sábado, 29 de novembro de 2025

MIOPIAS QUE COMPROMETEM O FUTURO DE ITATIBA



Nos próximos anos, os municípios brasileiros enfrentarão uma transformação profunda em suas finanças com a entrada em vigor da Reforma Tributária.

Enquanto cidades já se movimentam com planejamento e visão de futuro, Itatiba demonstra sinais claros de uma miopia administrativa, colocando-se em desvantagem competitiva e diante de uma séria ameaça ao seu próprio futuro.

A Reforma Tributária criará o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que substituirá o ISSQN e o ICMS. O cronograma é claro: início em 2026, com transição progressiva até a migração completa em 2033. Na prática, os municípios deixarão de gerir diretamente sua principal receita própria relacionada ao setor de serviços e enfrentarão dois retrocessos significativos:

  1. Perda de Liquidez Imediata: Atualmente, o ISSQN entra no caixa da prefeitura no mês seguinte à emissão da nota fiscal. Com o IBS, o repasse será centralizado e, posteriormente, rateado entre estados e municípios. Isso significa que o dinheiro chegará com atraso, comprometendo o fluxo de caixa e a capacidade imediata de gestão.
  2. Fim da Previsibilidade Orçamentária: O ISSQN é estável e reflete diretamente a economia local. Já o IBS, por depender da economia nacional e de critérios complexos de rateio, transformará o planejamento financeiro em um exercício permanente de incerteza.

A Reforma criará um verdadeiro divisor de águas. Os municípios que se prepararem desde já sairão na frente. Já aqueles que insistirem em uma visão curta e míope — como Itatiba — verão suas receitas encolherem progressivamente, perdendo competitividade e capacidade de investimento.

Os números de Itatiba e região

Um estudo do economista Gildo Canteli*, publicado no portal do Jornal de Jundiaí, escancara essa realidade. Itatiba ocupa a 8ª posição em desempenho de receitas próprias per capita entre os 13 municípios da Região Ampla de Jundiaí*. O ranking de Canteli compara o desempenho de IPTU, ISSQN e ITBI e mostra, diretamente, quanto cada habitante contribuiu, em média, para os cofres municipais. Os dados evidenciam a distância entre o desempenho econômico de Itatiba e o observado na região.

REGIÃO AMPLA DE JUNDIAÍ - ECONOMISTA GILDO CANTELI
RECEITA PRÓPRIA PER CAPITA DE IMPOSTOS MUNICIPAIS
ANO BASE 2024 EM R$

MUNICÍPIO IPTU ISSQN ITBI TOTAL
CAJAMAR807,471.551,18164,692.523,34
VINHEDO889,321.003,19234,812.217,32
ITUPEVA983,34834,04321,292.138,67
JUNDIAÍ554,091.268,55308,682.130,32
VALINHOS898,531.022,63185,102.106,56
LOUVEIRA523,84881,75507,371.912,96
JARINÚ685,10690,52245,851.621,47
ITATIBA721,49638,31148,621.509,42
CABREÚVA261,07644,7796,671.002,51
CAMPO LIMP PTA461,06244,6644,58750,32
PIRAPORA B.JESUS280,06253,3426,28559,68
VÁRZEA PAULISTA299,32202,3751,30552,99
MORUNGABA155,88293,0763,12512,07

A tabela acima é uma prova concreta da miopia administrativa de Itatiba, que continua negligenciando a única saída para um futuro próspero: o fortalecimento agressivo de suas receitas próprias.

A Miopia em Números Oficiais

Os dados do Portal da Transparência da Prefeitura expõem um diagnóstico claro e alarmante sobre a saúde financeira de Itatiba. Tanto o IPTU quanto o ISSQN, que deveriam funcionar como pilares sólidos do orçamento municipal, apresentam desempenho frágil e aquém do potencial da cidade. Essa miopia fiscal aprofunda a dependência de repasses governamentais e evidencia o subaproveitamento da nossa capacidade de gerar receita própria. A tabela abaixo, mostra a evolução da arrecadação entre 2021 e 2025:

ANO IPTU ISSQN
20217,24%8,10%
20229,37%*8,32%
20236,98%8,80%
20246,56%8,70%
2025*6,76%8,72%
Média7,38%8,53%
  • IPTU em colapso: trajetória em queda, com a média no período de 7,38%.
  • ISSQN estagnado: a participação oscila em uma faixa muito estreita (8,10% a 8,80%), com média de 8,53% e sem qualquer tendência de crescimento.

