quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

PAPAI NOEL: VEREADORES APROVARAM O PRÓPRIO 13º


    A Câmara Municipal de Itatiba viveu seu momento histórico. Não foi a inauguração de uma grande obra, tampouco uma reforma estrutural ou um salto civilizatório. Foi algo maior. Muito maior. Composta por aproximadamente 90% de vereadores de direita — alguns orgulhosamente abrigados no espectro da extrema direita — protagonizou um ato de rara sensibilidade social: concedeu a si mesma o direito ao 13º subsídio. Sim, é isso mesmo, nossos nobres representantes abraçaram com fervor os direitos trabalhistas.

Inspirados, quem sabe, pelas políticas públicas do presidente Lula — como a isenção e a redução do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais — somadas ao debate nacional sobre o fim da escala 6x1, os vereadores identificaram o ambiente perfeito. Convictos, trataram de aprovar o benefício rapidamente. Se o país passou a respirar justiça social, seria quase um contrassenso deixar os vereadores — até os mais conservadores — fora desse novo ar progressista: representar o eleitor sem o sagrado direito ao 13º é sacrifício demais.

A decisão no plenário veio envolta numa aura de justiça social nunca vista desde a última sessão solene. E tudo isso, registre-se, com absoluto zelo pela responsabilidade fiscal, aplicada com critério conservador: rigor para evitar sobra de dinheiro; criatividade para gastá-lo e convicção para jamais devolver o duodécimo, a parcela mensal do orçamento da Câmara que, se não utilizada, poderia até ser devolvida à prefeitura para reforçar áreas como saúde e educação.

Mas não parou por aí. Embalados pelo entusiasmo revolucionário e já aquecendo os motores para as eleições de 2028, os vereadores decidiram ir além. Com o mesmo espírito progressista que os move quando o assunto é o próprio bolso, concederam aos futuros parlamentares — aqueles que tomarão posse a partir de janeiro de 2029 — um singelo reajuste nos subsídios, que salta dos atuais R$ 11.881,54 para 13 parcelas de R$ 17.387,32. Uma vitória histórica: 31,66% de aumento contra a precarização do mandato legislativo.

Assim surgiu uma nova legislatura trabalhista em Itatiba, revolucionária, porém criteriosa. Progressista, mas apenas até a borda do próprio bolso e que somente descobrem a luta de classes ao olhar o seu contracheque. No fim, fica a lição: ideologia é importante, discurso é fundamental, mas nada une mais esquerda e direita como um bom benefício aprovado em causa própria. 

E viva a revolução, desde que seja bem remunerada e em 13 parcelas.




N.A. 1 – O Projeto de Resolução nº 42/2025 foi o instrumento legal que autorizou a concessão do 13º salário aos vereadores da Câmara Municipal de Itatiba, aprovado na sessão de 12/12/2025. 

N.A. 2 – Na mesma sessão legislativa, foi aprovado o Projeto de Lei 106/2024, que dispõe sobre os valores dos subsídios do prefeito, do vice-prefeito e dos secretários municipais, com vigência a partir de janeiro de 2029, nos seguintes montantes: prefeito, R$ 36.048,73; vice-prefeito, R$ 14.582,75; secretários municipais, R$ 24.304,59; secretários adjuntos, R$ 17.013,20.


 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

ELEIÇÕES: O VOTO QUE TEMOS…O VOTO QUE QUEREMOS

 


No artigo da semana passada, analisei os números das eleições de 2022, e o diagnóstico foi claro: o eleitor itatibense votou, mas não elegeu. O resultado disso foi que Itatiba ficou sem voz e sem força política. Diante desse cenário, surge a pergunta inevitável: como transformar voto em representação, e essa representação, em resultados reais para Itatiba?

Uma possível resposta existe, é simples e está em debate no Congresso: o Voto Distrital Misto (VDM). Esse modelo busca equilibrar dois princípios fundamentais: representação territorial e representação proporcional. Em poucas palavras, metade das cadeiras representa os distritos, metade reflete as forças políticas da sociedade. É uma tentativa de unir o melhor dos dois interesses políticos, aproximando o eleitor do deputado eleito sem abrir mão da pluralidade partidária.

