sábado, 9 de maio de 2026

AS DRAGAS DA ECONOMIA LOCAL – Parte 1

 




Historicamente, o varejo de rua sempre enfrentou concorrência: supermercados, atacarejos, shopping centers e, mais recentemente, os  e-commerces e os grandes marketplaces. Mas o cenário atual tornou-se mais complexo e tão agressivo neste momento quanto as bets.  Já não se trata apenas de competição comercial. Estamos diante de verdadeiras “dragas econômicas” — estruturas que retiram dinheiro da economia local sem devolver, na mesma proporção, circulação de renda, empregos ou desenvolvimento para a cidade.

O dinheiro que antes circulava em roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, alimentação e pequenos serviços — movimentando toda a cadeia de  lojas, empregos e fornecedores locais — agora é transferido para plataformas digitais de apostas. O mais preocupante é que esse recurso praticamente desaparece da economia real das cidades.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do varejo brasileiro entre 2023 e abril de 2026. O impacto é tão expressivo que equivale, segundo o setor, a quase dois Natais perdidos para o comércio.  A própria CNC estima que, para cada R$ 1 bilhão gasto em apostas online, o varejo perde cerca de 0,7% do faturamento.

Os efeitos já aparecem no orçamento das famílias. Uma parte crescente da renda passou a ser direcionada às apostas, enquanto contas básicas, crediários e financiamentos entram em atraso. Supermercados e lojas de bens duráveis já registram queda no consumo, especialmente entre as classes C, D e E — justamente a base do comércio de rua em cidades médias como Itatiba.

As bets são apenas a face mais visível de um fenômeno maior. Hoje, uma parcela crescente do orçamento doméstico é capturada por serviços e plataformas digitais como streaming de vídeo e música, marketplaces internacionais, aplicativos, assinaturas digitais e crédito consignado. O celular e as Smart TVs  transformaram-se em um verdadeiro shopping invisível, sem vitrine física, sem geração proporcional de empregos locais e sem circulação significativa de riqueza dentro do município.O dinheiro continua existindo, mas deixou de circular no bairro, no comércio local e na economia da cidade.

O pequeno comerciante já não concorre apenas com a loja da esquina. Agora, disputa mercado com gigantes como Mercado Livre, Shopee, Shein e Amazon — plataformas globais, com escalas logística, financeira e tributária inalcançáveis para o varejo tradicional.

Enquanto o lojista local paga aluguel, mantém empregos, enfrenta burocracia, recolhe impostos e ainda patrocina eventos da cidade, as grandes plataformas concentram faturamento sem reinvestir proporcionalmente na economia urbana que consome seus produtos.

O resultado é uma erosão silenciosa do varejo de rua — e, junto com ele, da renda, dos empregos e da própria vitalidade econômica das cidades.

O varejo de rua já enfrenta concorrência global, mudanças no consumo e a drenagem digital da renda familiar. Como se as dragas digitais já não fossem suficientes, Itatiba ainda conseguiu recriar a sua própria draga local: a Zona Azul.

Na próxima parte, o debate abordará como o estacionamento rotativo afasta consumidores, penaliza o comércio de rua e transforma os lojistas em prestadores de serviços gratuitos à concessionária.

Continua…






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