sexta-feira, 30 de outubro de 2026

EM ITATIBA, O PODER AINDA É COISA DE HOMEM

 




A cidade está preparada para eleger uma mulher prefeita?


Itatiba mantém uma tradição política historicamente marcada pela predominância masculina nos principais espaços de poder. Ao longo de sua história, a cidade nunca teve uma mulher eleita prefeita ou vice-prefeita e muito poucas chegaram a disputar esses cargos. Não é apenas uma coincidência eleitoral, é o reflexo de uma cultura machista em que as mulheres encontram dificuldades para alcançar os postos mais importantes na administração pública.

Foram necessários 35 anos desde a redemocratização de 1947 para que uma mulher conquistasse uma cadeira na Câmara Municipal de Itatiba. Coube à advogada Lia de Araújo Oliveira Marchi romper essa barreira em 1982, tornando-se a primeira vereadora da história do município. Em 1986, reafirmou seu pioneirismo ao ser reeleita e, em 1991, alcançou outro feito histórico: tornou-se a primeira mulher a presidir o Legislativo itatibense, posto que nenhuma outra mulher voltou a ocupar. Essas três conquistas consagraram a Dra. Lia como um marco na história da participação feminina na política local. Seu pioneirismo foi reconhecido com uma homenagem cuja modéstia contrasta com a importância de suas conquistas: deram seu nome a um púlpito na sala de sessões da Câmara Municipal. Convenhamos, uma distinção pouco expressiva para quem rompeu tantas barreiras na política itatibense. A escolha chega a sugerir uma ironia machista: para uma mulher que conquistou seu espaço em um ambiente historicamente dominado por homens, um púlpito já estaria de bom tamanho…Não acredito que tenha sido essa a intenção dos homenageadores, mas o simbolismo é difícil de ignorar.
Em 1992,outro capítulo da participação feminina na política itatibense foi escrito: Maria Eunice de Lourdes Milda Mancin de Camargo tornou-se a primeira mulher a disputar a Prefeitura de Itatiba. Esposa do ex-prefeito José Maurício de Camargo, sua candidatura representou um marco na história da participação feminina na política itatibense. Dona Nice voltou às urnas em 1996 como candidata a vice-prefeita, novamente sem se eleger. Embora não tenha chegado ao comando do Executivo, ajudou a romper com a ideia de que o papel das mulheres na política municipal deveria se limitar aos bastidores do poder e às funções protocolares. Como primeira-dama, criou o Fundo Social de Solidariedade, atuou na direção das áreas de Saúde e Promoção Social e conferiu uma dimensão mais atuante à função. Sua presença na vida pública foi marcada pela coragem, pela iniciativa e pela disposição de enfrentar situações difíceis. Dona Nice mostrou que, para uma mulher fazer a diferença na política, não precisava estar à frente da Prefeitura. Bastava não aceitar ficar à sombra de quem estava.
Outra pioneira da política itatibense foi a professora Marina Bredariol Almeida, que se tornou uma referência da participação feminina na vida pública, com uma trajetória marcada pela persistência e pela atuação constante nas disputas eleitorais. Disputou nove eleições: foi eleita vereadora em 1996, concorreu três vezes à Prefeitura, outras três a deputada e duas a vice-prefeita. Independentemente dos resultados eleitorais, sua trajetória representa um capítulo importante da presença feminina na disputa pelos espaços de poder em Itatiba. Seu nome chegou a ser escolhido para batizar um futuro CEMEI no bairro San Francisco. A homenagem, porém, teve um destino curioso, pois a creche sequer chegou a ser inaugurada. Com o desaparecimento do projeto, desapareceu também o reconhecimento público à professora Marina. Uma injustiça histórica com quem abriu caminhos às mulheres na política itatibense e cujo legado na educação e na vida pública merece mais do que uma homenagem que ficou na promessa.
Uma mulher no comando da prefeitura de Itatiba faria diferença?
A ausência feminina nos principais espaços de poder em Itatiba merece uma reflexão, sobretudo diante do recente fortalecimento de correntes conservadoras no cenário político nacional, algumas das quais abertamente contrárias a direitos historicamente conquistados pelas mulheres. Não se trata de eleger uma prefeita simplesmente por ser mulher, mas de abrir espaço para novas lideranças, com diferentes visões administrativas e propostas para a saúde, a educação, a assistência social e a qualidade de vida. Em um cenário político no qual conquistas históricas das mulheres voltam a ser questionadas, ganha ainda mais importância o compromisso dessas lideranças com a defesa dos direitos femininos e a prevenção de possíveis retrocessos.
E em 2028?
As eleições municipais de 2028 oferecem a Itatiba uma oportunidade de repensar a composição de suas lideranças políticas. Mais do que definir a sucessão do atual prefeito, será o momento de discutir a ampliação do protagonismo feminino, abrindo espaço para que mulheres disputem, com efetivas condições de participação, os cargos de prefeita e vice-prefeita.
Não faltam mulheres em Itatiba com experiência e capacidade de liderança na política, na educação, na saúde, no comércio, na indústria, no empreendedorismo e nas entidades sociais. Parece, sim, faltar espaço nos partidos e a disposição das lideranças políticas para reconhecer e apoiar essas candidaturas. 
Mais do que questionar uma tradição profundamente arraigada na política itatibense, é hora de discutir por que, depois de tantas décadas, o protagonismo no exercício do poder continua reservado aos homens. Afinal, essa exclusividade masculina é fruto da vontade dos eleitores ou das escolhas de quem controla os espaços de decisão política?


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