quarta-feira, 8 de março de 2023

Política é e Deve ser Assunto de Mulher

 



Mulheres na Política Itatibense


Uma mulher na política muda a [própria] mulher.

 Muitas mulheres na política mudam a política”

Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile

 

Desde a eleição municipal de 1947, a primeira do período de redemocratização, os itatibenses elegeram 243 vereadores. Desse grupo, somente 14 do sexo feminino.  Em 73 anos, tivemos apenas 5,76% de mulheres na história da Câmara Municipal de Itatiba. A quebra da hegemonia masculina no Legislativo itatibense ocorreu nas eleições de 1982.

O feito tem a autoria da advogada Lia de Araújo Oliveira Marchi. Dra. Lia, quatro anos depois, foi também a primeira mulher a ser reeleita vereadora em Itatiba, em 1986. Predestinada a quebrar reinados masculinos, ela derrubou mais um tabu em 1991, quando foi eleita a primeira e única mulher a presidir a nossa edilidade. Em 1992, Dra. Lia encerrou um período de dez anos como nossa vereadora.

A partir desse feito, mais 13 vereadoras foram eleitas para a Câmara Municipal: Marina Bredariol Almeida (1997-2000); Ester Dalcin Sibinelli, dois mandatos (1997-2004); Irene Araujo de Camargo Pires Fumach, três mandatos (2001-2012); Roselvira Passini (2017-2020); Deborah Cássia de Oliveira (2017-2020); Elizabet Tsumura (2017-2020); Luciana Bernardo (2021-2024); Leila Bedani, dois mandatos (2016-2024). A eleição de 2016 foi a que mais deu vitória a mulheres. Quatro se elegeram, porém, Elizabeth e Roselvira licenciaram-se para assumir cargos administrativos na Prefeitura.

Duas vereadoras merecem destaque especial pela dedicação à política itatibense: as professoras Marina Bredariol Almeida e Irene Araújo de Camargo Pires Fumach.

Marina demonstrou sua determinação e coragem para servir Itatiba ao longo de 20 anos de carreira política. Desde sua primeira e única que foi eleita, em 1996, disputou nove pleitos. Por razões que só os astros e deuses da política local podem explicar, não conseguiu ser eleita prefeita de Itatiba, cargo que disputou em três ocasiões. Também disputou por duas vezes o cargo de vice-prefeita, sem sucesso. Porém, obteve expressivas votações locais em suas candidaturas à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados. Em 2002, conquistou 43,2% dos votos em Itatiba e, em 2006, 42,35%. Os porcentuais não foram suficientes para elegê-la. Neste século, nenhum candidato itatibense chegou perto desses números de Marina.

Irene disputou quatro eleições e foi eleita em três delas. Em 2012, sua última campanha, conquistou 921 votos, mas não se elegeu em função do quociente eleitoral. Houve vereadores empossados com menos votos. Irene foi a candidata mais votada na eleição de 2000, quando obteve 1.589 votos –recorde ainda não superado por nenhuma outra candidata. Ao longo de 12 anos, foi uma das primeiras-damas mais queridas e admiradas pela população itatibense e inovou em suas ações do Fundo Social de Solidariedade.

Em 1992, Itatiba registrou o lançamento da primeira candidatura de mulher à Prefeitura, a de Maria Eunice de Lourdes Milda Mancin de Camargo. Obteve 13,69% dos votos, que não foi suficiente para elegê-la. Foi a primeira-dama que quebrou paradigmas e ditou uma nova diretriz para a função. Criou o Fundo Social de Solidariedade e foi Diretoria de Saúde e Promoção Social.  Era conhecida por não ter medo de nada, tanto que em uma das enchentes que assolou Itatiba na década de 1980, entrou no meio das enxurradas para socorrer famílias. Eunice foi também candidata a vice-prefeita em 1996, mas não se elegeu.

Se as leis e regras eleitorais de 2022 forem mantidas no pleito de 2024, vejo boas notícias para as potenciais candidatas. Duas merecem atenção:

·         Redução do número de candidatos: na eleição municipal de 2020, cada partido podia lançar até 26 nomes. Agora, serão até 18 por legenda ou federação (100% das cadeiras +1), das quais seis vagas serão reservadas para as mulheres (30%).

·         Recursos e cotas: a Emenda Constitucional 117 prevê acesso das candidatas a, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário; a mesma cota valerá para o tempo de propaganda em rádio e TV.