A arrecadação de Itatiba encontra-se, portanto, em plena letargia. A inação pode custar caro. Se persistir, essa miopia fiscal deixará Itatiba cada vez mais vulnerável diante dos desafios que já se desenham com a Reforma Tributária.

A conta já chegou…

Itatiba já sente, na prática, os efeitos de não ter construído ao longo dos últimos anos uma política consistente de desenvolvimento econômico, especialmente nos setores de serviços, logística, turismo e no apoio às PMEs. São áreas estratégicas para qualquer cidade que busca crescimento sustentável, mas que, aqui, foram — e continuam sendo — tratadas com uma visão curta e limitada… verdadeiramente míope. Os números apresentados ao longo deste artigo escancaram essa realidade: há uma miopia crônica na condução econômica do município.

A atual falta de recursos da Prefeitura — que já impôs cortes na saúde e em diversos serviços públicos — não é acaso. É o resultado direto da ausência de políticas permanentes de desburocratização, estímulo ao empreendedorismo e fortalecimento das atividades econômicas locais. Políticas que, se existissem, teriam ampliado a base de arrecadação e atraído novos investimentos. Itatiba tem plenas condições de liderar a Região Ampla de Jundiaí, mas a estratégia adotada pelo prefeito tem reduzido a cidade a um mero papel secundário.

Ainda há tempo para o prefeito decidir qual legado deixará: conduzir Itatiba ao patamar de uma das economias mais fortes e competitivas da região ou desperdiçar, em oito anos de mandato, a chance histórica de transformar a estrutura econômica da cidade. Fazer de Itatiba uma referência de desenvolvimento econômico e social depende de escolhas — e o momento de escolhê-las é agora.

Fabio Chrispim Marin
Consultor de Comunicação, Marketing Político e Estratégico

Notas:

  • *IPTU e ISSQN de 2025: como o ano ainda não terminou, os índices podem sofrer alterações.
  • *Região Ampliada de Jundiaí: Cabreúva, Cajamar, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Pirapora do Bom Jesus, Valinhos, Várzea Paulista e Vinhedo.

Fontes:

  • *Portal Transparência da Prefeitura de Itatiba
    https://transparencia-itatiba.smarapd.com.br/#/
  • *Estudos do economista Gildo Canteli sobre as arrecadações dos municípios da Região Ampliada de Jundiaí:
    https://sampi.net.br/jundiai/noticias/2919118/opinioes/2025/07/receita-per-capita-de-impostos-municipais-no-ano-base-2024

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Thomás poderá ser prefeito por 14 anos consecutivos.

 



Em Brasília, tramita a PEC 12/2022, que propõe extinguir a reeleição para chefes do Executivo — presidente, governadores e prefeitos — e ampliar os mandatos para cinco anos. O texto, porém, ganhou novas dimensões com uma emenda que pode transformar profundamente o cenário político dos municípios: a unificação de todas as eleições brasileiras a partir de 2034, alinhando em um único pleito as disputas municipais, estaduais e federais. 

Para viabilizar essa unificação, seria criada uma regra de transição inédita: prefeitos eleitos em 2020 e reeleitos em 2024 poderiam concorrer novamente em 2028. Um ciclo excepcional de três mandatos consecutivos.

Se a PEC avançar, as eleições de 2034 poderão se tornar as mais complexas da história democrática do país. Em um único dia, o eleitor teria que escolher presidente, dois senadores, deputados federal e estadual, governador, prefeito e vereador. Uma verdadeira maratona eleitoral, que tende a gerar filas extensas, elevar os índices de abstenção, votos brancos e nulos.

Os municípios seriam os principais prejudicados. Suas pautas — mobilidade, saúde, habitação, segurança, empregos, educação — seriam engolidas pela polarização nacional e pela disputa ideológica que domina as eleições gerais. O eleitor ficaria soterrado pelas narrativas nacionais, enquanto temas essenciais do seu dia a dia perderiam espaço. Essa dinâmica abriria caminho para fenômenos típicos da política nacional, como candidatos desgastados em suas regiões, buscarem projeção em outras cidades. Não seria impossível imaginar, por exemplo, alguém associado ao clã Bolsonaro disputar alguma prefeitura, sem sequer conhecer a cidade pretendida, como Carlos, que almeja ser senador por Santa Catarina. 

