quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

POR QUE ITATIBA NÃO TEM CONCESSIONÁRIAS DE VEICULOS ZERO KM?

 


Não é um fato isolado. É um sintoma.

A saída da FIAT, última concessionária de veículos 0 km em Itatiba, não deve ser tratada como um episódio pontual. É o resultado de um processo silencioso e cumulativo, que revela uma contradição incômoda: como uma cidade com cerca de 127 mil habitantes, bons indicadores sociais e localização estratégica não sustenta uma concessionária de automóveis novos?

O contraste com municípios vizinhos — alguns menores e com renda inferior — torna essa pergunta ainda mais reveladora. À primeira vista, Itatiba não deveria estar fora do mapa automotivo regional.

Indicadores positivos não garantem protagonismo

Os dados socioeconômicos (apresentados ao final do artigo) mostram que o problema não está na renda, na população ou no nível de desenvolvimento humano. Em diversos indicadores, Itatiba supera cidades que concentram várias concessionárias 0 km.

A explicação está na lógica do setor. Concessionárias não analisam cidades; analisam mercados. O que pesa na decisão de investimento é a capacidade de uma localidade atrair demanda regional, gerar fluxo contínuo de consumidores, concentrar renda qualificada e oferecer escala mínima de vendas com viabilidade econômica.

Quem entendeu a lógica regional, conquistou o mercado

Atibaia e Bragança Paulista sustentam suas economias a partir de um mercado regional ampliado, impulsionado pelo turismo e reforçado pela Rodovia Fernão Dias, que estende sua área de influência e atrai consumidores com maior poder aquisitivo.

Amparo, mesmo com população e renda inferiores às de Itatiba, consolidou-se como polo regional ao assumir o protagonismo turístico e comercial no Circuito das Águas Paulista.

Vinhedo e Valinhos operam sob outra lógica: alta renda domiciliar, acesso direto às rodovias Anhanguera e Bandeirantes, e integração funcional com Campinas. 

Itatiba, entre dois polos — e sem identidade econômica

Itatiba ocupa uma posição sensível na dinâmica regional. Não se consolidou como polo ampliado, tampouco se firmou como destino turístico e permanece à sombra de Campinas e Jundiaí. A rodovia Dom Pedro I, embora estratégica, funciona mais como eixo de passagem do que como vetor de atração econômica.

Paradoxalmente, os números são sólidos: base industrial relevante, elevado IDHM, PIB per capita superior aos de Atibaia e Bragança e a terceira maior renda domiciliar entre as cidades analisadas. O consumo local sustenta o varejo de bens duráveis de alto giro — grandes redes, atacarejos e franquias —. mas não gera escala suficiente para atividades que dependem do mercado regional, como as concessionárias de veículos 0 km.

O custo da falta de planejamento

Itatiba paga hoje o preço da ausência a planejamento econômico de longo prazo e da indefinição do seu DNA econômico. A cidade cresceu, gerou renda e atraiu investimentos, mas sem uma estratégia capaz de transformá-la em referência regional.

O desafio da administração municipal não é recuperar uma concessionária específica, mas impedir que outros setores sigam o mesmo caminho. A economia de Itatiba não avançará enquanto o planejamento permanecer refém da descontinuidade administrativa e da anulação de boas iniciativas a cada troca de governo.

Desenvolvimento exige visão, continuidade e coragem para definir rumos. Sem isso, a cidade seguirá consumindo suas próprias virtudes — sem convertê-las em protagonismo econômico.

Indicadores socioeconômicos e presença regional de concessionárias de veículos zero km




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