Com a redução do número de candidatos e mais tempo de mídia e recursos financeiros para as mulheres, os caciques terão de esquecer a velha prática de preencher a cota feminina com as amigas e familiares, somente para cumprir os termos da lei. Precisarão contar com mulheres empoderadas, com potencial de voto e projetos capazes de atender às demandas da população. Os caciques têm de investir desde já nas possíveis candidaturas femininas.

A Câmara Municipal de Itatiba precisa de maior presença feminina. Mulheres são mais orientadas para as pessoas do que os homens, enxergam o mundo desde a perspectiva do grupo, do "nós". Elas têm empatia com as suas pautas. Além do preparo para enfrentar qualquer pauta política a ser apresentada durante a legislatura, compõem a parcela com real conhecimento sobre saúde, aborto, educação, assédio moral e sexual, maternidade, segurança alimentar, igualdade de gênero, empobrecimento menstrual, jornada dupla de trabalho, desigualdade salarial, sub-representação em cargos eletivos e na administração pública, entre outros tópicos.

As mulheres representam mais da metade da população brasileira e, em pleno século 21, não podem continuar sub-representadas na política. O patriarcalismo esgotou-se, o preconceito não se sustenta e a competência das mulheres em funções públicas está mais do que confirmada. Elas têm o poder de criar propostas claras, objetivas, eficientes e de práticas para a melhoria da vida dos itatibenses. Há necessidade inquestionável de termos mais mulheres atuantes no campo da política.

Esperamos que numa eleição, não tão distante, se quebre mais um tabu, e Itatiba eleja a sua primeira prefeita.


Artigo publicao no Jornal de Itatiba - 08/03/2023 

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Artigo "Política é e Deve ser Assunto de Mulher" publicado no Jornal de Itatiba 08/03/2023


 

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Não é só Carnaval

 


            A família itatibense que gosta do carnaval voltou a sorrir. A Praça da Bandeira novamente lotada, sob o olhar feliz de dona Helena Pupo, Homenageada que foi pelo bloco Demônios Acadêmicos da Benjamin e na arte de Cleverton Gomes. Cinco dias de uma imersão carnavalesca, que há tempos nossa cidade não presenciava. Foi maravilhoso!

Tivemos reis, rainhas, princesas, a centenária Banda Santa Cecília, os Demônios da Benjamin com seus 45 anos, sendo que por 43 deles abriu o nosso carnaval. O novo percurso do bloco Tradição, com a batuta da bateria nas mãos de Giba Jesus, herdeiro do querido mestre Birro. O bloco percorreu do Bar Ramalho na Pizza e Almeida, agora Ladeira do Samba, até o Clube 7 de Setembro, torrão natal da Unidos da Campos Salles e da família de Nhá Dita Maranhão. Uma festa que uniu a tradição, cultura e história.

Os Blocos se consolidaram nos grandes centros e, em Itatiba, não foi diferente.  Com a gigante Namoradeira, Sputnik e Desbocados vimos uma evolução emocionante no nosso carnaval de rua. Eles se tornaram as principais atrações das tardes do reinado de Momo. Outra grande alegria veio lá do Jardim das Nações, com o ressurgimento, como uma Fênix, da bateria da Escola de Samba Águia Dourada, de boas lembranças com os velhos companheiros de carnavais, Niltinho e Tonhão.

        As bandas Piracema, Por do Som e o grupo Pegada Nossa, compartilharam com entusiasmo a alegria dos itatibenses. O que é mais importante: tudo gente de quem! Todas formadas em sua maioria por músicos itatibenses, que conhecem a nossa cultura e gosto musical. Sucesso certo e garantido!

Outra boa notícia: os clubes estão se reinventando. Voltando, criando alternativas e mantendo as suas tradições.

Neste contexto, peço licença a Noel Rosa para plagiar um pequeno verso de "Feitio de Oração". Podemos dizer que o itatibense "Sambou e chorou de alegria. Sorriu de nostalgia".

Faltou apenas uma grande matinê para as crianças, que, com certeza, ocorrerá em 2024.

Não é só carnaval. Os festejos movimentam toda a economia da cidade. Costureiras, confecções e armarinhos, lojas de roupas e calçados, bares, restaurantes, sorveterias, cozinheiros e auxiliares, garçons, músicos, seguranças, açougues, mercados, adegas, enfim, todos os setores que fazem a nossa economia girar. E faz girar colaborativamente, onde um ajuda o outro. Aqui em Itatiba, é onde a maioria deles reinveste os seus ganhos e contratam profissionais. A roda gira...