A possibilidade de mais uma reeleição pode gerar um revés histórico e frustrante para diversas lideranças políticas  que já se articulam para disputar uma Prefeitura nas eleições de 2028.  Muitos desses nomes possuem planejamento estruturado, grupos organizados, base social ativa e discurso pronto para 2028. A partir desse novo cenário, novas estratégias precisam ser definidas para competir com quem está com oito anos de mandato e com possibilidades reais de permanecer mais seis anos no comando da cidade. 

Nesse ambiente de incertezas, cada movimento político passa a valer dobrado. A forma como as lideranças reagirem ao novo tabuleiro definirá não somente 2028, mas o próprio destino de seus projetos. A polarização, com a unificação das eleições ou não, estará presente nas disputas municipais, e muitos oportunistas tentarão surfar nela para esconder a ausência de propostas locais. Cabe ao eleitor ficar atento a quem dedica mais energia aos seus ídolos de Brasília do que à sua própria cidade. 

Agora, quanto ao eventual terceiro mandato de Thomás, tudo dependerá do destino da PEC 12/2022 — e de uma combinação complexa de variáveis que começam muito antes da urna. Se a PEC passar, Thomás só terá chances reais caso consiga manter altos índices de aprovação, comunicar com precisão suas entregas, neutralizar crises e criar uma narrativa de continuidade indispensável para a cidade. 

Do outro lado, seus adversários jogarão pesado. Além de produzir agendas positivas, poderão explorar vulnerabilidades, amplificar desgastes, tensionar erros administrativos, com o objetivo de provocar crises políticas, de narrativas ou institucionais. Entrarão no jogo ainda a ocupação de territórios digitais, alianças inesperadas e tentativas de nacionalizar — ou municipalizar — temas conforme lhes convier.

No fim, o tabuleiro não será somente jurídico ou administrativo: será comunicacional, emocional e narrativo. E quem dominar essas variáveis chega competitivo a 2028 — com ou sem PEC.

Fabio Chrispim Marin

Consultor de Comunicação, Marketing Estratégico e Político





sexta-feira, 14 de novembro de 2025

O Presente que o “Mercadão” pede em Silêncio

 





O aniversariante de novembro, o “Mercadão Dona Lica”, comemorou mais um ano de história com direito a retreta da Banda Santa Cecília e até bolo de aniversário — uma justa homenagem a um espaço que, há 41 anos, faz parte da memória afetiva de Itatiba.

Talvez o melhor presente que ele pudesse receber neste aniversário fosse algo mais duradouro: um projeto de lei ou decreto municipal que regulamentasse a transferência dos boxes para novos empreendedores, garantindo a vitalidade comercial e a ocupação plena do espaço. Hoje, o entrave nas transferências provoca um problema visível com os boxes vazios: a perda de dinamismo. Por ser um prédio público, o “Mercadão” funciona sob o regime de permissão de uso, e seus boxes são concedidos por licitação, na modalidade leilão. Vence quem oferecer o maior valor pela chamada “joia”. No entanto, a legislação impede a venda ou transferência dessa permissão. Assim, quando o permissionário decide encerrar as atividades, é obrigado a devolver o box ao município, que precisa abrir novo processo licitatório — um trâmite lento, burocrático e desestimulante.

Essa rigidez legal tem um custo alto: desocupações prolongadas e queda no movimento. Por isso, é urgente que o poder público encontre um caminho jurídico equilibrado, que permita a continuidade dos negócios e a chegada de novos empreendedores, sem ferir os princípios da legalidade. Um bom exemplo vem de São Bernardo do Campo, que criou um procedimento regulamentado para a transferência de permissão de boxes. O modelo, simples e transparente, reduziu drasticamente a vacância, aumentou o faturamento geral e o fluxo de visitantes — um resultado que pode ser facilmente replicado em Itatiba.

Apesar dos desafios, o “Mercadão Dona Lica” segue sendo um espaço pulsante, com uma praça de alimentação acolhedora, já consolidada como ponto de encontro de amigos e famílias. É um universo de cores, sabores e produtos regionais: bancas de agropecuária, pesca, hortifruti, temperos, massas, doces, uma infinidade de bebidas e queijos. Um cenário que encanta qualquer amante da boa gastronomia. Mais do que um centro de compras, é um espaço de convivência e cultura, símbolo da identidade itatibense, que precisa ser revitalizado comercialmente, com políticas inteligentes e gestão moderna.

