É nesse cenário que surgem os chamados vereadores tiktokers. Investem no papel de juízes morais, emitem pré-julgamentos, constroem narrativas frágeis e exploram o sofrimento alheio em troca de curtidas e engajamento. Transformam ambientes sensíveis em palcos digitais. O resultado é previsível e grave: espalham insegurança, alimentam a desconfiança da população, enfraquecem instituições públicas e não contribuem em nada para melhorar o serviço.
O papel do vereador é fiscalizar o Executivo com responsabilidade — acompanhar contratos, cobrar investimentos, avaliar políticas públicas — e não invadir, constranger ou induzir falas para produzir conteúdo emocional. Quando ultrapassam esse limite, o que se apresenta como defesa do cidadão revela-se encenação e oportunismo político, cujo ápice está em declarações imprudentes e perigosas, como afirmar que “as pessoas estão com medo de ir ao hospital ou à UPA”.
Chama atenção, sobretudo, o que não aparece em seus mandatos. Esses vereadores não são vistos com o celular na mão, entrando no gabinete do prefeito para cobrar investimentos estruturais na saúde; nem os vemos pressionando por soluções concretas à demora no agendamento de consultas com especialistas, para acabar com as filas intermináveis de exames e cirurgias ou exigindo o fim da redução do horário de atendimento nas unidades avançadas. Também não há vídeos deles em audiências públicas exigindo a implantação de um centro de saúde especializado para os idosos — uma necessidade real e crescente devido ao acelerado envelhecimento da população brasileira.
Filmar corredores de hospital ou serviços na UPA rende visualizações. Enfrentar o prefeito e responsabilizá-lo publicamente pelos problemas estruturais da saúde — sobretudo quando é aliado político — exige algo bem mais raro: coragem, autonomia e independência.
A política não deve ser refém do algoritmo. Não autoriza expor famílias fragilizadas em narrativas como palco para engajamento digital. Se há falhas, que sejam investigadas com seriedade, processos claros e respeito. Explorar a dor e sofrimento de quem perdeu um ente, ou alimentar o medo e desacreditar instituições para gerar engajamento não representa coragem política nem defesa do interesse público: é oportunismo político.
Nesse jogo oportunista saem prejudicados os que mais precisam da saúde pública: o cidadão, independente da sua classe social, que passa a desconfiar do serviço público no momento em que pode precisar dele; perdem os profissionais da saúde, expostos a julgamentos sumários nas redes sociais; e perde a cidade, que assiste ao desgaste de suas instituições.
Quando a política troca responsabilidade por espetáculo, a saúde pública paga a conta, assim como toda a população.
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