Ganha até quem não gosta da folia!

A prefeitura acertou em apostar nos blocos e nas bandas locais. O carnaval é considerado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o natal do turismo brasileiro. Itatiba é um Município de Interesse Turístico, com potencial e uma boa estrutura para promover um grande carnaval.

Um Corredor da Alegria! Que poderia ser realizado nas quatro praças do centro: Fórum, Rosário, Bandeira e Cadeia, mais o Mercadão, a região do Pabreu Mall, a Ladeira do Samba e o 7 de Setembro.

 Parece loucura, mas...

Não é só carnaval. Com um evento bem planejado, Itatiba pode se posicionar como um destino preferido de famílias que buscam uma cidade segura, alegre e perto da capital para curtir a folia. Precisaria unir num grande projeto as secretarias de Cultura e Turismo e do Planejamento. Convocar o SEBRAE para capacitar e treinar o comércio, prestadores de serviços e ambulantes para o evento e, se possível, um gestor profissional para o turismo e seu trade.  Precisa evoluir gradualmente, acertando o que não deu certo, e num futuro próximo, teremos um carnaval diferenciado e único. As cidades de Capitólio, São Luiz do Paraitinga e Serra Negra, são as referências para se estudar.

Não é só carnaval. É turismo. Uma indústria limpa, aonde o dinheiro vem e fica.

Não é só carnaval, é desenvolvimento. É geração de emprego e renda.


Artigo Publicado no Jornal de Itatiba - edição virtual, em 25 de fevereiro de 2023

 

Fabio Eduardo Chrispim Marin

Publicitário, Consultor de Marketing e Presidente dos Demônios Ac. da Benjamin desde 1977, ou seja, desde sempre.

 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Um Causo da Velha Política


No Grande Império há uma prática comum de troca de favores entre o Executivo e o Legislativo para aprovação de projetos e apoio político recíproco. A prática é conhecida como a Velha Política ou o "toma lá dá cá".  A principal referência desse sistema é o Centrão, agrupamento de legendas presentes no Parlamento beneficiado com os orçamentos secretos e outras emendas parlamentares.

 Em um reino nem tão distante, houve uma época em que alguns senadores estavam bastante inquietos e dificultavam algumas iniciativas da primeira dinastia Tucana. Então, o soberano, inspirado na iniciativa eficaz do Império, criou também uma "moeda de troca": o Conselho de Assuntos Inexpressivos. Acalmou os rebeldes do Legislativo e governou por oito anos. Não conseguiu acalmar a sábia oposição e a opinião pública que, legitimamente, não deixaram os Tucanos fazerem o seu sucessor. Um sucessor que o Alto Tucanato também não queria.

Subiu ao trono o Jovem Rei I, que sentiu a necessidade de aumentar as benesses para o Centrão. Criou os Sete Vice-Reinos. Distribuiu quase todos os cargos entre os senadores da sua base e, assim, governou por quatro anos até ser deposto, legitimamente por plebiscito. Agradara os senadores do seu grupo, mas não conseguira convencer a totalidade dos seus súditos.

A dinastia Tucana retorna ao poder com o Rei Tommaso IX. O novo soberano, conhecido pela sua polidez e diplomacia, fez algumas alterações pontuais no relacionamento com os senadores. Com a medida, conseguiu a adesão de dois grandes partidos da oposição, ambos atraídos pela esperança de bons apanágios.

 O relacionamento dos últimos três reinados com o senado foi o tema da tese de Pós-Doc. "É assim porque foi sempre assim", de um renomado Professor Doutor Historiador. Depois de muito pesquisar nas atas e regimentos da concepção do Conselho de Assuntos Inexpressivos, ele notou que no decreto da sua criação, o artigo I enunciava como soft skills mínimo e obrigatório para o cargo de conselheiro da pasta era pertencer a uma "linhagem política". Descoberta que esclareceu definitivamente a legitimidade pelo qual a primeira Dinastia Tucana e o Rei Jovem I, só nomearem as esposas e irmãos dos confrades políticos.