Com o Voto Distrital Misto (VDM), o eleitor passa a ter dois votos independentes:

1️⃣ Voto para o Distrito (majoritário): esse voto serve para escolher o representante direto da região onde o eleitor mora. Para a Câmara Federal, o estado de São Paulo seria dividido em 35 distritos, com Itatiba formando um deles, possivelmente junto a municípios vizinhos. Nesse modelo, o mais votado no distrito é eleito — simples assim. Sem quociente eleitoral, sem puxadores de votos ou cálculos que distorcem a lógica do resultado. Quem tem mais votos, leva.

2️⃣ Voto para a Lista Partidária (proporcional): o segundo voto permite fortalecer o partido com o qual o eleitor se identifica. Cada legenda apresenta uma lista prévia de nomes, ordenada internamente. O eleitor não escolhe um candidato individual — escolhe o partido. Somam-se os votos da sigla com os de seus candidatos e, pelo quociente partidário, define-se quantas cadeiras terá o partido. Após isso, entram os nomes da lista, na ordem que a própria legenda determinou.

Resultado: metade do parlamento ganha rosto e território; a outra metade mantém equilíbrio partidário. Cidades como Itatiba deixam de disputar atenção com o estado inteiro e concorrem dentro de seu distrito. As chances de eleger alguém comprometido com a cidade aumentam como nunca.

        🏛 Como ficam a Câmara Federal e a ALESP?


CASA LEGISLATIVA 

CADEIRAS

DISTRITAIS

LISTA PARTIDÁRIA

Câmara Federal

70

35

35

ALESP

94

47

47


Só que o VDM também tem um grande ponto sensível — e sério!

Nenhum sistema eleitoral é perfeito, e o Voto Distrital Misto não foge à regra. Metade das cadeiras continuará sendo definida por listas partidárias, e aí está o risco: quem controla a lista, controla a Casa. No modelo de lista fechada, o eleitor vota no partido, não na pessoa. Quem decide quem entra primeiro na lista são os chefes dos partidos, geralmente dominados por dirigentes antigos, caciques e decanos que circulam há décadas no poder. Ou seja: o eleitor vota na legenda, mas não escolhe quem assume. 

Ainda existe um risco tão ou mais preocupante: se um criminoso, miliciano, terrorista ou alguém ligado a organizações ilícitas assumir a presidência de um partido, ele, possivelmente, será o primeiro da lista. Resultado? Poderá tornar-se deputado sem pedir um único voto e com recursos públicos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Sem campanha. Sem debate. Sem rua. Simples assim, e perigosamente simples. E o mais grave: uma vez eleito,  desfruta das prerrogativas do cargo, blindagens, foro privilegiado e verbas do orçamento secreto, o que pode transformar o mandato em escudo para garantir impunidade.

Não é ficção — é a consequência direta de um sistema que, embora avance na representatividade regional, ainda mantém a porta aberta para distorções graves nas estruturas partidárias.

O sonho (im) Possível: o Voto Distrital Puro

Se o VDM é um avanço, o Voto Distrital Puro representa o horizonte ideal. O modelo mais simples, mais direto e mais transformador. Nele não existe lista partidária, nem quociente eleitoral, nem efeito-arrasto. Cada distrito elege um representante — e ponto. Quem ganha, assume. Quem perde, volta para casa. Os benefícios são claros:

✔ Representatividade real e imediata.
✔ Proximidade entre eleitor e eleito.
✔ Responsabilidade direta: sabemos quem cobrar.
✔ Fim dos “caroneiros” eleitos pelos votos alheios.
✔ Campanha mais barata.
✔ Foco local, não nacional.

Seria o cenário definitivo: Itatiba deixa de ser figurante e ocupa o protagonismo. Sem depender de celebridades digitais, sem servir como trampolim para ninguém. Um representante que fosse a voz da cidade. E se não funcionar, na próxima eleição o eleitor troca. Democracia simples, devolvida ao dono original: o cidadão.

O futuro estará nas mãos de quem vota.

Nas próximas eleições de 2026, continuaremos sob o modelo atual — o mesmo que já mostrou, numericamente, que Itatiba vota… mas não leva. O futuro ainda estará nas mãos de quem vota — não de quem promete. Então, teremos novamente duas escolhas: repetir o erro e continuar invisíveis ou votar com consciência e fazer o voto dos itatibenses ter valor. 

