Se não vier campanha,
se não vier carreta,
se não vier ninguém chamar…

Vai você!

Mesmo constrangido e com vergonha.

Mesmo reclamando.
Mesmo com medo.
Mesmo aguentando piada depois.

Porque, no final, meu amigo…
é melhor perder o preconceito
do que perder a vida.


Fabio Chrispim Marin


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