O Rei Tommaso IX revogou a condição da "linhagem política". Instituiu que a condição sine quo non para ocupar o cargo de Conselheiro de Assuntos Inexpressivos era ser senador e membro da "Fraternidade de Apoio Real". Assim, o objetivo de agradar os senadores seria mantido, mas sem a hereditariedade familiar.

Quanto aos Sete Vice-Reinados, o enunciado do Artigo I da lei que regulamentou a sua criação, diz que os vice-reis não precisavam despachar nas suas regiões, poderiam ser estrangeiros e sem nenhum conhecimento do seu vice-reinado. Já o Artigo II deixa clara a preocupação do Rei com possíveis desvios de funções: nada de muitos afazeres a fazer no seu território. Os dois artigos foram mantidos Ipsis litteris por Tommaso IX.

Na sua tese, aprovada com Distinção e Louvor, o Professor Doutor Historiador faz um resumo de todas essas informações e, também, como encontrou a citação definitiva que esclareceu o seu ponto de vista sobre o poder do centrão no reino. Como ele era neto de um surdo e com o avô aprendeu a se utilizar da técnica da surdez seletiva, fazia plantões diuturnos na Casa de Leis, onde todos tinham a certeza que ele não escutava nada. Mas escutava tudo! Certa ocasião, enquanto lia os jornais na sala de café, presenciou um encontro de um grupo de senadores neófitos com o presidente do Senado. Eles propunham extinguir a Secretaria de Assuntos Inexpressivos e os Sete Vice-Reinados. Com estudos e planilhas, argumentavam que o reino economizaria mais de bilhão de Coroas Reais por ano, recursos que poderiam ser usados para a educação e a saúde.

Para esclarecer o objetivo da tese, o Doutor Professor Historiador, transcreveu minuciosamente o que ocorreu e ouviu na reunião:

"O decano presidente do Senado se enfureceu, cerrou os punhos e socou com raiva a mesa, derrubando as xícaras e os copos no chão". Assustados, os jovens senadores acuaram. Ele fez um sinal com as mãos pedindo um tempo para retomar o controle emocional. Fez uma longa pausa. Tirou seu Taurus 38 do coldre - é membro do clube de tiro ao Álvaro, colocou em cima da mesa, sem tirar os olhos dos jovens políticos. Alisou com o mata-piolho e o fura-bolo os seus espessos bigodes, parecia ler as planilhas, mas como um bom decano, analisava as consequências políticas do projeto. Mais calmo e com a sapiência dos seus dez mandatos, colocou um ponto final na conversa:

— Vejam bem. O sistema É assim porque foi sempre assim! Vocês são novos aqui, então, prestem bem atenção no que considero ser o mais importante: Deus nos livre ser oposição! Querem que nossos ancestrais revirem no túmulo? Caiam já fora daqui!

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, cargos, reis, decretos, acontecimentos ou fatos da vida real terá sido mera coincidência

Publicado no Jornal de Itatiba em 24/09/2022

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

UTOPIA

 




"Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei"

Manuel Bandeira, poeta (1886-1968).

Sonhei com Utopia, uma adorável cidade no reino de Pasárgada. "Lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente", que na política a situação faz oposição e a oposição vota a favor da situação. Se o projeto for bom para a população, aprovam e, se for ruim, reprovam. Simples! Ocasionalmente aparecem alguns dissidentes magoados. Nesses casos, no final da votação, o presidente da casa cita (por determinação do regimento), Manuel Bandeira: "A tiririca sitia os canteiros chatos".

O legislativo "tem um processo seguro" de barrar nomeações. Certa ocasião, para o cargo de diretor do "Distrito Imaginativo", foi indicado um candidato que residia 30 léguas distante da cidade. Na sabatina do Parlamento Municipal (igual o Senado para ministro do STF), o indicado não soube explicar onde ficavam os principais bairros da regional para a qual fora nomeado. Nomeação rejeitada por 15 x 1. A fundamentação nos autos pelo relator foi incontestável: como pode ser diretor do Distrito Imaginativo se não conhece a Fantasia, o Sonho e a Ilusão?

Lá também "tem um processo seguro" (diferente do primeiro), de impedir a nomeações de parentes, cônjuges, agregados, noras, genros, sogras e, principalmente, os contraparentes e namoradas que os vereadores nunca tiveram. O artigo 1º do regimento do parlamento é claro: "Proibido o lirismo do nepotismo". O artigo 2º corrobora o 1º: "Nesta casa, a 'Lei de Gerson' não tem nenhuma prerrogativa".