O sistema pode até mudar um dia — mas até lá, quem muda o destino de Itatiba é o eleitor. Representatividade não se ganha — se conquista no voto.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

ITATIBA VOTA, MAS NÃO ELEGE


Com pouco mais de 80 mil eleitores, a cidade vive uma crise silenciosa. A cada quatro anos, o itatibense vai às urnas, participa, escolhe e vota, mas não elege ninguém que fale por nós. No sistema proporcional, nossos votos para os deputados estaduais e federais se perdem no oceano de milhões que formam o estado de São Paulo. O resultado é previsível: não conseguimos eleger representantes e seguimos sendo uma cidade sem voz em São Paulo ou Brasília. 

Os mais votados em Itatiba são, em geral, são os midiáticos, os que dispõem de campanhas milionárias, os que recebem o apoio de vereadores e ex-vereadores, e os que surfam na polarização entre direita e esquerda. A cada quatro anos, a cidade é invadida por um enxame de “paraquedistas”, candidatos sem vínculo com Itatiba que só aparecem em época de eleição. Para piorar, as eleições nacionais são usadas por políticos locais como um laboratório para medir sua popularidade e como palanque para consolidar o nome à próxima eleição municipal.

 O resultado dessa avalanche de candidatos foi cristalino nas eleições de 2022: os sete candidatos mais votados para federal em Itatiba somaram 25.047 votos — 42,47% dos válidos. Itatiba, efetivamente, não elegeu ninguém. O cenário fica desconfortável quando olhamos quem recebeu a confiança do itatibense:

  • Com 3.641 votos, uma deputada conhecida por suas trapalhadas e que protagonizou um vexame armado em plena campanha, hoje se encontra “hospedada” em um presídio na Itália.

  • Com 3.523 votos, um deputado que fez as malas, deixou o mandato e atravessou o continente em direção aos EUA. Hoje, vive como exilado voluntário para não encarar a Justiça brasileira.

  • Com 2.356 votos, um deputado e ex-ministro que confundiu política ambiental com negócios florestais. Responde no STF por contrabando de madeira.

  • 7.052 votos foi a votação de três aspirantes que nem o próprio partido conseguiu salvar. 

  • 8.475 votos. Esse foi o total do candidato mais votado — um filho da terra. Esses votos não ajudaram o partido e nem resultaram representatividade para Itatiba. Estão engavetados pela Justiça Eleitoral, sem definição — e, na prática, serviram somente para dar visibilidade ao candidato no período eleitoral.


Para a Assembleia Legislativa, o cenário foi semelhante. Os dois candidatos mais votados — ambos nativos da cidade — concentraram 41,35% dos votos válidos em Itatiba. Um desempenho expressivo, especialmente considerando que nenhum deles fez uma campanha relevante fora de Itatiba. Afinal, o objetivo não era uma cadeira na ALESP, mas medir forças e terreno para a eleição municipal de 2024. 

Itatiba vota, mas não elege. A pergunta é inevitável: como transformar voto em força política real? A resposta é simples: depende de quem colocamos lá. Em 2022, o eleitor itatibense apostou em candidatos que usam Itatiba como trampolim político e vitrine pessoal; votou na polarização, na simpatia, na fama digital e até em quem não sabe apontar Itatiba no mapa. Abrimos mão de representatividade, verba, de projetos e do nosso próprio futuro.

Falta, então, a pergunta principal: como transformar voto em representação — e essa, em resultados reais para Itatiba? A resposta existe, é simples e já está em debate no Congresso: o Voto Distrital Misto (VDM). Com ele, metade dos deputados seria eleita por distrito (regiões menores, como Itatiba e cidades próximas) e a outra metade por lista partidária, garantindo equilíbrio entre representação regional e força política dos partidos.

Nas eleições de 2026, não teremos o voto distrital, por isso, se queremos representação, temos que escolher melhor: com critério, com memória e com responsabilidade. O eleitor itatibense precisa pensar como o presidente Trump pensa nos EUA: em primeiro lugar, Itatiba. Depois, Itatiba. E, se sobrar tempo, novamente em Itatiba. 

No próximo artigo, falarei sobre o Voto Distrital Misto, a possível resposta que esperamos para a falta de representatividade de Itatiba.

Até lá!

Fabio Chrispim Marin

Consultor de Comunicação, Marketing Estratégico e Político