Os mercados municipais vêm se reinventando. O segredo tem sido a combinação de gestão eficiente, regulamentação moderna e estratégias de marketing bem planejadas, que valorizam o comerciante e a experiência do visitante. Em Campinas, o Mercado Municipal passou recentemente por uma ampla revitalização física e de marca, transformando-se em polo turístico e gastronômico, com eventos, oficinas e campanhas que reforçam sua ligação com a cidade. Já em Sorocaba, a modernização incluiu capacitação dos permissionários e a criação de uma incubadora de pequenos negócios gastronômicos e artesanais, tornando o espaço dinâmico e inovador.

Esses exemplos comprovam que, com planejamento e visão estratégica, o “Mercadão Dona Lica” pode se consolidar como um espaço de experiências e uma vitrine do que Itatiba tem de melhor: sua hospitalidade, sua culinária e seu empreendedorismo. Itatiba abriga grandes indústrias alimentícias, um setor leiteiro de destaque e uma indústria criativa gastronômica em expansão. Aproximar esse universo do Mercadão é o passo natural para sua revitalização. Com criatividade e articulação, é possível promover degustações, mostras e feiras de produtos locais. Por meio de parcerias entre produtores e comerciantes, o espaço pode se consolidar como um palco permanente da indústria alimentícia e da cultura alimentar de Itatiba. 

O “Mercadão Dona Lica” já carrega alma e tradição; cabe à Prefeitura de Itatiba — legítima guardiã de sua marca — cumprir a obrigação histórica de devolver-lhe o brilho e o protagonismo que ele merece.

Fabio Chrispim Marin

Consultor de Comunicação e marketing Estratégico





quinta-feira, 6 de novembro de 2025

"A Unanimidade é Burra:" O Segredo por trás dos Projetos Irrelevantes

 

Prólogo

Nas arcadas do poder local, encenou-se uma tragicomédia (ou seria farsa?) que o próprio Nelson Rodrigues assinaria sem pestanejar. Uma comédia de equívocos onde o óbvio precisa de lei, o trivial vira urgência, e a irrelevância se veste de legado. Em sua genialidade ímpar, o legislativo concedeu, através de um Projeto de Lei, o direito histórico de um bloco de carnaval... desfilar no carnaval. 

Sim, você leu corretamente. O PL — Projeto de Lei "assegura" a participação de um bloco ligado a uma clínica na programação oficial do Carnaval. Uma causa nobre, sem dúvida. Mas eis o detalhe sublime: qualquer bloco carnavalesco consegue isso com uma simples solicitação junto à Secretaria de Cultura e Turismo. Não é necessária uma lei.

Aliás, nenhuma outra agremiação na história carnavalesca da cidade precisou de uma.

O arquivo morto entra em cena

Encerrada a euforia da aprovação, o projeto encontrou seu destino mais nobre: o Arquivo Morto dos Projetos Irrelevantes do Legislativo. Mas nem as pastas mais antigas, acostumadas a abrigar as preciosidades do nada, estavam preparadas para tamanha exuberância do inútil. A revolta foi imediata. Convocou-se, às pressas, uma reunião emergencial para decidir onde arquivar tamanha obra-prima da desimportância pública, um monumento à genialidade do supérfluo que, reconheça-se, atingiu níveis inéditos de excelência.

Quem mais se indignou foi a pasta  “No Âmbito Municipal”, responsável por abrigar os projetos que legislam sobre um dia já celebrado no calendário nacional, e conhecido popularmente como “os irmãos gêmeos das datas nacionais”. Com sua sabedoria em eventos e efemérides, pediu a palavra e expôs a sua opinião:

— A seletividade é digna de nota — vociferou. — Será que o nobre autor do projeto já assistiu a um único desfile cívico do Sete de Setembro ou prestigiou a apresentação dos blocos e escolas de samba no carnaval na cidade? Se tivesse assistido, veria com seus olhos que esses já são os verdadeiros palcos de inclusão desta cidade. Pessoas com todos os tipos de deficiência, inclusive com transtornos do neurodesenvolvimento, desfilam, brincam e são celebradas. Nossa cidade é exemplo de inclusão espontânea em seus eventos, sem precisar de uma lei para sê-lo. 

A pasta do “Cooperativismo Situação–Oposição”, carinhosamente apelidada de “eu aprovo o seu e você aprova o meu”, prontificou-se, com falsa modéstia, a receber o projeto.