No sonho (onde tudo é possível), fui eleito alcaide de Utopia. Fizemos uma transição e reformas como um "Cowboy fora da Lei". Havia muitos amigos do rei querendo manter as benesses conquistadas (lá tem muito peso ser amigo do rei).Tanto que, numa antiga gestão, só no primeiro escalão eram oito advogados e algum cargo de moleza (estritamente técnico!), todos amigos do rei. Para qualquer indagação, os doutores tinham sempre as mesmas desculpas: "Data venia! A priori, existe necessidade urgente dos processos a processar, mas veja bem, somente se não houver demandas a demandar! Mas tudo irá depender do parecer do Amicus curiae".

E, quanto ao cargo de moleza (estritamente técnico e amigo do rei!), como uma andorinha vivia dizendo:

-"Passei o dia à toa, à toa".

Em Utopia era corrente os edis irem aos eventos para tirar fotos com o alcaide. Bastava ele estar numa cerimônia ou fiscalizando uma obra para vários deles aparecerem com o celular em punho para as selfies. Para resolver o excesso de uso e abuso do lucro político do serviço alheio, foi sugerido "ao pé da orelha" para o presidente de um bloco carnavalesco, conhecido na cidade por sua ironia e crítica política, fazer um concurso pelas redes sociais: "O Papagaio de Pirata da Semana". Só teve uma edição e não houve mais nenhuma selfie com o alcaide.

Olha que ser prefeito não é fácil, até no sonho eu já estava cansado. Eram eventos de formaturas, premiações, inaugurações, reinaugurações, re-re-reinauguração, corridas, caminhadas, intermináveis e tediosas reuniões e a carreta furacão. Ufaaaaa! Prefeito precisa descansar! Eu estava em Utopia no reino de Pasárgada, então aproveitei... "e quando estiver cansado/ deito na beira do rio/ Mando chamar a mãe-d'água/ pra me contar histórias/que no tempo de eu menino"... O ribeirão ainda ostentava orgulhoso a sua mata ciliar e tinha suas nascentes preservadas.

Num repente o meu sonho mudou, vi um alcaide (que não era eu!) na beira do ribeirão e, pasmem, estava "dançando com o ex-prefeito municipal". Juntos comemoravam as suas marcas pessoais no combate às enchentes. Pensei: é um momento "tão Brasil..."e "ninguém se lembra de política". Achei estranho, pois, lá em Utopia, impera a mentalidade de um "novo poder" e "um processo seguro" de envolvimento participativo da sociedade nos principais projetos da municipalidade. Todas as iniciativas da administração são validadas pela comunidade! Lá não tem problemas de comunicação, crises e desgastes políticos. E "não trucidariam o rio!"

Acordei bem confuso! Não conseguia lembrar o que era sonho ou realidade. Naquele momento realmente eu desejei ir-me embora pra Pasárgada! Pedi desculpas ao poeta e ouvi um sussurro no meu ouvido:

- "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino"

Pedi desculpas novamente, mas tive que desobedecer. Achei que o melhor para a ocasião era cantar Raul Seixas:

"Mamãe, não quero ser Prefeito.

Pode ser que eu seja eleito"

Raul Seixas (1945-1989) – Cowboy Fora da Lei

Fabio Chrispim Marin

Publicitário, presidente dos Demônios Acadêmicos da Benjamin - desde sempre. Ocioso e sem o carnaval.

Publicado no Jornal de Itatiba de 08/01/2022. Coluna Opiniões.

Esta é uma obra de ficção, baseada na obra do poeta Manuel Bandeira, apesar de qualquer semelhança com nomes, apelidos, profissões, políticos, alcaides, edis, pessoas, fatos, poetas, poemas, acontecimentos ou fatos da vida real terá sido mera coincidência.

