Nos próximos anos, os municípios brasileiros enfrentarão uma transformação profunda em suas finanças com a entrada em vigor da Reforma Tributária.
Enquanto cidades já se movimentam com planejamento e visão de futuro, Itatiba demonstra sinais claros de uma miopia administrativa, colocando-se em desvantagem competitiva e diante de uma séria ameaça ao seu próprio futuro.
A Reforma Tributária criará o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que substituirá o ISSQN e o ICMS. O cronograma é claro: início em 2026, com transição progressiva até a migração completa em 2033. Na prática, os municípios deixarão de gerir diretamente sua principal receita própria relacionada ao setor de serviços e enfrentarão dois retrocessos significativos:
- Perda de Liquidez Imediata: Atualmente, o ISSQN entra no caixa da prefeitura no mês seguinte à emissão da nota fiscal. Com o IBS, o repasse será centralizado e, posteriormente, rateado entre estados e municípios. Isso significa que o dinheiro chegará com atraso, comprometendo o fluxo de caixa e a capacidade imediata de gestão.
- Fim da Previsibilidade Orçamentária: O ISSQN é estável e reflete diretamente a economia local. Já o IBS, por depender da economia nacional e de critérios complexos de rateio, transformará o planejamento financeiro em um exercício permanente de incerteza.
A Reforma criará um verdadeiro divisor de águas. Os municípios que se prepararem desde já sairão na frente. Já aqueles que insistirem em uma visão curta e míope — como Itatiba — verão suas receitas encolherem progressivamente, perdendo competitividade e capacidade de investimento.
Os números de Itatiba e região
Um estudo do economista Gildo Canteli*, publicado no portal do Jornal de Jundiaí, escancara essa realidade. Itatiba ocupa a 8ª posição em desempenho de receitas próprias per capita entre os 13 municípios da Região Ampla de Jundiaí*. O ranking de Canteli compara o desempenho de IPTU, ISSQN e ITBI e mostra, diretamente, quanto cada habitante contribuiu, em média, para os cofres municipais. Os dados evidenciam a distância entre o desempenho econômico de Itatiba e o observado na região.
REGIÃO AMPLA DE JUNDIAÍ - ECONOMISTA GILDO CANTELI
RECEITA PRÓPRIA PER CAPITA DE IMPOSTOS MUNICIPAIS
ANO BASE 2024 EM R$
| MUNICÍPIO | IPTU | ISSQN | ITBI | TOTAL |
|---|---|---|---|---|
| CAJAMAR | 807,47 | 1.551,18 | 164,69 | 2.523,34 |
| VINHEDO | 889,32 | 1.003,19 | 234,81 | 2.217,32 |
| ITUPEVA | 983,34 | 834,04 | 321,29 | 2.138,67 |
| JUNDIAÍ | 554,09 | 1.268,55 | 308,68 | 2.130,32 |
| VALINHOS | 898,53 | 1.022,63 | 185,10 | 2.106,56 |
| LOUVEIRA | 523,84 | 881,75 | 507,37 | 1.912,96 |
| JARINÚ | 685,10 | 690,52 | 245,85 | 1.621,47 |
| ITATIBA | 721,49 | 638,31 | 148,62 | 1.509,42 |
| CABREÚVA | 261,07 | 644,77 | 96,67 | 1.002,51 |
| CAMPO LIMP PTA | 461,06 | 244,66 | 44,58 | 750,32 |
| PIRAPORA B.JESUS | 280,06 | 253,34 | 26,28 | 559,68 |
| VÁRZEA PAULISTA | 299,32 | 202,37 | 51,30 | 552,99 |
| MORUNGABA | 155,88 | 293,07 | 63,12 | 512,07 |
A tabela acima é uma prova concreta da miopia administrativa de Itatiba, que continua negligenciando a única saída para um futuro próspero: o fortalecimento agressivo de suas receitas próprias.
A Miopia em Números Oficiais
Os dados do Portal da Transparência da Prefeitura expõem um diagnóstico claro e alarmante sobre a saúde financeira de Itatiba. Tanto o IPTU quanto o ISSQN, que deveriam funcionar como pilares sólidos do orçamento municipal, apresentam desempenho frágil e aquém do potencial da cidade. Essa miopia fiscal aprofunda a dependência de repasses governamentais e evidencia o subaproveitamento da nossa capacidade de gerar receita própria. A tabela abaixo, mostra a evolução da arrecadação entre 2021 e 2025:
| ANO | IPTU | ISSQN |
|---|---|---|
| 2021 | 7,24% | 8,10% |
| 2022 | 9,37%* | 8,32% |
| 2023 | 6,98% | 8,80% |
| 2024 | 6,56% | 8,70% |
| 2025* | 6,76% | 8,72% |
| Média | 7,38% | 8,53% |
- IPTU em colapso: trajetória em queda, com a média no período de 7,38%.
- ISSQN estagnado: a participação oscila em uma faixa muito estreita (8,10% a 8,80%), com média de 8,53% e sem qualquer tendência de crescimento.
A arrecadação de Itatiba encontra-se, portanto, em plena letargia. A inação pode custar caro. Se persistir, essa miopia fiscal deixará Itatiba cada vez mais vulnerável diante dos desafios que já se desenham com a Reforma Tributária.
A conta já chegou…
Itatiba já sente, na prática, os efeitos de não ter construído ao longo dos últimos anos uma política consistente de desenvolvimento econômico, especialmente nos setores de serviços, logística, turismo e no apoio às PMEs. São áreas estratégicas para qualquer cidade que busca crescimento sustentável, mas que, aqui, foram — e continuam sendo — tratadas com uma visão curta e limitada… verdadeiramente míope. Os números apresentados ao longo deste artigo escancaram essa realidade: há uma miopia crônica na condução econômica do município.
A atual falta de recursos da Prefeitura — que já impôs cortes na saúde e em diversos serviços públicos — não é acaso. É o resultado direto da ausência de políticas permanentes de desburocratização, estímulo ao empreendedorismo e fortalecimento das atividades econômicas locais. Políticas que, se existissem, teriam ampliado a base de arrecadação e atraído novos investimentos. Itatiba tem plenas condições de liderar a Região Ampla de Jundiaí, mas a estratégia adotada pelo prefeito tem reduzido a cidade a um mero papel secundário.
Ainda há tempo para o prefeito decidir qual legado deixará: conduzir Itatiba ao patamar de uma das economias mais fortes e competitivas da região ou desperdiçar, em oito anos de mandato, a chance histórica de transformar a estrutura econômica da cidade. Fazer de Itatiba uma referência de desenvolvimento econômico e social depende de escolhas — e o momento de escolhê-las é agora.
Fabio Chrispim Marin
Consultor de Comunicação, Marketing Político e Estratégico
Notas:
- *IPTU e ISSQN de 2025: como o ano ainda não terminou, os índices podem sofrer alterações.
- *Região Ampliada de Jundiaí: Cabreúva, Cajamar, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Pirapora do Bom Jesus, Valinhos, Várzea Paulista e Vinhedo.
Fontes:
- *Portal Transparência da Prefeitura de Itatiba
https://transparencia-itatiba.smarapd.com.br/#/ - *Estudos do economista Gildo Canteli sobre as arrecadações dos municípios da Região Ampliada de Jundiaí:
https://sampi.net.br/jundiai/noticias/2919118/opinioes/2025/07/receita-per-capita-de-impostos-municipais-no-ano-base-2024
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