— Estou abarrotada, é verdade, mas essa é a minha sina. O que os nobres vereadores ainda não entenderam é que o cidadão até tolera o erro, mas não perdoa o abandono. E hoje, meus caros, eles sentem assim: abandonados…por irrelevâncias como essa.

Fez uma breve pausa, ajeitou a aba e continuou, com ironia:

— Para sustentar o teatro do “Faz de Conta”, eles fazem da tragédia uma comédia, e assim, projetos sem propósito como este são aprovados num consagrador abraço entre governo e oposição: Eu aprovo o seu, você aprova o meu. E, no final,  todos saem sorrindo, como se tivessem feito história.

Um soluço abafado ecoou do fundo da sala. Era a pasta dos “Projetos Não Sancionados pelo Prefeito”. Visivelmente transtornada, já em prantos e abraçando uma caixa de "lenço de papel Yes¹" como se ela fosse um salva-vidas, desabafou:

— É sempre a mesma coisa! E o final é previsível... o prefeito sanciona o disparate! Esses projetos são uma pandemia de inutilidades para a qual, infelizmente, ainda não inventaram vacinas! E eu, como fico? Totalmente vazia... sem nenhum — ou melhor, nenhumzinho — projeto para conversar, para passar o tempo! Estou às portas da depressão! Se não fossem essas reuniões emergenciais, não sei o que seria de mim…

O desabafo caiu na sala como um peso. Um silêncio constrangedor se espalhou entre as prateleiras. As outras pastas se entreolharam, sem encontrar palavra alguma de consolo. Afinal, o que dizer a alguém cuja única função na vida era... ser esquecida?

A caixa de “Primeiros Socorros Legislativos para Crises no Executivo”, cujo conteúdo se resumia a três carimbos: "URGENTE, VISTO E REPROVADO", aproximou-se com certo constrangimento. Tentou um gesto de solidariedade e deu uns tapinhas desajeitados na capa da colega dos “Projetos Não Sancionados”.

— Calma, colega...Você já tentou conversar com um carimbo? Querida, eu também vivo sozinha... Mas veja pelo lado positivo! Enquanto o prefeito se ocupa sancionando essas genialidades legislativas, pelo menos não inventa mais nenhum empréstimo mirabolante, nem cria outra subsecretaria para empregar filhos e apadrinhados dos vereadores.

Fez uma pausa, endireitou o rótulo amassado e concluiu com ar filosófico:

— O nosso vazio, minha cara, é a última linha de defesa contra o endividamento da prefeitura. Somos o silêncio que impede a ruína. Pense nisso... somos resistência!

Um breve murmúrio de aprovação percorreu as prateleiras, mas logo o ambiente voltou ao silêncio solene que caracteriza os arquivos mortos. Até que, com a pompa de quem anuncia um parecer final, a pasta do “Selo Amigo” — responsável por etiquetar os recém-chegados — pediu a palavra.

— Caríssimos, Nelson Rodrigues, em sua sabedoria sarcástica, já advertia: “A unanimidade é burra.” E o legislativo local acaba de comprovar, com louvor e unanimidade, que ele tinha razão.

Ergueu a lombada com elegância erudita e prosseguiu, numa cadência de ata cerimonial:

— Assim, o Festival de Projetos Irrelevantes segue a todo vapor, produzindo pouco, consumindo tempo e recursos públicos e enterrando, voto a voto, o que resta da credibilidade política local. Então, queridos colegas, só nos resta cumprir nosso dever institucional: arquivar as irrelevâncias, uma a uma, com a dignidade de quem preserva o nada.

De repente, o som de uma buzina fanha interrompeu o silêncio. Era a pasta do “Dia do Fusca” — que permanecera calada o tempo todo,

— Pelo que vejo, existe um complô para me derrubar... Não me surpreenderia se aparecesse um PL para “garantir a um galo, de um determinado avicultor, o direito sagrado de ciscar no seu próprio galinheiro”.

E, após uma pausa dramática, finalizou:

— E, para piorar, é até possível que algum dos seus nobres pares proponha uma emenda assim: ‘Fica terminantemente proibido o galo ciscar para frente, mesmo que no seu galinheiro’. 

Fecham-se as cortinas da irrelevância legislativa! 

Notas:

1 - Lenço de Papel Yes — fabricado pela Johnson & Johnson na década de 1960.