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sábado, 31 de julho de 2021

Os Móveis e a Miopia

 



Na fábrica, produzimos cosméticos; nas lojas,

vendemos sonhos e ilusão de beleza”

Charles Revson. Fundador da Revlon

 

Na década de 60, o professor Theodore Levitt de Harvard escreveu um artigo denominado “Miopia em Marketing”, que tornou-se clássico sobre o assunto. Basicamente,  o professor destaca a importância do empresário em definir qual é o seu negócio. Não o produto final, mas qual a sua função genérica ou quais as necessidades que o produto ou serviço atende. O foco deve ser o cliente. Como exemplo, ele cita as estradas de ferro americanas, que entraram em decadência, pois os empresários do setor achavam que o negocio era a estrada de ferro quando, na realidade, era o transporte. Trazendo este mesmo exemplo para Itatiba, temos a TCI, que não é uma empresa de ônibus, mas sim, uma empresa de transporte coletivo. Se, no futuro, as pessoas passarem a ser “teletransportadas”, a empresa terá de se converter em um agente teletransportador. Outro exemplo é o Jornal de Itatiba, cujo produto final, hoje, é uma série de serviços ao leitor no formato de jornal impresso em papel: informação, conhecimento, cultura entretenimento e credibilidade. O Jornal tem de oferecer todos esses serviços, não importa a forma e o veículo de comunicação. Sua preocupação será a maneira como esse conjunto de comunicação vai chegar ao consumidor final.

Exemplo marcante em nossa cidade foi a indústria do móvel colonial. Houve um equívoco até no famoso posicionamento da cidade como “A Capital Brasileira do Móvel Colonial”. Todos acreditaram que o foco desse setor estava nos famosos móveis coloniais de Itatiba. Tivemos um grande momento econômico com esses produtos, que geraram muito emprego e renda para a cidade. Os empresários e o poder público investiram em muitas feiras e eventos. Mas, nas últimas décadas, o consumidor mudou seus hábitos, atitudes, necessidades e desejos. Quando o setor floresceu, não se investiu - ou se investiu muito pouco - em pesquisa e planejamento de marketing. Se os empresários tivessem apostado nessa via, poderiam ter descoberto há mais tempo qual o negócio da indústria moveleira de Itatiba e posicionado a cidade em um segmento que pudesse gerar renda e emprego por muito mais tempo. Segundo a tese do professor Levitt, a nossa indústria moveleira vendia - ou vende - decoração, design, mobiliário de luxo, status, reconhecimento etc. Itatiba poderia ter se tornado uma referencia mundial em design de móveis.

Mas, a indústria do móvel está ativa, continua a gerar emprego e renda. Temos um novo mix de produtos, boas lojas, boas indústrias e um shopping de móveis que investe constantemente em comunicação. Temos ainda o Senai de Itatiba, uma das nossas maiores conquistas nos últimos trinta anos, que está sempre empenhado em qualificar o trabalhador. Pelos preços praticados, temos um público-alvo bem definido. A logística (entrega, montagem, localização das lojas) já tem uma estrutura montada. O que está faltando é a promoção. Neste ponto, o poder público poderia ser o principal agente. O desafio será fazer de Itatiba um grande centro de compras e de lazer para um público das classes A e B, com um posicionamento claro e bem definido como: Itatiba: Design Moveleiro com DNA”.

Fabio Chrispim Marin

Artigo publicado no Jornal de Itatiba em 14/06/2009


 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

O desafio de gerar emprego e renda em Itatiba

 



O prefeito eleito de Itatiba, dr. Thomás Capeletto de Oliveira, e seus futuros secretários, tomam posse com uma pauta imensa de trabalho. Além da prioritária saúde pública, comprometida pela Covid 19, gerar empregos será certamente uma das necessidades mais urgentes. Não se trata de uma questão-chave apenas para Itatiba, mas também de toda a sua região. Quase metade da força de trabalho paulista (48%) está em situação vulnerável no mercado de trabalho, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Itatiba, infelizmente, não escapa dessa realidade, que se tornou mais aguda durante a pandemia.

Neste artigo, sugiro oito ações administrativas que, em minha opinião, serão benéficas para a geração de emprego e renda em Itatiba. Algumas das recomendações são até mesmo fácil de serem implementadas. Outras dependerão de investimentos públicos, de medidas jurídicas, de compromissos com a inovação e, acima de tudo, de apoios políticos. A adoção de Parceria Púbico-Privada (PPP) nesse campo, bem como o apoio do Senai, Senac, Sesi e Senar e a participação efetiva da Aicita e do Sebrae, pode facilitar a criação de um círculo virtuoso no mercado de trabalho da cidade. Sugestões:

1.   Mercadão. O mercado municipal merece ser tratado com carinho e respeito e ser reposicionado como Mercadão, protagonista na área de alimentação de Itatiba. Seus espaços vazios podem ser ocupados periodicamente por pequenos produtores rurais, pelas indústrias alimentícias e de bebidas da cidade para a exposição, venda e degustação de seus produtos.

