sexta-feira, 8 de maio de 2026

O FUTURO DE ITATIBA NO PARLAMENTO DO BOTECO

 


Fabio Chrispim Marin

Numa recente roda de conversa em um tradicional boteco da cidade, um grupo eclético de frequentadores discutia a possibilidade da venda dos naming rights de Itatiba. A inspiração para a brilhante ideia teria vindo da venda dos naming rights do estádio do Palmeiras ao Nubank. Afinal, se um estádio pode render milhões para o clube, empreiteiras, patrocinadores e dirigentes, por que não vender também o nome da própria cidade?

Um dos frequentadores — economista aposentado, especialista em contas públicas, inflação, câmbio e fiado de boteco — pegou um guardanapo e começou a fazer cálculos complexíssimos com uma caneta emprestada com o bicheiro.

Após alguns minutos de profundo raciocínio econômico, concluiu que os recursos obtidos com a venda do naming rights seriam suficientes para acabar com o mato e buracos da cidade inteira, asfaltar loteamentos irregulares, terminar as obras das marginais do Ribeirão Jacaré e do prédio do SUS, construir a nova prefeitura, reestruturar todo o trânsito da cidade e ainda fazer um piscinão monumental, capaz de acabar definitivamente com as enchentes… ou, ao menos, transferi-las para outro local.

Com a aura de quem acabara de apresentar um plano econômico ao FMI, o aposentado levantou levemente o dedo indicador e concluiu:

— Isso é apenas modernização administrativa… uma necessidade inevitável neste mundo globalizado e conectado.

Como ocorre em conversas de boteco, as opiniões rapidamente ultrapassaram qualquer limite jurídico, moral e etílico. Em menos de vinte minutos, a mesa já havia produzido mais propostas para o futuro da cidade do que boa parte dos projetos relevantes apresentados na Câmara Municipal ao longo de todo o ano legislativo.

— O naming rights viria em boa hora, observou um dos presentes. O prefeito adora falar em modernização. Criou um fetiche primitivo por grandes franquias e marcas famosas, tanto que o anúncio da chegada de uma unidade do McDonald’s foi comemorado quase como um acontecimento político-geográfico mundial.

— Rapaz… do jeito que anunciaram, achei que tinham descoberto petróleo no Ribeirão Jacaré ou que Itatiba teria uma base da NASA!

 — Então, né, Campinas conseguiu atrair a automobilística chinesa Sany, um investimento bilionário… Itatiba comemorou com um McOferta.

— Campinas ganhou empregos qualificados na indústria automotiva e uma cadeia inteira de prestadores de serviço… nós ganhamos McLanche Feliz.

— Podemos dizer que Itatiba esteja no seleto grupo das cidades emergentes do interior paulista: as que tem duas unidades do McDonald's! 

E o espírito do boteco continuou quando surgiu a primeira proposta oficial do parlamento etílico para o naming rights :

— E se virar MC Itatiba?

Os frequentadores mais nacionalistas protestaram, defendendo que o nome correto deveria ser “Méqui Itatiba”, em respeito à cultura popular brasileira e ao patrimônio linguístico construído nas filas do drive-thru.

Já os fanáticos pelo Burger King acusaram imediatamente um grave favorecimento institucional ao hambúrguer do Ronald McDonald.

— O BK paga mais, além de ser mais criativo! — protestou um homem já emocionalmente comprometido pela sexta cerveja. — E ainda dá para colocar uma grande coroa na entrada da cidade!

A discussão degringolou de vez quando um corretor de imóveis, já na quinta cerveja e no segundo amendoim comunitário, resolveu participar do debate urbanístico.

— O nome certo é algo assim: Itatiba (Incorporadora) Empreendimentos Imobiliários.

O argumento veio forte, quase técnico:

— A cidade aprova loteamentos com menos de 150 m² e apartamentos de 40 em velocidade industrial. Trânsito? Depois se vê. Meio ambiente? Compensa-se com mudinha de árvore na inauguração. Planejamento urbano? Isso é coisa de cidade sem espírito empreendedor.

A proposta foi derrubada por um marqueteiro presente na roda, que imediatamente pediu a palavra como se estivesse em uma audiência pública patrocinada por incorporadoras.

— Não pode! — interrompeu ele, indignado. — Isso irá posicionar a cidade como desorganizada e sem planejamento para o futuro!. Precisamos de uma marca aspiracional… premium… sofisticada… algo que gere pertencimento emocional, percepção de exclusividade e valorização imobiliária!

Ele tomou um gole longo de cerveja quente — sempre pede sem gelo para não ter que dividir com os “serrotes” — ajeitou a postura de consultor e continuou:

— Olha… "eu ouvi falar qualquer coisa" que recentemente aconteceu na cidade um casamento digno da monarquia europeia. Foi um evento realizado num campo de golfe, com uma lista de convidados mais restrita do que uma licitação pública. Só poucos membros do império receberam o convite. Nem o bobo da corte foi convidado!

A mesa silenciou com atenção.

— Precisamos aproveitar isso! — continuou o marqueteiro, já completamente tomado pelo espírito do branding territorial. — A cidade se tornou um polo de casamentos de luxo. O futuro está aí! Temos que reposicionar Itatiba internacionalmente!

Ele fez uma pausa dramática, olhou para todos como quem apresenta um projeto revolucionário num telão invisível e decretou:

— Minha proposta é simples: “Itatiba — (patrocinador) Golf & Casamentos Reais”.

Como acontece em todo ambiente verdadeiramente democrático, logo surgem as divergências, interesses paralelos, vaidades pessoais e pequenos grupos articulando alternativas nos cantos da mesa.

Sem consenso, mas por unanimidade, decidiram encerrar o assunto. 

No fim da noite, depois de 18 garrafas de cerveja, 36 martelinhos de cachaça, 15 rabos de galo, três porções de amendoim, sete soluções urbanísticas, quatro reestruturações econômicas, cinco secretários derrubados, quinze projetos para trânsito e dois pedidos de impeachment, a conclusão foi unânime: o bar havia produzido mais debate sobre o futuro da cidade em duas horas do que boa parte do Legislativo nos últimos anos.

Talvez aí esteja o maior perigo dos debates públicos em botecos: vai que algum vereador escuta…


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