2.   Indústrias já instaladas. A criação de um departamento municipal de networking e de soluções para o desenvolvimento industrial certamente trará vantagens para às empresas. A proposta seria mapear as principais demandas desses empresários quanto a incentivos, logística e formação de mão de obra especializada e adotar políticas públicas inovadoras para solucioná-las.

3.   Cluster de decoração. Itatiba já se consolidou como um polo de fabricação e venda de móveis, o que atrai a visita de turistas, mas precisa dar um passo adiante e se reposicionar como centro de inovação em decoração. Revigorar e reurbanizar a região da avenida 29 de Abril e da rua Luiz Scavone, onde se concentram as inúmeras lojas de decoração e políticas públicas municipais seriam decisivas para o investimento privado na abertura de novas lojas e indústrias moveleiras.

4.    Incubadoras.  O projeto de criação de incubadoras está no plano de governo do dr. Parisotto e deve ser aproveitado. Basicamente, consiste em oferecer aos pequenos empreendedores um espaço físico com toda estrutura necessária para iniciarem as suas atividades. Trata-se de um incentivo e fôlego inicial para a formação de novos profissionais e empresas. A cidade dispõe de locais para esse fim, como o Palacete Damásio, na esquina da Praça da Bandeira. No mesmo espaço pode ser implantada a Incubadora de tecnologia. Devemos nos lembrar de que a Apple nasceu em uma garagem. Parcerias da Prefeitura com a Universidade São Francisco (USF) e outras instituições educacionais da região teriam imenso valor para o desenvolvimento de um polo de startups.

5.       Incubadora de pequenas indústrias e prestadores de serviços. No mesmo molde das duas sugestões anteriores, a proposta é permitir a criação de pequenas empresas em espaço temporário fornecido pela Prefeitura. O custo pode ser reduzido por meio de PPPs. Sugiro o espaço antes ocupado pelas duas unidades da Têxtil Elizabeth, no centro da cidade, para esta finalidade.

6.   Grande Glicério. O centro comercial de Itatiba é uma região que vai além da rua Francisco Glicério. Inicia-se na rua Maria de Lourdes Abreu e termina nas proximidades da Santa Casa. Esse grande corredor de compras e de lazer dispõe de lojas âncoras que poucos centros comerciais e shoppings da região têm. Reurbanizar essa grande área e criar facilidades de acesso a ela certamente gerarão maior movimento. Os incentivos para estacionamentos e a criação de uma linha de micro-ônibus gratuitos para circular nesse trajeto o seu percurso seguramente contribuirão para a melhoria do acesso e do trânsito.

7.      Turismo. Itatiba é um Município de Interesse Turístico, faz parte do Circuito das Frutas, sedia o Zooparque, recebe eventos em suas fazendas, conta com um centro histórico, belos parques e tem uma excelente localização. Mas precisa de boas campanhas de comunicação e da integração dessa atividade com o comércio local. Com o turismo, o dinheiro vem e fica na cidade, além de gerar empregos e renda.

8. Centro Empresarial e Logístico. As últimas administrações municipais se mostraram míopes em relação a uma vantagem geográfica de Itatiba. A cidade está ao lado da Rodovia D. Pedro I e próxima às principais rodovias do Estado e do Aeroporto de Viracopos. Nossas vizinhas Jundiaí, Jarinu, Louveira, Vinhedo e Valinhos enxergaram a oportunidade similar para se tornarem centros empresariais e logísticos. Itatiba conta com espaços para a atração desses investimentos e, para a construção de sua infraestrutura, pode se valer 100% das PPPs.

Vivemos, lamentavelmente, um momento de incerteza não só em Itatiba. A pandemia interrompeu hábitos e mudou a maneira de se fazer negócios. A economia da cidade não voltará à normalidade imediatamente e é bem provável que, ao nos vermos livres da ameaça do coronavírus, nos vejamos diante de um "novo normal". À gestão do prefeito Capeletto caberá os difíceis desafios de preparar a economia de Itatiba para se tornar mais ágil e competitiva. Trata-se de prepara-la para o futuro.

Artigo publicado no Jornal de Itatiba, coluna Opiniões. 31/12/2020

Fabio Chrispim Marin

Publicitário e consultor de Marketing Político.